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Boi neon

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Sobre como o mundo não é pequeno e as pessoas não são simples. Por Lia Urbini

Publicado em 06/03/2016

 

Introdução viajante

 

Existem duas falas bastante comuns e que me deixam subindo pelas paredes.

 

A primeira delas é aquela: “nossa, como o mundo é pequeno!”.

 

Sempre imaginei uma situação limite: alguém se arrependendo muito ao saber que acabou de dizer isso pra quem tem familiar desaparecido, ou, num pensamento mais cotidiano, essa afirmação contrastando com a tristeza de pessoas que nunca mais se viram porque o regresso a algum lugar, para viabilizar o reencontro, é financeiramente inviável dada a distância.

 

Pra esse primeiro comentário despropositado, normalmente dito quando a pessoa te encontra acidentalmente e fica surpresa pela “coincidência”, a resposta “é a renda que anda concentrada” até que tem ganhado algum espaço.

 

Uma segunda afirmação que também me ofende um bocado: “fulanx é… bem simples, sabe?” (em referência a pessoas que ganham “pouco” e/ou com pouca ou nenhuma escolaridade, numa tentativa de falar simpaticamente sobre pobreza, desigualdade ou modos de vida e de aprendizados alternativos ao padrão urbano de classe média).

 

Acho espantoso que pessoas que ganhem alguma grana e/ou que frequentem ou tenham frequentado escola se achem mais “complexas” do que outras, sendo esse “complexo” sinônimo de “mais sofisticado”, “mais preciso”, “mais elaborado”.

 

Se a pessoa com grana e escolarizada realmente se dedicasse a olhar x outrx com um parâmetro que não fosse o próprio umbigo, talvez ela pudesse lembrar que, já faz tempo, lá em 1962, o antropólogo francês Claude Lévy-Strauss, no livro Pensamento Selvagem, já gastava toda uma saliva para explicar cientificamente que a estrutura de pensamento de outros povos que não os ocidentais/ocidentalizados não diferia, em termos de complexidade, da estrutura ocidental. O “pensamento selvagem” ou “primitivo”, não era um pensamento “inferior”. Era apenas um pensamento diferente, seguia outra lógica. De repente esse argumento talvez pudesse ser aplicado à realidade de pessoas de “mundos” distintos, ainda que dentro de um mesmo “ocidente”, mas separados pela classe ou pela geografia.  

 

Com um pouco mais de esperança na humanidade e com menos universidade no caminho, essa pessoa com grana e escola talvez pudesse apenas ser mais sensível e aberta pra outras possibilidades de existência, e perceber mais semelhanças entre ela e a “pessoa simples”. Porque complexo mesmo, no mau sentido, é se achar tão melhor e diferente que os outros…

 

Começo com essa digressão porque o Boi Neon – filme dirigido pelo recifense Gabriel Mascaro e que ainda está em cartaz em alguns cinemas por aí – foi pra mim uma brilhante resposta artística a esses pensamentos correntes. E porque as fórmulas do mundo pequeno e das pessoas simples, ao meu ver, possuem uma raiz comum num movimento bastante presente de reducionismo das experiências a partir de um centro dominante e hegemonizador, que deslegitima um tanto da “vida diversa”, da vida das mulheres e dos setores minorizados em geral. Vamos então a alguns comentários brotados ao assistir essa história.

 

Família rodante brasileira

 

As personagens presentes no filme estão, antes de mais nada, ligadas pelo trabalho. Trata-se de uma trupe que viaja num caminhão, passando de cidade em cidade, levando os bois e a equipe dos bastidores de um evento bastante popular no nordeste do Brasil, a vaquejada.

