Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Nós, mulheres da periferia

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Ser mulher nas periferias de São Paulo é conviver com as diferenças geográficas impostas por um sistema que afasta o pobre cada vez para mais longe.

 

 

nós mulheres

 

 

O que queremos

 

O coletivo Nós, mulheres da periferia é formado por nove mulheres que nasceram, cresceram e ainda moram nas periferias de norte a sul da cidade de São Paulo. Somos oito jornalistas e uma designer: Aline Kátia, Bianca Pedrina, Cíntia Gomes, Jéssica Moreira, Lívia Lima, Mayara Penina, Priscila Gomes, Regiany Silva e Semayat Oliveira. Somos todas jornalistas comunitárias do Blog Mural e, por isso, já possuíamos uma relação diferente ao olhar para o território periférico. Com a experiência adquirida no Mural, de contar o que a grande mídia não fala, é que vamos basear nosso trabalho, tentando fugir do senso comum.

O coletivo foi idealizado em 2013, como fruto do artigo “Nós, mulheres da periferia”, publicado no jornal Folha de S. Paulo, no dia 7 de maio de 2012, em referência ao Dia da Mulher, e escrito por quatro das nove mulheres jornalistas que integram o coletivo, atentando para a invisibilidade e aos direitos não atendidos de uma parte das mulheres – as que moram em bairros periféricos de grandes metrópoles. O texto obteve grande repercussão e encontrou eco entre nossas iguais, outras jovens ou não tão jovens mulheres moradoras da periferia de São Paulo que finalmente se sentiram representadas, lembradas e retratadas.

As autoras do texto se basearam principalmente em suas vivências, visões e experiências cotidianas, perceberam naquele momento que o vazio de representatividade não era sentido apenas por elas. A partir daquele momento, iniciou-se um processo de pesquisa e consolidação do coletivo, que tem como objetivo principal dar visibilidade aos direitos não atendidos das mulheres, problematizar acerca dos preconceitos e estereótipos limitadores que se cruzam com as questões de classe social, etnia e raça, muito presentes em razão da localização geográfica das residências das moradoras das bordas da cidade. E, assim, trazer temas, histórias e o dia a dia da vida da mulher, o que é também uma realidade das integrantes que se reuniram no decorrer de 2013 para dar início às pesquisas e definições do grupo.

Na busca de criar um canal de diálogo mais direto – a partir da própria voz dessa mulher da periferia, e para mostrar que ela tem muitas nuances, muitos jeitos, muitas cores, credos, vivências – lançamos o portal com o mesmo nome do projeto “Nós, mulheres da periferia”, no dia 8 de março de 2014. Período esse em que as discussões acerca da vida/profissão/problemas das mulheres ficam mais acentuadas. Produzido por mulheres que vivem as mesmas dificuldades em seus cotidianos, traz um conteúdo mais atrativo à mulher da periferia, que pega um transporte público lotado todos os dias, chega em sua casa cansada e, ainda assim, tem diversas tarefas a fazer. Muitas vezes, o machismo ou até mesmo a não aceitação de estilo (cabelo, roupa, escolhas) vem, primeiramente, da própria família, espaço onde nascem também muitas das histórias que se conhecem acerca da discriminação de gênero.

Desta forma o portal oferece reportagens, crônicas, entrevistas, depoimentos, vídeos e dicas de saúde, cultura e lazer. Com uma linguagem e material que contribua para que essa mulher conheça outras histórias e tenha um espaço para discutir assuntos corriqueiros, mas que são pertinentes e importantes no seu cotidiano.

Em uma sociedade machista, ser mulher já é um grande desafio. Ser mulher e ser da periferia torna essa missão pelo menos duas vezes mais difícil. Além de tudo que a mulher, de forma geral, já precisa enfrentar para alcançar seu espaço no meio social, nós, mulheres da periferia, enfrentamos os desafios presentes da vida de qualquer pessoa que viva na periferia de uma grande metrópole como São Paulo. Assim, entendemos que homens e mulheres sofrem com a falta de serviços públicos, como saúde, moradia e educação. Porém, a mulher, de forma específica, enfrenta mais desafios que o homem, uma vez que na maioria das vezes é ela a chefe do lar.

