Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

política

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Colectiva La Tule

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Queremos ser o que tivermos vontade de ser, sem amarras, sem estereótipos, sem preconceitos ou imperativos! Da Costa Rica

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Judy Chicago | Red Flag | 1971

 

 

 

Como surgiu o coletivo e de que maneira o elemento gênero entra no trabalho de vocês?

 

Um café, não, melhor uma tequila ou um mezcalito [destilado preparado a partir do sumo fermentado do agave], e de fundo Lila Downs porque adoramos. A arte da criação surge por todas as partes, cozinhamos, compartilhamos histórias, alegrias e raivas, rimos muitíssimo, planejamos travessuras e sonhamos juntas. Definitivamente nos amamos. Que as chicas agrupadas são poderosas não tem nada de místico. É um fato, já que nos apoiamos, nossa raiva e nossas esperanças não estão sozinhas e podemos utilizar o arco-íris diverso das nossas capacidades para pensar e criar um mundo no qual podemos ser o que queremos ser harmoniosamente.

Não fazemos apenas intervenção na rua, também nos repensamos no processo e vice-versa; estar em um coletivo de chicas implica pensar-se como uma chica, uma que luta. Os temas abordados nas ruas surgem dessas reflexões e, assim, não queremos apenas perturbar o sistema que nos oprime mas também voltar a aprender todo o conhecimento do qual fomos tolhidas, o que nos torna vulneráveis e controláveis. E porque não queremos que nos controlem!

Fizemos mapas corporais para identificar as zonas que foram afetadas pelo ódio carregado por essas percepções que às vezes fazemos de nós mesmas, baseadas nos ideais de mulheres que deveríamos ser, ou marcadas por nossa história de vida, e as zonas que aprendemos a nos amar; assim como também temos colocado nossos corpos para assinalar a violência de gênero em ações de rua. Temos repensado nossa menstruação, convertendo-a em um canal para nos conhecer através das etapas de nossos ciclos, nos surpreendendo da sua relação com o ciclo da lua, o que nos leva a pensar em conexão com o universo que habitamos. E da raiva que surge dessas descobertas não estarem ao alcance de todas, de nos terem negado uma visão positiva de nosso corpo, cobrimos as paredes reclamando a apropriação da nossa menstruação, rejeitando o asco até ao nosso sangue.

Juntas, somos uma expressão combativa e múltipla de criação, reflexão, alegria, sororidade. É que nós não queremos ser mães, nem namoradas, nem geradoras de vida, nem cuidadoras de todas as coisas, nem divindades sagradas; queremos ser um respiro de liberdade consciente e responsável, uma criação de nossa própria reflexão e nosso próprio caminho. Queremos ser o que tivermos vontade de ser, sem amarras, sem estereótipos, sem preconceitos ou imperativos!

 

 

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Quais são as atuais estratégias de ação?

 

É como feministas jovens, rebeldes, insubmissas e inconformes que integramos a Colectiva La Tule, gostamos de transformar nossas ideias políticas em ações diretas. Achamos que a ação política deve conter muita criatividade, ser dissidente e contestadora. Gostamos de amanhecer colando lambes nas paredes e muros da rua, dando forma ao nosso mal-estar e denunciando com força o que nos incomoda e nos oprime. Também fazemos intervenções onde colocamos nosso corpo, dramatizando situações de desigualdade e, dessa forma, colocando-as para a discussão no espaço público. Apresentamos duas ações que realizamos como coletiva.

 

 

Poner la Sangre

(perfomance | 2 de agosto | 2013)

 

Colocar o sangue do asco sobre nossos corpos e nossos corpos serem evidência de todos os preconceitos e particularidades de ter “corpo de mulher”. Botar para que deixe de ser invisível, para que nunca mais tenhamos nojo dele. Introduzimos nossos corpos em um mar de olhares, de passos que veneram uma mulher que “não tem menstruação porque é santa”. Evidenciamos esse falso pecado, designado para difamar o corpo das mulheres e, assim, controlá-lo com invisibilidade, silêncios, angústias, dor, loucura e doença.

Nós colocamos o sangue do asco para dizer que não temos asco. Convidando a todas que querem ser santas e as que não; as que têm muitos filhos, as que não são da capital, as que se envergonharam porque mancharam a cadeira onde estavam sentadas e o lamentaram; as que se distraíram e se deram conta que caminharam o dia todo manchadas e sentiram um vazio no estômago de angústia, as que escutaram um “imunda” ao verem uma grande mancha entre as suas pernas e sentiram-se humilhadas.