 

Pra quem não conhece, a vaquejada de hoje é uma atividade “recreativa-competitiva”, na qual dois vaqueiros têm o objetivo de alcançar e emparelhar um boi entre os seus cavalos, conduzi-lo até um local indicado por uma faixa de cal, onde o animal deve ser derrubado a partir de um puxão pelo rabo. Um dos vaqueiros é o vaqueiro-puxador, competidor responsável por entrelaçar o rabo do boi entre as mãos e derrubá-lo na faixa, e outro é o vaqueiro-esteireiro, competidor responsável por direcionar o boi e conduzi-lo até o local da faixa, emparelhando-o com o vaqueiro-puxador, além de entregar o rabo do boi ao vaqueiro-puxador.

 

Originadas da tarefa de separar os bois de diferentes donos em fazendas sem cercas, os montadores de cavalo que desenvolviam a habilidade de guiar e buscar os bois fujões acabaram tendo nas vaquejadas sua prática reconhecida e transformada em espetáculo. Hoje em dia elas são organizadas por grandes empresários, movimentam em torno de R$50 milhões por ano e contam com arenas lotadas, com média de público superior a 80 mil pessoas por noite. Para se organizar uma, o gasto médio é de R$800.000,00, sendo que essa espécie de tourada brasileira também carrega outros eventos associados como os leilões de cavalos e éguas. O clima pró-agronegócio obviamente favorece o crescimento de eventos como esses nos moldes do capital.

 

Pois bem, nesse mundo grande que tem gente fazendo de tudo um pouco, inclusive vaquejadas, existe um tanto de gente que vive em moradias bastante diferentes do modelo típico de revistas como Casa e Construção, e com famílias bastante diferentes do modelo típico dos comerciais de margarina. Em Boi Neon, a motorista do caminhão (Galega) conduz a equipe da vaquejada acompanhada de sua filha (Cacá). No veículo, além das duas e dos bois, vão Iremar (o preparador de rabos dos bois), Zé e Mário (outros dois funcionários). Vivem todxs no caminhão, unidos pelo vínculo do trabalho precário, e acabam compartilhando as responsabilidades de cuidar da criança e de se cuidar mutuamente.

 

Só por esse cenário inicial o filme já é muito interessante; ele permite que o espectador se aproxime de uma estrutura social que pode ou não ser próxima a sua, mas que só de não representar o modelo típico de um pai e mãe com filhx(s) biológicx(s) já dialoga com os mais de 50% da população brasileira que vivem em família com arranjos familiares “alternativos”. Ainda que juridicamente a família em questão seja apenas Galega e a filha, na prática vemos um cotidiano em que muito mais gente acaba extrainstitucionalmente performando papéis de parentesco nessa rede de vivências que de forma alguma são exigidos no contrato de trabalho.

 

Para além de figurar essa estrutura não convencional dos laços afetivos, Boi Neon também cresce a partir da escolha por compor essas personagens sem que a grande questão delas seja se transformar em uma família típica. Elxs não são uma família típica e está tudo bem. Existe apenas uma cena em que Galega se mostra sobrecarregada com a criação da filha, e algumas passagens em que a filha sugere querer procurar o pai, mas isso não é de forma alguma o mote do filme. São questões entre várias outras. Quem acompanha filmes de temática LGBT sabe o quanto isso é importante: a cada quantos filmes com personagens LGBTs você encontra um em que a questão principal não seja a saída do armário ou questões sociais geradas pelo fato da pessoa não ser hétero? Fica parecendo que não ser heterossexual será sempre uma assombração e a maior questão da pessoa…

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Performances de gênero não estereotipadas

 

Continuando na lista dos pontos marcados pelo filme ao não reproduzir estereótipos, podemos mencionar também a questão da performance de gênero das personagens. Até xs personagens que aparecem menos trazem complexidade na sua composição: não apenas a caminhoneira que faz bico de dançarina ou o vaqueiro estilista, mas também a vigia vendedora de perfumes; a garota que adora cavalos; o novo tratador de bois, que faz chapinha no cabelo e usa aparelho nos dentes por achar bonito, não por necessidade. O difícil no filme é encontrar um macho típico, ainda que o filme tenha como ambiente a vaquejada, tão associada ao universo hétero e masculino. Mesmo na cena em que Galega dança sensualmente para um bando de homens, ela o faz vestida de cavalo e de um modo muito mais empoderado e esquisito do que se poderia imaginar numa cena de dança erótica.

