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Aquela palavra às avessas

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Trajetória de Hilda Hilst, brasileira e poeta. Por Marcos Visnadi

 

Pegue um nabo. Coloque duas ou três palavras dentro dele, por exemplo: bastão, ouro, amplidão. Chacoalhe. Você não vai ouvir ruído algum. É normal. Aí ajoelhe-se com o nabo na mão e diga:

Com o bastão que me foi dado
com o ouro que me foi tirado
e sem nenhuma amplidão
de conceitos e dados
quero renascer brasileiro
e poeta.”

Quem te ouvir vai ficar besta.

 

*
 
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*

 
 

Como é que a gente conta uma vida? Por onde começa?

 

Eu digo que a menina de oito anos, internada no colégio de freiras, era a melhor aluna da classe, mas logo começou a fazer perguntas inconvenientes e ganhou o rancor das religiosas. E conto que ela queria mais que tudo ser santa, mas não suportava as histórias macabras da santidade – e saía correndo da sala para vomitar especialmente quando ouvia a de Santa Margarida Maria Alacoque, que bebia a água com que lavava as feridas dos leprosos.

 

Posso dizer que essa menina era filha bastarda, que morou com sua mãe, uma portuguesa que lia Darwin, no porto de Santos, e que seu pai, filho da aristocracia paulista, era um poeta moderno antes dos modernistas, no interior do estado, mas que ficou louco e nunca mais se livrou de sua loucura, o que marcou a menina para o resto da vida. Principalmente depois que, aos 16 anos, ela enfim foi visitá-lo onde estava internado, e o pai, alucinando, pediu que a filha lhe desse “três noites de amor apenas, três noites tu me darás”.

 

Uns ventos te guardaram. Outros guardam-me a mim. E aparentemente separados
Guardamo-nos os dois, enquanto os homens no tempo se devoram.
Será lícito guardarmo-nos assim?
Pai, este é um tempo de espera.

 

Posso dizer que essa menina virou a mulher mais instigante de seu tempo – there never was a woman like Hilda –, linda, rica, inteligente, desejada, sustentada por homens que a enchiam de presentes e com os quais ela se divertia pelo tempo que quisesse, depois os dispensava, independente, o pior dos pesadelos das mães de meninos, uma puta.

 

Folha de S.Paulo. Você queria ter nascido em outra época?

HH. Não sei. Acho que nasci no país errado. Ou no planeta errado. Mas eu sempre tive uma vida muito feliz nesse sentido de independência. Sempre tive dinheiro. A minha mãe tinha uma vida excelente. E eu nunca me reprimi.

Agora, eu fui chamada de puta umas vezes pelas meninas grã-finas. Eu podia ser conceituada como grã-fina também, pela minha classe social, mas minhas amigas me perguntavam: por que você faz sempre a prostituta?

Uma vez um homem me deu de presente um Mercedes-Benz, e elas: “Para que aceitar um carro de um homem? Por que você não pode ter um homem normal?”.

 

Hilda não era atraída pelos homens normais. Ia às boates de luxo de São Paulo acompanhada por temperamentais estivadores, “as vigas mestras do cafajestismo santista”, que adoravam uma confusão e quebravam o lugar em cinco minutos. Ou namorava, nunca por mais de algumas vezes, homens lindos, intelectuais boêmios, futuros ministros e banqueiros, Vinicius de Moraes, Dean Martin na Europa, onde passou meses viajando, morando, desfrutando. Na França, tentou pegar Marlon Brando, mas ele já tinha namorado.

 

Cult. Você foi convidada a participar do Salão do Livro de Paris deste ano [1998] e se recusou a ir. Por quê?

HH. Eu não vou nem a Pirituba mais. Eu acho um engodo você ter que aparecer e se mostrar. Eu quero que me leiam. Eu não quero explicar o meu trabalho. Você acha normal ficar explicando? (…) Paris era bom quando eu fodia, com 20 anos.

 

A vida de Hilda Hilst é cheia de anedotas. E faria sentido, para contá-la, ignorá-las?