Não estávamos manchadas de sangue, mas de vergonhas alheias e próprias. Saímos contracorrente de uma procissão que talvez não tenha imaginado que La Negrita [a Virgem] menstruou. Iamos contra um mar que crê em uma mulher que não menstrua, porque é santa. Nós, portanto, pecadoras. Um útero, um endométrio, são sangue e tecidos. Mas não é qualquer parte do corpo, são que revelam o que podemos decidir o que fazer com ele, nele podemos viver a experiência uma construção concêntrica, de nos conectar com a lua e de ser como outros neste planeta… ou de simplesmente viver um ciclo hormonal. A mitologia grega, a inquisição, a revolução francesa, as novas constituições de estados modernos fizeram o possível para controlar essas forças caóticas, colocar o asco, o nojo, onde está a vida. Como os olhos que observam outras mulheres, com os olhos que observamos a nós mesmas, La Negrita, a fé, encontramos olhares de assombro, de piada, de ignorar o visível, do nojo a um corpo que é o mesmo que o dela. Meu espanto foi a constante rejeição ao panfleto com informações de mulheres de minha idade, muito lindas, muito arrumadas, muito bonitas… Era como se estivessem rejeitando o feio, o oculto delas que agora está iminentemente real.

Evidente que houve olhares de mulheres com cumplicidade, de encontro com esse orgulho de viver com o que é seu. A lua ia com a gente, nos acompanhava no caminho. A lua vermelha que reconcilia os fluidos. Mas uma coisa que não esquecerei é que, durante todo o trajeto, foi justamente um homem o único que se atreveu a nos dizer “cara, que nojo!”.

 

 

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 [Fotografia: Una Tule]

 

 

¡Nunca las olvidaremos!

(performance | 25 de noviembre | 2014)

25 de novembro, um dia em que muitas mulheres saímos para denunciar a violência que é o pão de cada dia. São muitas, muitas as histórias que escutamos, que nos contaram, que vivemos, que retumbam nas paredes de nossas histórias de vida. Como Tules começamos a nos perguntar sobre essas violências, a nos contar histórias, a desabafar, a vomitar essa realidade que nos mutila, nos golpeia, agride, faz com que nos sintamos pequeninas, débeis, inseguras, nos mata pouco a pouco, ou de uma vez só. Feminicídio, quantos acontecem por ano? Hoje alguém me disse que chegamos a um por semana… Começamos, então, a buscar histórias na nossa memória, nos meios de comunicação, no que vemos na rua. Cada uma iria representar uma mulher, uma história, um resultado; foi um trabalho que nos tocou nas fibras, nos percorreu o corpo e o olhar. Nos realimentamos, nos imaginamos, rostos de mulheres que conhecíamos, que compartilharam com a gente, mulheres latino-americanas, mulheres fortes, mulheres lutadoras, mulheres de carne e osso.

Sair pela cidade de San José [capital da Costa Rica], botar o corpo, botar as emoções, botar a voz, botar a cara. Cada uma, uma história, uma morte, uma violência que condensa o ódio, a exploração e o poder de um sistema patriarcal. Um golpe que dão em TodAs nós, que dão não apenas com os punhos mas também com os olhares, com as oportunidades desiguais, com a falta de reconhecimento, as limitações, as barreiras, as culpas, a submissão, a pobreza, a dependência. Dizer isso na [rua] Paseo de las y de los estudiantes, onde um monte de moças de uniforme nos viram, escutaram, sentiram; e, indignadas, gritaram contra essa violência cotidiana. Uma emoção e alegria percorre nossa pele, de sentir que as mulheres estão fartas, fartas de serem violentadas no colégio, em casa, no trabalho, com xs companheirxs, na rua e na cama.

Caminhamos com força, com raiva e dignidade para denunciar, para subverter o espaço urbano, para tornar pública esta violência. Sinalizar que quando nos calamos, somos cúmplices, para questionar as pessoas, para montar um altar para estas muitas mulheres que são assassinadas todos os dias, neste país, na América Central e no mundo. Para dizer que nunca as esqueceremos, que seguimos lutando por elas, por nós, e pelas que virão.

 

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[Fotografia: Otra Tule]

 

 

Como é a relação de vocês com outros movimentos?

 

La Tule [já] realizou diversas atividades de articulação com  movimentos de mulheres do país. Nos encontramos com aquelas coletivas que compartilham uma sensibilidade política feminista, autônoma e horizontal.

Um exemplo disso foi a ação direta que se realizou durante uma manifestação “pró-vida”, na qual diferentes igrejas se uniram numa marcha pela cidade de San José contra o aborto. Esta atividade é reflexo de uma posição ultraconservadora e fundamentalista que ultimamente tem calado com maior força o imaginário costa-riquenho. Diante disso, realizamos reuniões de organização nas quais se articulou, com grupos de mulheres feministas jovens, uma ação que reflete nosso repúdio à intromissão religiosa em nossos corpos. Fizemos, então, uma contramarcha, em que inicialmente rezávamos a Oração pelo Direito de Decidir e nos inseríamos desta forma na manifestação. Em um momento específico nos aglomeramos em uma área, tiramos as faixas e tiramos as nossas camisas. Nossos corpos levavam mensagens de apropriação e denúncia; nos manchamos de vermelho, refletindo assim a violência exercida sobre nós. Esta ação nos permitiu conhecer outras mulheres cansadas de tanta desigualdade, críticas a uma sociedade patriarcal e machista.

