Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Movimento de Extinção Humana Voluntária

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É sério, mesmo. Por VHEMT

 

Publicado em 06/03/2016

 

 

Traduzido do site do Movimento de Extinção Humana Voluntária (VHEMT) por Gui Mohallem

 

 

Mudando um pouco os padrões, essa publicação não tem nenhuma relação explícita com gênero e sexualidade, mas aborda uma discussão que interessa aos diversos tipos de arranjos famíliares. Xs filhxs são muitas vezes considerados a validação da família –  e nesse sentido, sua inexistência desqualificaria essa unidade.

Enormes são os esforços e avanços das famílias queers em conseguirem constituir descendência, sendo a fertilização assistida e a barriga de aluguel os recursos mais utilizados por casais desviantes do padrão dominante atualmente.

Num contexto de uma superpopulação que consome cada mais recursos e produz cada vez mais lixo, é no mínimo curioso que se fale tão pouco de uma outra opção viável— e não só para as famílias queer— simplesmente não procriar.

O Movimento de Extinção Humana Voluntária tem uma sessão bastante completa em seu site de perguntas e respostas. Traduzimos aqui algumas das mais esclarecedoras.

 

 

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O que é o Movimento de Extinção Humana Voluntária?

 

VHEMT (pronuncia-se igual a Veemente em Inglês: Vehement) é um movimento e não uma organização. É um movimento desenvolvido por pessoas que se preocupam com a vida no planeta Terra. Nós não somos apenas um bando de misantropos e antissociais, desajustados malthusianos, tendo prazer mórbido sempre que uma catástrofe acomete seres humanos. Nada poderia estar mais longe da verdade. A extinção humana voluntária é a alternativa humanitária aos desastres humanos.

 

Nós não tagarelamos sobre a forma como a raça humana tem se comportado como  um parasita ganancioso e amoral sobre a face um dia saudável do planeta. Esse tipo de negativismo não oferece nenhuma solução para os inexoráveis horrores que a atividade humana está causando.

 

Em vez disso, o Movimento apresenta uma alternativa animadora à fria exploração e destruição em massa da ecologia da Terra.

 

Como xs voluntárixs do VHEMT sabem, a esperança alternativa à extinção de milhões de espécies de plantas e animais é a extinção voluntária de uma espécie: o homo sapiens, nós.

Cada vez que um de nós decide não adicionar outro de nós aos bilhões em expansão já espremidos sobre este planeta deformado, um raio de esperança brilha através da escuridão.

 

Quando cada ser humano optar por parar de procriar, a biosfera da Terra será autorizada a regressar à sua antiga glória, e todas as criaturas restantes serão livres para viver, morrer, evoluir (se elas acreditarem em evolução), e talvez se extinguir, como tantos “experimentos” da natureza têm feito ao longo das eras.

 

Mas para isso, é preciso que a gente vá embora.

 

 

Serião?

 

Somos veementes.

Muitos vêem humor no movimento, e acham que uma proposta de extinção humana voluntária não pode ser verdade. Realmente encontramos algum espaço para o humor nesses assuntos tão graves, pois, sem humor, a condição da Terra fica ainda mais deprimente.

 

A vida selvagem estar rapidamente se extinguindo e dezenas de milhares de crianças estarem morrendo todos os dias não são assuntos engraçados; contudo, lamentar-se não vai mudar o que está acontecendo. Podemos muito bem ter algum divertimento enquanto trabalhamos em direção a um mundo melhor.

 

Além disso, devolver à Terra o seu esplendor natural e acabar com o sofrimento desnecessário da humanidade são pensamentos felizes não tem sentido ficar amarguradx na melancolia e na desgraça.

 

 

Por que vocês não se matam, então?

 

Esta é a pergunta mais frequente de todas. Bastante justa, por sinal: se somos tão ruins para qualquer habitat que estamos ocupando, por que não por um fim nisso tudo? Existem várias razões pelas quais o controle da natalidade retroativa não é uma parte do VHEMT.

Aumentar a morte é como tentar socorrer um barco afundando sem tampar o vazamento. As pessoas estão chegando duas vezes mais rápido do elas estão deixando o planeta.