 

*

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*

 

Uma curva do silêncio ao silêncio, ruidosa no meio. Em 1997, Hilda anunciou que tinha escrito seu último livro, Estar sendo. Ter sido, um texto quase todo em prosa, quase todo sobre a velhice, cheio de receitas de suicídio. Ela estava cansada, e principalmente cansada de ter feito uma obra deslumbrante, de ser a maior escritora viva em língua portuguesa – e não ser lida. Aos 67 anos, esperava morrer logo, e depois da morte física partiria para Marduk, um planeta “fora do espaço e do tempo”. Lá, era esperada por gente como ela – Einstein e outros notáveis –, com quem poderia conversar sobre os mistérios da existência. Pelo fax desligado, Julio Verne lhe mandava fotografias das casas desse próximo planeta.

 

Se chegarem as gentes, diga que vivo o meu avesso.
Que há um vivaz escarlate
Sobre o peito de antes palidez, e linhos faiscantes
Sobre as magras ancas, e inquietantes cardumes
Sobre os pés. Que a boca não se vê, nem se ouve a palavra
Mas há fonemas sílabas sufixos diagramas
Contornando o meu quarto de fundo sem começo.
Que a mulher parecia adequada numa noite de antes
E amanheceu como se vivesse sob as águas. Crispada.
Flutissonante.
Diga-lhes principalmente
Que há um oco fulgente num todo escancarado.
E um negrume de traço nas paredes de cal
Onde a mulher-avesso se meteu.
Que ela não está neste domingo à tarde, apropriada.
E que tomou algália
E gritou às galinhas que falou com Deus.

 

Amargando décadas de dedicação exclusiva à literatura materializadas em livros mal distribuídos, edições de tiragem pequena e, principalmente, a falta de público leitor, o saco de Hilda Hilst já estava cheio fazia tempo. Em 1990, ela resolveu meter o pé na porta da literatura nacional anunciando que se despedia para sempre da literatura séria – e que então, sexagenária, passaria a escrever apenas pornografia.

 

A estreia de sua trilogia obscena foi com O caderno rosa de Lori Lamby, o diário em que uma menina de oito anos conta, com muita alegria, suas experiências sexuais com homens mais velhos, que lhe dão muito dinheiro em troca de lamberem sua xixoquinha. O livro é dedicado “à memória da língua”.

 

Interview. A história de publicar livros pornográficos é uma estratégia de marketing?

HH. É claro que sim porque eu penso assim: é um absurdo você fazer obras-primas como eu faço e guardar tudo na gaveta, esperando que daqui a 50 anos as pessoas falem de você. O escritor, acima de tudo, quer ser lido. O [crítico literário] Léo Gilson Ribeiro ficou muito magoado por eu ter escrito esses livros. Ele me disse: “Pensa no Kafka, que levou anos para publicar um livro”. Mas com todas essas formas de divulgação que um livro tem é um absurdo pensar assim. Porque, se você está vivo, a sua vontade é de se comunicar com o outro.

 

Se a publicação dessas baixarias lhe rendeu mágoas de muitos amigos e reprovações de críticos literários, também lhe rendeu novos leitores e colocou Hilda de novo nos jornais. Desta vez, não só como notícia. Em 1992, o Correio Popular, de Campinas, ofereceu-lhe um espaço semanal para a publicação de crônicas, em que ela, com palavrões e ofensas, escandalizava a sociedade campineira – que, por sua vez, não se escandalizava com o jorro de sangue que saltava dos eventos. O Correio Popular recebia cartas indignadas com o linguajar da velha louca, e ela, aos domingos, terminava suas crônicas desejando aos leitores uma boa missa.

 

Consolidava-se, então, a imagem da escritora brilhante que havia degringolado, da velha que escrevia sacanagens em vez de fazer tricô, da mulher megalômana que ficava enchendo a cara enquanto 90 cachorros corriam soltos em sua casa. Essa era a única personagem que uma opinião pública careta podia fazer de uma personalidade livre como a de Hilda. Mas era também a identidade que Hilda Hilst queria para si e para muitos de seus personagens: ser alguém destacado da “lógica sangrenta dos dias”, ser raro, sem comunhão com uma raça violentamente fútil, boçalmente cruel.

