Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Trans Pai

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As experiências múltiplas da paternidade. Por Olívia Pavani

Publicado em 08/03/2016

 

 

 

Viagem Solitária, 30 anos depois (…) quando tive a grata experiência da paternidade, ainda que não biológica, mostrando que é possível um transexual ter filhos saudáveis” (pg.12).

 

Difícil e instigante foi a tarefa de resenhar a autobiografia de uma das pessoas mais importantes do movimento de homens trans no Brasil. Publicado em 2011, há muito tempo desejo escrever sobre “Viagem Solitária”, livro que se tornou uma das referências para a discussão sobre transmasculinidades, inspirando pessoas, pesquisas e ações políticas.

 

 

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Conheci João em 2013 numa de suas participações em mesas de debate com a militância LGBT. Seu sotaque carioca, sua fala inspiradora e bem humorada, que sempre precisa de mais tempo do que um encontro comporta, foi ampliando minha forma de entender o mundo ao meu redor. Ler o livro, foi como escutá-lo falando. Sofri junto a cada dificuldade por ele enfrentada, particularmente em relação às normas de gênero que lhe foram impostas desde a infância. Quase pude sentir o cheiro do taco de madeira de sua casa. Torci junto com seu desejo ao apagar as velinhas no aniversário de 8 anos:  “Quero ser um menino como os outros” (pg. 35).

Com capítulos curtos, vamos passando pelos apaixonados e conturbados amores da adolescência e vida adulta, casamentos, cirurgia, paternidade e amadurecimento.

 

 

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Arquivo pessoal

 

Já ouvi João dizer que uma das coisas que inspirou a escrita de “Viagem Solitária” foi a experiência de ser pai. A questão da paternidade é uma das importantes vertentes do livro, o que já pode ser notado na primeira frase da dedicatória: “Para meu filho, por me fazer um pai feliz” (pg. 07). No prólogo, o autor conta quando o filho leu “Erro de Pessoa” (primeira autobiografia publicada por João): “Eram quatro horas da madrugada, quando Yuri terminou de ler o livro mais impactante de sua vida. […] Como tinha imaginado, um turbilhão de emoções saltou daquelas páginas já um pouco amarelecidas” (pg.19).

 

 

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Arquivo pessoal

 

A namorada de João engravidou durante uma crise do casal. Conforme descreve no Capítulo “Autocomiseração”, ele já tinha tentando adotar uma criança com uma antiga namorada. Decidido a não perder essa outra chance, assumiu a paternidade com a companheira. “Ele nasceu cabeludo, de cor castanho médio. Ficava vermelho à toa e teve muito soluço”, comenta o pai babão (pg. 257). Daí pra frente vem as histórias das fraldas, matar baratas, nas quais João vai acrescentando suas preocupações sobre como e quando revelar ao filho sua identidade trans.

“Quis criar meu filho como um homem gentil, sincero, sensível, que não tivesse vergonha de chorar. Enfim, decidi adotar todos os melhores valores que na nossa cultura são considerados femininos, sem fazer dele um ser necessariamente efeminado, fortalecendo sentimentos que dificilmente são enaltecidos nos homens. Mesmo sendo um trans-homem, fazia questão de preservar essas características, atitude esta rara em muitas pessoas do meu gênero” (pg.262). [Vale lembrar que na época da publicação do livro o movimento social ainda não havia adotado o termo “homem trans”.]

 

 

João_Doga

 

 

João é o primeiro homem trans de que se tem notícia de ter passado pela cirurgia de redesignação sexual no Brasil, ainda na época em que o procedimento era proibido no país. Se sua viagem foi solitária, com este livro muitas das pessoas que se descobrem homens trans, principalmente os mais jovens, passam a ter a oportunidade de não se sentirem tão sozinhos nessa caminhada. O suporte que consegue dar vai além, mantendo constante correspondência com meninos trans por e-mail, redes sociais ou pessoalmente, construindo vínculos de acompanhamento, formação e apoio.

De minha parte, sinto que a leitura fez valer a dedicatória que ele me escreveu com tanto carinho, ampliando a minha humanidade.

 

 

 

Fotografias: Ana Ferri 

E arquivo pessoal de João W. Nery

 

 

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