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Ou como Mário Covas trouxe a Broadway pra favela. Por Sueli Feliziani

 

Publicado em 02/02/2016

 

 

Você já viu West Side Story? Aquele musical em que gangues rivais imigrantes do mesmo bairro vivem em tensão por falta de políticas de imigração. Um garoto se apaixona por uma garota. E acaba tudo em salsa e tragédia?

 

Então, esta aqui é a história de como o governador das Covas fez a reorganização acabar em morte e fez todo mundo dançar.

 

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Territórios

 

Terça-feira à noite e eu saía da aula do noturno. Primeiro colegial. Quase dez e meia da noite, e meu namorado atrasado. Alguém veio buscar a namorada no colégio. Ela havia reencontrado o ex. O garoto levou 2 tiros. Eu tinha 15. Primeira semana de aula. O ano era 1995.

 

O Rio Pequeno, onde cresci,  é cercado de favelas por todos os lados. São Remo. Vila Dalva. 1010. São Domingos. Sapé. Paredão.

 

Estas comunidades tem, como todas as outras, suas dinâmicas sociais próprias e seus locais de convivência. O baile no lava rápido da Rio Pequeno. A boca. O futebol de várzea. Os encontros nos bares. O parquinho de diversões que aparecia duas vezes por ano no campinho do “Corintinhas”. O colégio.

 

Em 1994, Covas achou uma boa ideia separar escolas estaduais por ciclo de ensino. Primeiro grau de um lado, segundo de outro. Irmãos, amigos, namorados deixaram de estudar juntos. E alunos de comunidades diferentes, e, rivais, foram aprender português, matemática e física sentadinhos lado a lado. Isso não podia dar certo. Mas quem se importava? Era escola pública. Eram todos pobres. E eram em sua maioria, pretos, nordestinos, imigrantes e fodidos.

 

Teve gente obrigada a se deslocar por 3 quilômetros, as vezes mais (meu ex marido andava, na época, 5,5km até a divisa de Osasco pra estudar). Muitos trabalhavam, eu inclusa. Tinha gente com família. Namorados. Namoradas. Bons amigos. Outros não tão bons, nem tão amigos. O desafeto do bar. Tinha a treta do ex. O carrinho da final do campeonato de várzea. O ex da atual do anterior. O garoto que bateu no seu irmão na saída do fliperama.

 

 

Reorganizando estruturas sociais

 

Quando da reorganização de 94, fomos informados que ela era necessária para separar os alunos menores, mais frágeis, dos maiores, mais perigosos, nós, os secundaristas. O causo que eu contei parece corroborar a versão da Secretaria de Educação, mas a verdade é que lembro de alunos maiores acompanhando irmãos e vizinhos menores na ida e volta do colégio. Famílias que não podem arcar com transporte sempre conta que irmãos e vizinhos mais velhos cuidem e protejam os mais novos. Os alunos que até agora eram responsáveis pela segurança dos pequenos se tornariam uma ameaça ao fazer a transição para o secundário? Não acho..

 

Primeiramente, era óbvio que reorganização não levava em consideração o papel social da escola como local de convivência ou o bem estar dos alunos, nem as dinâmicas ali estabelecidas. A escola funciona como primeiro círculo de socialização da criança depois da família . Ali ela estabelece os primeiros laços de amizade e companheirismo. A escola também une pais, professores, família, diretoria, equipe, em prol do bem estar destas crianças. E ali a gente também começa com as primeiras tretas.

 

A reorganização mexeu com os vínculos estabelecidos. Com os afetos, desafetos e os pactos de proteção que haviam entre os estudantes. Jogou jovens adolescentes de comunidades diferentes, em locais de difícil acesso, em ambientes novos, e esperou que tudo desse certo.

 

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Reorganização pra quê?

 

Houve resistência popular, mas havia  muita gente a favor da separação. Os pais tinham medo. Decidida a reorganização, surpresas vieram alguns anos depois.

 

Na nossa região especificamente, não foi possível mapear prédios que tenham tido sua função alterada. Afinal havia um efeito colateral que a reorganização esperava produzir em algumas escolas: a diminuição drástica do número de alunos na passagem de ciclo duplo para ciclo único de ensino. Mas o aumento populacional da região não deixou isso acontecer. Muitos foram desmembrados em mais de uma unidade. Outros permaneceram com ensino de ciclo único.

 

A reorganização de fato parecia uma questão matemática. As estruturas tinham sido planejadas para 2 ou 3 turnos [ manhã, noite ou manhã, tarde e noite], em ciclos duplos, e agora abrigavam apenas 2 turnos em um ciclo. Era apenas questão de tempo para que o espaço ocioso e o excedente de recursos fosse “apontado” como um problema que carecia de solução. A solução do Estado era simples, dispor dos prédios. A pergunta era para quem.

 

O José Alves de Camargo. O Mafrão onde minha mãe estudou, e que fica na ZL não teve tanta sorte do meu colégio. Foi um dos fechados na primeira reorganização. Vendido o terreno para a construção civil, hoje ali temos um lindo condomínio de apartamentos. A farsa das crianças violentas cai por terra.

 

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As crianças, as escolas e os cães

 

Ano de 2015, mais um capítulo da novela, noventa e quatro escolas que estão na mira de fechamento estão em áreas de grande especulação imobiliária. Não temos mais covas, temos os cães.

 

Desta vez os alunos estão preparados. Os argumentos midiáticos de falta de cuidado com as escolas e de violência por parte dos estudantes estão sendo desmentidos pela atuação nas ocupações. Eles vão resistir a ter sua vida social e sua segurança viradas do avesso. Junto aos amigos, namoradas, família, professores. Resistindo e ocupando. Temo pelos alunos. Mais pelos alunos pretos. Não pelos conflitos, mas pelos cães. Alckmin retrocedeu, diminuiu a marcha. Adiou a execução. Mas  não desistiu da ideia.  Eles esperaram vinte anos, podem esperar mais um pouco.
O pior já passou, mas ainda tenho medo pelos cães do Estado. Eles adoram cheiro de criança. E eles odeiam crianças pretas. Qual o próximo capítulo da história?

 

 

 

 

 

 

Ilustração: Gunther Ishiyama

 

 

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