 

O próprio diretor afirmou, em entrevista pro A tarde, que ele não buscava com as personagens uma inversão de gênero, mas antes, uma dilatação dessas representações. E o bonito é que Mascaro consegue realizar essa dilatação fundamentalmente por imagens, muito mais do que por discurso. Não é um filme em que você percebe os acontecimentos ou a complexidade das pessoas através de longos monólogos ou diálogos filosofantes. É um filme sobretudo movido pelo corpo, por ações, o que o diretor resume como sua “aposta na experiência performática enquanto potência”.

 

Uma decorrência de tal opção é o foco bastante perceptível nos corpos. E ele não vem apenas associado ao universo da costura e da modelagem, mas também através das cenas do banho coletivo, da depilação na cabine do caminhão, da coleta do esperma, das cenas de sexo (um oral em pé, ao ar livre, entre Galega e o novo funcionário, e a cena longa e cheia de desejo da transa de Iremar com a vigia grávida), da garota mergulhando no cocô… Um corpo que filosofa, que deseja, que está intensamente presente.

 

E como frisou Reinaldo Glioche em sua crítica, um corpo que não se aproxima da animalidade como um dado inaceitável ou indesejado. A proximidade com o animal existe e as pessoas lidam com isso, são atravessadas sem que no entanto se trate de objetificação ou “menos humanidade”, como em outros tempos já se usou associar. A própria escolha do nome do filme, segundo entrevista do diretor ao Sala de cinema, se justificou por sublinhar a dimensão de um corpo que ao mesmo tempo resiste e sonha. Mas ainda outra camada de complexidade está presente: o sonho não é o típico desejo de mudar para a cidade ou enriquecer, e a resistência também não é vivida com sofrimento e angústia. Não são superobjetivos chapados, mas sugestões.

 

Mundão

 

Filmado em cidades de Pernambuco (Santa Cruz do Capibaribe, Ameixas e Caruaru) e da Paraíba (Picuí), o diretor enfatiza em diversas entrevistas o fato dxs personagens não quererem fugir, mas antes, quererem sonhar com novos devires naquele mesmo espaço.

 

As “pessoas simples” retratadas por Mascaro são figuras do nordeste de hoje, um território não mais marcado apenas pela fome e seca. O dualismo entre tradição e modernidade é bastante complexificado no filme, sendo a vaquejada, o elemento “tradicional”, atrelada fortemente ao mercado, e a industrialização, figurada pelas plantas das empresas de tecido, organizada em conjunto com o comércio de porta em porta, influenciada pela moda e pela cultura pop mas ressignificada em sua utilização.

 

Nesse sentido, a longa cena inicial de Iremar catando pedaços de um manequim num lamaçal repleto de retalhos e restos de uma confecção é impactante sem apelar para o óbvio. Ela dá o tom em relação à perspectiva adotada ao longo de todo o filme: fala-se, a partir dos bastidores, de uma realidade macro deduzida de uma “fatia da vida”. E enfatiza-se, sem heroificar ou glamourizar, as dimensões de resistência criativa possíveis nesse contexto fragmentado. São resistências e ressignificações individuais, sem dúvida, ou no máximo grupais, mas elas precisam ser percebidas e retratadas para qualquer compreensão sensível de planos abertos e de generalizações sociais que se deseje realizar.

 

O que fica pra mim de mais precioso depois de assistir ao Boi Neon é um conjunto de referências de ações, situações e imagens que apontam para desconstruções sem cair no vale tudo desconstrucionista da “contemporaneidade”. São desconstruções que também constroem, são construções que desconstroem. Além de um olhar extremamente atento às contradições e ao modo de expô-las, o que acaba se tornando uma ótima fonte para as análises do nosso momento histórico.

 

Ilustração: Patrícia Yamamoto

 

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