Já é difícil levar as pessoas a considerar não se reproduzir. Defender o suicídio, por qualquer método, seria uma venda particularmente difícil. Não há nenhuma maneira de convencer as pessoas a se matar e assim fazer a diferença, especialmente porque morto não fala. O suicídio não define um exemplo que pessoas podem seguir.

 

A morte vem logo cedo demais para muitos de nós. Depois de trabalhar a maior parte de nossas vidas, uma dúzia de anos de aposentadoria não é pedir demais. Aqueles anos podem ser dedicados a causas humanitárias e ambientais.

 

Encurtar a vida de uma pessoa por algumas décadas não evita tantos anos de impacto humano como não criar uma nova vida uma com o potencial para produzir mais de nós.

 

Nós temos a responsabilidade de ajudar o mundo tanto quanto somos capazes antes de morrer. Deixar o trabalho para os outros seria irresponsável.

 

VHEMT é uma causa pela qual viver, não pela qual morrer.

 

 

Vocês acham que  isso vai dar certo?

 

Xs voluntárixs do VHEMT são realistas. Sabemos que nunca veremos o dia em que não haverá seres humanos no planeta. A nossa meta é de longo prazo.

 

Dizem que existem apenas duas chances de que todo mundo se voluntarie para parar de procriar: mínima e nenhuma. As probabilidades podem estar contra a preservação da vida na Terra, mas a decisão de parar de reproduzir ainda é a moralmente correta. Existe uma grande probabilidade de fracassarmos em evitar a hecatombe para a qual que a humanidade está se dirigindo. O futuro não é o que costumava ser.

 

Mesmo se as nossas chances de sucesso fossem uma em cem, teríamos que tentar. Desistir e permitir que a humanidade siga seu curso é inconcebível. Há muita coisa em jogo.

 

O movimento pode ser considerado bem sucedido cada vez que mais umx voluntárix decide a não mais procriar. Estamos sendo a mudança que queremos ver no mundo.

 

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Será que novos vírus, guerras, fome e resíduos tóxicos ajudarão a causa da extinção humana?

 

Não. As epidemias na verdade fortalecem a espécie, se um número suficiente de indivíduos sobreviver. Com quase sete bilhões de nós, não há vírus que pode aniquilar-nos por completo. Se 99,99% morrerem, ainda restariam mais de 700 mil sobreviventes imunes, prontos pra se replicar. Em menos de 50 mil anos nós estaríamos de volta exatamente onde estamos. Sofrimento e morte não ajudam. Só causam dor.

 

A morte em massa da humanidade, previsto por muitos como um resultado da nossa superação da capacidade de suporte da Terra, é o que o Movimento de Extinção Humana Voluntária espera evitar.

 

 

O que há de errado com os bebês? Vocês não gostam de bebês?

 

Xs voluntárixs do movimento amam bebês, tanto quanto qualquer outra pessoa. “Ter bebês” não é tanto o problema são os adultos que eles vão virar que causam os problemas. O impacto ambiental das fraldas descartáveis ​​é pesado, mas somos adultos por muito mais tempo do que somos crianças.

As pessoas que imaginam ter um bebê muitas vezes esquecem que eles estão criando um ser humano inteiramente novo.

A juventude é uma fase maravilhosa da vida, quer se trate de pessoas, pandas ou panteras. É triste imaginar não haver mais nenhum deles. Um condor bebê pode não ser tão bonito como um bebê humano, mas devemos escolher a renunciar a um, caso queiramos que os outros sobrevivam.

O bem-estar das crianças tende a melhorar se existir menos delas para cuidar. Considerando o mundo futuro que estamos criando para as próximas gerações, a procriação, hoje, é como alugar um apartamento em um prédio em chamas – e alugá-lo para ninguém menos que nossos filhos. Escolher abster-se de produzir outra pessoa demonstra um profundo amor por todo o tipo de vida.

 

 

E sobre o instinto humano para se reproduzir?