A partir disso articulamos outras ações. Na Costa Rica, 14.000 crianças e adolescentes por ano tornam-se mães. Este número nos deixou arrepiadas, decidimos realizar uma intervenção com outras coletivas feministas. Realizamos uma performance na qual representávamos crianças grávidas, cada uma contando una história de abuso e apontando aquelas figuras masculinas que cometem o delito. Alguns dos gritos de ordem para a ação foram: Exigimos uma educação sexual sem intromissão da igreja!, Exigimos a visibilidade das gestações de crianças como uma situação de abuso e violência, Exigimos nosso direito de não viver com medo; Exigimos não sermos violentadas sexualmente, nem emocionalmente; Exigimos um Estado laico; Exigimos acesso ao aborto em condições seguras, Exigimos nosso direito de decidir sobre os nossos corpos!

Também articulamos ações como intervenções de grafite com ativistas de outras coletivas. Conseguimos nos encontrar, compartilhar ideias, desenhar estênceis, escolher frases e sair com muita energia e raiva para escrever nas paredes o que não sai nos grandes meios de comunicação. Denunciamos não somente temas relacionados à desigualdade de gênero, mas também àqueles episódios de corrupção, esquecimento, de esmagamento, e de violência contra outros setores da população – como, por exemplo, indígenas, migrantes e pessoas trans.

 

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[Fotografia: Palabra de Mujer. Canal 15]

 

 

Quais os principais desafios do coletivo hoje?

 

É triste ver como os governos tentam cooptar as diferentes lutas sociais. Um exemplo disso foi o que aconteceu 25 de novembro de 2014 na Costa Rica, na marcha de celebração do Dia Internacional contra a Violência contra as mulheres. O gabinete dos holofotes liderado pelo presidente da república Luis Guillermo Solís encabeçou esta marcha. Esta situação é incômoda uma vez que o Estado costa-riquenho é apático para resolver os temas sobre equidade, justiça e liberdade de gênero.

Os números são alarmantes, dado que, segundo os informes da divisão de Estatística do Poder Judiciário, a cada dia cinco mulheres são vítimas de abuso ou de tentativa de abuso neste país. Durante este ano já foram cometidos 18 feminicídios, além disso, em 2013 foram abertas  por mulheres 11.133 denúncias de violência doméstica… Quantas agressões não são denunciadas por medo?

Ou seja, a situação da Costa Rica é nefasta no que se refere aos direitos das mulheres. Ainda que o país tenha boa reputação como estado que “respeita” os direitos humanos, está muito longe de garantir vida digna para as mulheres.

Em 2007  estima-se que se realizaram 27 mil abortos induzidos, o que na média significa um aborto para cada três nascidos vivos. As estatísticas refletem só uma parte da situação de estigma e estigmatização que as mulheres vivem, em um país onde o aborto está tipificado como delito. Legalidade que legitima as práticas violentas de centros médicos e de uma sociedade misógina que vulnerabiliza ainda mais a qualidade de vida das mulheres.

A Costa Rica é um dos últimos estados confessionalistas que existem no mundo. A religião oficial é a católica. O que concede à Igreja a permissão de realizar evasão fiscal, [promover] a obrigatoriedade de aulas de religião em toda a educação secundária pública do país e  obter uso do registro nacional dos seus habitantes.

A Igreja católica é uma opositora ferrenha aos guias de educação sexual para a educação pública, para a Fecundação in Vitro; é cúmplice de abusos de pedofilia e junto ao crescimento neoconservador de partidos políticos evangélicos, faz aliança com deputados na Assembleia Legislativa para deter projetos de lei sobre a legalização da união civil e o matrimônio de pessoas do mesmo sexo, o direito à identidade de pessoas trans e propõe, por outro lado, projetos de lei que significam um retrocesso nas vitórias de leis que penalizam a violência contra as mulheres.

Em geral, está havendo um retrocesso em matéria de direitos adquiridos de igualdade de gênero. Esta tendência, longe de ser um fenômeno isolado na Costa Rica, se faz sentir a nível regional, já que existem grupos de homens organizados que tratam de esquivar-se de suas responsabilidades legais, mostrando-se como vítimas.

Mas nem tudo está perdido. Apesar da tentativa de institucionalizar a marcha do dia 25 de novembro, diferentes pessoas da sociedade civil,  com seus coletivos e coletivas, ONGs, sindicatos, agrupamentos ou de forma autônoma, somaram seus próprios recursos e sua criatividade para exigirem que se acabe com a violência contra as mulheres, visibilizando o quanto esta violência nos afeta a todxs como sociedade.

 

anna

 

 

Colectiva La Tule

MAIS INFORMAÇÕES:

Fanzine Nº2 FEV/2015

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