Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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LuluzinhaCamp

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Temos mulheres lindas na web brasileira e o LuluzinhaCamp consegue, de algum jeito muito único, juntar muitas delas.

 

 

yayoi

Yayoi Kusama | Self portrait (Tway) | 2010

 

 

Quais as origens do LuluzinhaCamp?

 

LuFreitas: O LuluzinhaCamp nasceu de um processo que rolou em 2007. Nos eventos de tecnologia que frequentava, encontrava sempre as mesmas mulheres, um punhado só. Enquanto isso, no universo web, eu vivia o “furor das mães” (que existe até hoje) que são internautas presentes, ativas, produzem muito conteúdo. E não só as mães. Temos mulheres lindas na web brasileira e o LuluzinhaCamp consegue, de algum jeito muito único, juntar muitas delas (somos cerca de 500, hoje) num convívio regular.

 

 

Quais os principais desafios do Luluzinha e das mulheres que trabalham com blogs e informática no mercado brasileiro?

 

Paula Maria: Acredito que um dos maiores desafios tem a ver com a inserção das mulheres em âmbitos que geralmente são habitados por homens. Em linhas diretas: o machismo! O que não significa que não tenhamos milhares de mulheres produzindo conteúdo, produtos, etc. Ainda há uma questão de humilhação e diminuição do gênero que impede/diminui/ridiculariza a participação feminina neste ramo.

LuFreitas: Continuar a construir presença digital. Com o uso mais frequente do Facebook, tendemos a não publicar em nossos espaços, não construir narrativas fora dos muros do Zuck [Mark Zuckerberg, fundador do Facebook]. O grande problema é que lá, as narrativas só servem a ele. Nos blogs, são compartilhadas por qualquer internauta.

 

 

Quais as principais estratégias de ação do Luluzinha para 2015?

 

Glória Celeste: Incentivar o crescimento e renovar os grupos existentes através da articulação e autogestão regional.

Juliana Garcia Sales: Retomar a distribuição de conteúdo, de forma descentralizada. Atuar não só na área de tecnologia e internet, mas também no incentivo ao empreendedorismo e à economia criativa.

LuFreitas: Terminar de colocar a nossa “plataforma-site” no ar. O projeto estacionou e empacou.

 

 

Como o grupo entende o movimento feminista e o integra?

 

Suzana Elvas: Sempre falamos no grupo que nosso trabalho é um “trabalho de formiguinha”. Cada uma de nós, a cada momento do seu dia a dia, tenta mudar a sociedade machista, misógina, preconceituosa e intolerante em que vivemos. Seja denunciando ou apenas conversando com a pessoa ao lado no ônibus, tentamos fazer com que as pessoas vejam que homens e mulheres, independentemente de qualquer coisa (orientação sexual, religião ou ausência dela, cor, time, gentílico ou whatever) são seres humanos no mesmo nível, cada um com suas especificidades e necessidades, mas, no geral, iguais.

Paula Maria: O entendimento é heterogêneo, como o movimento feminista é. Não tem uma só cara nem uma só bandeira. Não concordamos o tempo todo. Travamos longas discussões por email e pela vida afora. O que tentamos passar enquanto mensagem é que devemos nos unir e proteger umas às outras. O mundo já é deveras cruel para com as mulheres. Precisamos cuidar mais umas das outras.

Elisa Mafra: Cada uma de nós entende e luta mais em uma frente do movimento do que em outra, cada uma de uma forma: escrevendo textos, fazendo vídeos, conversando com pessoas próximas, dando palestras, indo a manifestações. Dentro do LuluzinhaCamp nós divergimos e temos muitas discussões sobre alguns pontos, o que é normal, mas TODAS as opiniões são respeitadas e ouvidas. Mesmo que eu discorde de você, você tem espaço para dizer o que pensa, assim como espero ter o mesmo espaço para responder ou contra-argumentar, gerando uma discussão produtiva, não com ataques. Algo que deveria ser comum em toda sociedade.

 

 

Como essas discussões sobre o feminismo implicam nas suas ações?

 

Glória Celeste: Incentivar o grupo a pensar, discutir, escrever e, como consequência, amadurecer as ideias sobre diversos assuntos profissionais e pessoais que, em outros espaços, não são possíveis de se pôr em prática com a profundidade suficiente que o grupo apresenta.

Suzana Elvas: Eu sou mãe de duas adolescentes, de 13 e 15 anos. Todos os dias, elas vivenciam o que é ser mulher – seja pelo comentário grosseiro do frentista, seja pela observação machista de um professor ou até mesmo na família, com indiretas da avó que acha um absurdo dois primos dormirem na mesma cama, um gay ser o melhor amigo de uma das meninas e que diz que “mulher gorda fica sozinha e infeliz”.

É uma luta diária e angustiante tomar decisões que, muitas vezes, contrariam o que eu digo e penso, como pedir a uma delas que não vista uma saia curta para ir ao cinema porque ela voltará à noite para casa andando, ou escolher usar o vagão rosa do metrô (mesmo achando que confinar as mulheres em vez de educar e punir os homens que as importunam NÃO é a solução) para que as meninas não passem novamente pela experiência de serem encoxadas no trem lotado.

Cada tópico debatido entre nós do LuluzinhaCamp me dá mais ferramentas para ensinar a elas o que é ser uma mulher com todos os direitos e liberdades que elas merecem ter; é mostrar que a beleza está na diversidade, nas escolhas, no domínio de si própria, de suas decisões e de seu corpo; como lutar contra o que fere a sua dignidade; como manter-se de pé em um mundo que, a cada dia, tenta nos subjugar através da religião, da política, do sistema judiciário, da moral, do mercado de trabalho, da propaganda, da educação.

A cada tópico eu aprendo mais como ensinar a elas o conceito do “trabalho de formiguinha” – aquele que, aos poucos e através de quase 500 Luluzinhas, tenta deixar para elas e para tantas outras filhas (e filhos, também, e mais sobrinh@s, filh@s de amig@s, entead@s, alun@s, vizinh@s), um mundo melhor.

Juliana Garcia Sales: As discussões no grupo desenvolvem a empatia e o acolhimento. Além disso, ficamos muito mais informadas sobre nossos direitos e como nos fortalecer internamente para conseguir esses direitos. Aprendemos aos pouquinhos e diariamente que podemos ser quem a gente quiser.

Elisa Mafra: Por ter sido criada nessa sociedade machista, algumas coisas que soavam como normal, depois de tantas conversas e discussões, passam a ser vistas com olhos de “tem algo errado aí”. Aprendi a avaliar muito mais discursos, piadas, conversas, expressões. Como um simples comentário, que às vezes nem tinha a intenção de ser machista, o é. Além de pensar no machismo, começamos a ver todas as lutas das “minorias” contra a homofobia, o racismo, a gordofobia, e como podemos ser cruéis com o diferente sem nem notar. Comecei a ver o mundo com outros olhos.

 

 

 

LULUZINHAS
LuFreitas tem 49 anos, é jornalista e fundadora do grupo.
Paula Maria é capixaba, tem 28 anos, é psicóloga e terapeuta formativa.
Glória Celeste é carioca, negra, 45 anos, assistente administrativa, como redatora escreveu projetos e para mídias sociais, bacharel em Língua e Literatura Alemã.
Juliana Garcia Sales é paulista, tem 33 publicitária, e trabalha com marketing digital.
Suzana Elvas é carioca, 48 anos, jornalista por formação, trabalha como editora, revisora e tradutora.
Elisa Mafra é paulista, tem 27 anos, radialista de formação e confeiteira.

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