 

Os seres humanos, como todas as criaturas, têm impulsos que levam à reprodução. Nosso impulso biológico é ter relações sexuais, não fazer bebês. O nosso “instinto de procriar” é o mesmo que o de um esquilo em plantar árvores: o desejo é para armazenar alimentos, as árvores são um resultado natural. O sexo é um desejo de procriar assim como a fome é um desejo de defecar.

 

Desejos induzidos culturalmente podem ser tão fortes que parecem ser biológicos, mas não existe nenhum mecanismo evolutivo para um instinto de reprodução. Por que nós paramos de procriar depois de termos os filhos que queremos? Se o instinto fosse o de reproduzir, como seria possivel que tantos de nós sejamos capazes de não fazê-lo? Há gente demais que nunca sentiu essa vontade: numa porcentagem tão alta da população, a gente não pode falar em mutações.

 

Olhando para as nossas raízes evolutivas, imagine um homo erectus sentindo o desejo de criar um novo ser humano. Ele então tem que entender que precisa de uma mulher das cavernas, e que com ela precisa ter uma relação sexual, e ainda que eles vão ter que esperar nove meses.

 

Considerando a frequência com que nossa espécie tem o desejo para o sexo, é provável que a sexualidade humana sirva primariamente para pareamento do casal, em vez de procriação. Os bebês humanos eram tão vulneráveis ​​por tanto tempo que a sua sobrevivência, em tempos pré-históricos, pode ter dependido de uma forte ligação entre os pais. Relata-se que os Bonobos, talvez os nossos mais próximos parentes biológicos, praticam sexo por razões sociais mais do que por razões reprodutivas.

 

 

Sou super inteligente. Não deveria passar meus genes adiante?

 

Bem, você toparia fazer um simples teste de inteligência se fosse necessária uma “licença da procriar”?

 

Apenas responda a essa questão:

 

À luz de dezenas de milhares de crianças que morrem de desnutrição a cada dia, e considerando o número de espécies sendo extintas como resultado da nossa reprodução excessiva, você acha que seria uma boa ideia para criar umx outrx de si mesmx?

 

SIM

NÃO

 

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Se produzirmos só duas crianças, isso apenas não nos substitui no mundo?

 

A noção de que a produção de dois descendentes simplesmente substitui um casal e não cria nenhum aumento no impacto é ilusória. Nós não somos salmões para desovar e morrer. A maioria de nós vai estar por perto para ver nossos descendentes gerarem outros, e quem sabe até a prole dos netos.

 

Quando um casal de nós “substitui” a nós mesmos, o nosso impacto ambiental dobra supondo que os estilos de vida dos nossos descendentes sejam tão “ legais” com o ambiente como o nosso, e que eles não vão se reproduzir.

 

A mensagem de “parar em dois” realmente incentiva a reprodução por casais “qualificados”, quando cada um de nós em todo o mundo industrializado tem um enorme impacto na natureza, independentemente do que seja essa qualificação.

 

Por exemplo, em termos de consumo de energia, um casal estadunidense parar em dois é aproximadamente o mesmo que um casal médio indiano parar em 30, ou um casal de Bangladesh parar em 97.

 

Independentemente de quantos descendentes temos ou não produzido, em vez de parar em dois, temos de parar de uma vez por todas.

 

 

Qual a posição oficial do VHEMT?

 

Uma vez que o Movimento Voluntário de Extinção Humana não é um ser vivo com cérebro e boca, ele não pode tomar posições ou ter opiniões. Também não pode entrar em discussões, dizer às pessoas o que fazer e pensar, nem levar um soco para parar de ser besta.

 

A extinção humana voluntária é simplesmente um conceito a ser adicionado ao sistema de crenças existentes, não um código complexo de comportamento para viver. Nenhuma alta comissão decide qual posição todo mundo deve tomar.

 

A maioria dxs voluntárixs se identifica com a filosofia incorporada no lema “Que vivamos muito e acabemos”, mas se a pessoa não quiser viver muito, isso é uma questão dela. Realmente, a única ação necessária para se tornar umx voluntárix ou apoiadorx do VHEMT é a decisão pela não adição de um outrx ser humano à população do planeta. Um casal pode estar grávido e decidir se tornar voluntário. Esse novx ser humano seria x últimx que eles produziriam. Xs defensores VHEMT não são necessariamente a favor da extinção humana, mas concordam que não devemos produzir mais de nós neste momento.