 

Porque eu vi na revista Veja, de 13 de outubro, fotografias apavorantes de somalis exibindo contentíssimos nacos de carne de soldados da ONU que ali estavam para lhes matar a fome… Porque eu vi o corpo de um soldado ser arrastado e a turba ensandecida às gargalhadas (os dentes dos somalis são belíssimos, gengivas também, os periodontistas iam morrer de fome… por que será que um povo tão famélico tem tão bons dentes? Estranho, não?). Porque, continuando, eu li toda a matéria, vomitei a manhã inteira no meu pinico de estanho (o meu outro de barro quebrou), e enquanto vomitava pensava na possibilidade de alguém tirar do prego aquele meu revólver de prata e madrepérola que vovô me deixou e assim estourar dignamente meus cintilantes miolos. Alguém lá dentro de mim me diz: pô, mulher, será que você ainda não entendeu? Os homens continuam aqueles, iguaizinhos do Neanderthal, estúpidos, boçaloides, absolutamente cruéis. E eu sou o quê, hein? Ah! Não! Não venham me dizer que eu faço parte da raça humana… no cu, gaivota, sou não, sou gente não, posso até ser uma excrescência, mas sou gente não, sou do Quinteto do Pégaso, sou de Sirius, sou de Andrômeda, mas Não Mesmo Daqui. Não venham me dizer que todo mundo é igual. A rodela talvez, mas sou gente não.

 

*

 

Apesar desse papo de estrelas e planetas além-vida, Hilda Hilst não era religiosa. Talvez nem mística, embora estivesse sempre ocupada com as questões da alma, do invisível, de Deus. É que, para ela, essas não eram questões abstratas, mas sim problemas da matéria, que deveriam ser estudados pela ciência.

 

Foi com esse espírito científico que a escritora começou, nos anos 1970, a fazer estudos que, acreditava, modificariam completamente nosso conceito da morte. A pesquisa consistia em deixar um gravador ligado por algumas horas e depois escutar atentamente à gravação. Com o tempo e o apuramento do ouvido, podiam-se distinguir, na fita, vozes de pessoas que não estavam no ambiente no momento em que o registro havia sido feito. Não estavam visíveis, pelo menos. Estavam mortas, mas presentes, e tinham uma audível vontade de comunicação.

 

Obstinada em provar sua teoria, Hilda passava até seis horas diárias nessa pesquisa. Desanimou quando foi desacreditada por seus amigos físicos, taxada de louca, bruxa, tratada com sarcasmo e zombaria, e o próprio estudo, sem recursos financeiros nem materiais adequados, acabou estagnando-se, ficando aquém de suas possibilidades. Ansiosa por mostrar ao mundo que a alma é imortal, que a morte é apenas uma passagem da individualidade para outra dimensão, Hilda teve que abandonar a física e retornar à poesia – que, ela bem sabia, também poderia cumprir esse papel.

 

Suplemento Literário de Minas Gerais. Queria voltar à sua ideia de transformar a Casa do Sol (local onde mora a autora) num centro de estudos psíquicos sobre a imortalidade da alma e a ressurreição da carne. Você se refere à imortalidade da alma pessoal ou à imortalidade de uma parte suprapessoal da alma que se cruza com o espírito divino, criador, algo como a enteléquia aristotélica?

HH. Acho que é a consciência que vai sempre se manter. Parece que a gente constrói uma alma. Até sobre esse ponto há uma história engraçada. Fui, junto com [o físico] Mario Schenberg, dar uma aula inaugural na Unicamp. Mario achava que nós, eu e ele, havíamos nascido no Egito, que eu havia sido uma sacerdotisa amiga dele. É claro que ele não falava dessas coisas na universidade. “Tenho medo de perder o meu emprego”, ele dizia. Mas nessa aula, a que compareceram muitos físicos, por causa do Mario, comecei a falar desses assuntos. A certa altura, um físico meio gargalhante, que estava coçando o saco, perguntou: “Quer dizer que a senhora acredita na imortalidade da alma?”. Respondi: “Acredito na imortalidade da minha alma. Mas o senhor, se continuar coçando o saco dessa forma, sequer constituirá uma alma!” [risos].