A mulher enfrenta longos percursos de ônibus ou metrô e, além do aperto, pode ser vítima de abuso sexual. Na educação, é a mulher quem é responsável pela vida escolar do filho. Na questão da saúde pública, precisa de mais atendimentos e assistência médica (ginecológica) bem mais cedo que o sexo masculino.

A mulher sofre quando visita o marido ou filho preso; quando o filho morre ou entra para o tráfico de drogas. Teme quando não tem uma moradia fixa, já que isso a deixa vulnerável à violência doméstica. Teme ao subir a rua escura, já que seu maior medo não é o assalto, mas o estupro.

Por estarmos mais longe dos bairros centrais, muitos serviços nos são negados. É impossível trabalhar por perto, estudar por perto. Não há empregos nesses lugares, por isso percorremos longas distâncias, atravessando diariamente a cidade. Não há um número grande de faculdades nas regiões periféricas, o que nos obriga a sair cedo de casa e voltar depois da meia noite. Não há opções de lazer também. E sair de casa para se divertir significa voltar no primeiro ônibus do outro dia. Ser mulher nas periferias de São Paulo é conviver com as diferenças geográficas impostas por um sistema que afasta o pobre cada vez para mais longe, enquanto a especulação imobiliária encarece tudo, até mesmo em nossos bairros.

Na mídia, a mulher da periferia é retratada de forma genérica, estereotipada. Ela é, infelizmente, estigmatizada apenas por ser da periferia. Por sua localização geográfica, acreditam que ela se expressa, fala e se veste apenas de uma forma. A periferia é composta por pessoas muito diversas e, devidos às dificuldades todas pelas quais passam, muito criativas. Porém, os meios de comunicação de massa ou grande mídia, como dizemos, trazem em seus anúncios, novelas e comerciais tipos restritos de mulher da periferia, sempre é a empregada doméstica ou a piriguete. Somos empregadas domésticas, sim, somos também piriguetes, mas somos várias outras também. Somos a mãe, a tia, a irmã, a mulher guerreira desde o nascimento.

Antigamente, a mulher da periferia não tinha acesso à faculdade, não trabalhava além do serviço que já realiza diariamente em sua casa. Essa realidade, no entanto, vem mudando em todas as classes sociais. A mulher vem alcançando espaço na esfera trabalhista, com cargos até maiores que o dos homens. Mas ainda ganha menos que eles. Isso é um desafio a ser enfrentado. Com a mulher da periferia, isso também não é diferente. Ela também vem alcançando espaço, mas sempre com a necessidade de mostrar que é capaz de ocupar grandes cargos, mesmo vindo de um lugar distante.

É preciso explicar que a questão da moradia longínqua vem acompanhada de preconceitos. “Se mora na periferia, não teve estudo qualificado. Se é da periferia, vai chegar atrasada. Se é da periferia, não sabe falar direito”, podemos ouvir isso por aí. O jornalismo é a ferramenta que escolhemos para dar voz às mulheres que nunca são ouvidas pela mídia e, quando são, o são de forma sensacionalista ou sexista. Além disso, temos como objetivo pautar a grande imprensa, servindo de ponte entre a mídia e as mulheres não ouvidas da periferia. O coletivo Nós, mulheres da periferia pretende contribuir para o empoderamento das mulheres moradoras da periferia de São Paulo, promovendo espaços de reflexão, debate, informação, troca de conhecimento, experiências e visibilidade sobre seus protagonismos, histórias e dilemas.

 

 

 

Coletivo Nós, mulheres da periferia

 

 

MAIS INFORMAÇÕES:

Nós, mulheres da periferia

 

 

 

 

 

Fotografia: Julio Lisboa

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