 

Xs voluntárixs são tão diversxs em pontos de vistas religiosos, políticos e filosóficos que seria um erro começar a formular posições oficiais do movimento. Cuidado com dogmas. Cada um fala com sua própria voz.

 

 

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Quando e como começou o VHEMT?

 

Raízes do VHEMT são tão profundas quanto a história humana. Existe potencial para um movimento extinção humana voluntária desde que humanos existem.

 

Quando humanos da Idade do Gelo caçavam animais até a extinção, pelo menos um dos neandertais sapientes entre eles pode ter raciocinado para além da perplexidade. Enquanto o Crescente Fértil tornava-se um deserto estéril, e os cedros do Líbano eram sacrificados para os templos, alguém deve ter pensado: “isto é um mau presságio.” Quando os romanos alimentaram seu império extraindo recursos de todos os lugares, certamente alguém comentou: “Humanus non gratus“, ou algo parecido. Alguém tinha que ficar com a ideia de que o planeta seria melhor sem essa horda atarantada.

 

Alguém, quer dizer, além do deus do Oriente Médio, Javé / Jeová / Alá. A tradição conta como, em tempos pré-históricos, este deus-criador percebeu seu erro em fazer seres humanos, e que estava para nos despejar do sistema, mas em um momento de fraqueza ele poupou uma família fértil (Gênesis 6: 1-22). Ops!

 

A história de Atrahasis, um antigo mito sumério registrado em textos babilônicos, fala de vários deuses conspirando para livrar a Terra das criaturas incômodas que eles tinham moldado a partir do barro. Um deles sorrateiramente adverte um ser humano para construir um barco antes do dilúvio, e o resto é nossa história.

 

Chamamos o Movimento de VHEMT, mas, sem dúvida, lhe foram dados outros nomes ao longo da história. Nenhum foi registrado, pelo que a gente sabe.

 

Deve haver milhões de pessoas em todo o mundo que estão chegando de forma independente à mesma conclusão. Uma grande parte dxs voluntários de hoje eram extincionistas “veementes” antes de aprenderem o nome do movimento.

 

As verdadeiras origens do movimento podem ser encontrados na abundância natural de amor e lógica dentro de cada um de nós. É o senso nato de justiça que nos orienta a fazer a escolha responsável.

 

 

Temos filhxs. Ainda assim podemos nos juntar a vocês?

 

As crianças de hoje são o destino de amanhã. Nossas crianças têm o potencial para alcançar a consciência necessária para inverter o sentido da civilização e começar a restaurar a biosfera da Terra. A maioria poderia usar a nossa ajuda na realização de seu potencial.

 

Naturalmente você está convidadx a juntar-se a nós, e você não estará sozinhx. Quando as pessoas ganham a perspectiva VHEMT, decidem contribuir com a família humana existente. Elas não pressionam seus descendentes para lhes darem netos e podem incentivá-lxs a fazer uma escolha responsável com sua fertilidade.

 

Não há nenhuma razão para se sentir culpadx sobre o passado. A culpa não leva a soluções positivas. Ser veemente tem pouco a ver com o passado. É o futuro da vida na Terra que xs voluntárixs querem preservar.

 

 

E como me filio?

 

Ser VHEMT é um estado de espírito. Tudo o que você tem que fazer para participar é fazer a escolha de se abster de reprodução a partir de agora. Para alguns, esta é uma decisão fácil de tomar. Para outros, é uma questão discutível. Mas, para muitos, se juntar ao movimento significa fazer um sacrifício pessoal monumental.


O Movimento de Extinção Humana Voluntária não é uma organização, por isso não existe pagamento de anuidade para funcionários em escritórios. Somos milhões de indivíduos, cada um fazendo o que sentimos ser melhor.

 

 

 

 

 

Ilustração: Mariana Leme

Tradução: Gui Mohallem

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