 

*

 

Entre os anos 70 e os 80, chuto que uma transformação grande acontece na obra de Hilda Hilst. Acho que foi quando começou de vez essa espécie de desistência de comungar com as pessoas, a briga com o leitor que ela levaria às últimas consequências no fim de sua vida. “Livrai-me, Senhor, dos abestados e dos atoleimados”, escreve ela em A obscena senhora D, de 1982, que conta a história de Hillé, uma velha que resolve se trancar em sua casa para compreender “isso de vida e morte, esses porquês”, mas que tem seu raciocínio interrompido a todo instante pelos vizinhos, uma gente xucra, que chafurda na ignorância voluntária e que, intolerante a qualquer comportamento divergente, planeja destruir Hillé, matá-la, queimar sua casa. Descortina-se, para Hilda Hilst, um mundo sem ideal nem esperança, sem cumplicidade, em que as pessoas são perigosas ou, no melhor dos casos, só estúpidas mesmo.

 

Na adolescência a professora de redação pedira três contos breves. Short stories, meninos, sabem o que são short stories? Alguns babacas levantaram a mão. Muito bem, quem não souber pergunta aos outros, muito bem. Dois de meus colegas mostraram-me continhos imbecis, farfalhar de folhas passarelhos nos ramos brisas na cara etc. Aí escrevi:

 

Primeiro conto (vulgo short stories) – Mãezinha, ando farto das tuas besteiras sobre moralidade e família à hora do jantar. Já te vi várias vezes chupando o pau de papai. Me deixa em paz. Assinado, Júnior.

 

Segundo conto (vulgo short stories) – Vidinha, pensa bem, tu tem cinquenta e eu vinte e cinco. Tu diz que é o espírito que conta. Eu compreendo Vidinha, mas tô me mandando. Não deprime. A gente se cruza, tá? Assinado, Laércio. Toda essa fala eu ouvi tomando guaraná no balcão de um armazém. Ele era um garotão, ela uma gordota de olho pretinho.

 

Terceiro conto (vulgo short stories) – O nome dele é Sol e Adultério. O do meu marido é Elias. Meus filhos se chamam Ednilson e Joaquim. Tenho vontade que todos morram. Menos ele. (Aquele primeiro, luz e cama.) Sinto muito meu Deus, mas é assim. Assinado: Lazinha.

 

Deste eu gosto muito. Adultério lhe parecia na adolescência uma palavra belíssima. Depois da Aids, menos. Luz e cama foi um achado. A professora esbofeteou-lhe a cara. O pessoal do farfalhar de folhas passarelhos nos ramos brisas na cara teve como prêmio um piquenique. As notas mais altas de redação praqueles bobocas. Amós foi expulso. Perdeu o ano. Pegou pneumonia. Os coleguinhas mandaram-lhe um poema breve: Bancou o sabido, o espertinho, o vivo/ e só se fodeu/ Amós, o inventivo.

 

Mas, até os anos 70, não era bem esse o tom da escrita de Hilda, e esse é um assunto que merece atenção.

 

Seu primeiro livro foi publicado em 1950, quando a autora tinha 20 anos. Presságio, assim como os outros publicados naquela década, traz bons poemas, mas é sobretudo poesia imatura. Como aconteceu o amadurecimento da escritora? No começo dos anos 60, Hilda Hilst faz uma escolha radical.

 

Cadernos de Literatura Brasileira. Muitos livros e muitas vidas marcaram a sua. É o caso de Carta a El Greco, precisamente do [escritor grego Nikos] Kazantzákis. Na sua opinião, existem as conversões súbitas? Dizem que São Paulo se converteu descendo do cavalo, no movimento de descer do cavalo.

HH. É verdade. Eu acredito nisso, acredito em milagres. Eu mesma já vi milagres aqui. Mas eu quase não falo, só comento com meus amigos sobre as coisas que eu vi aqui nesta casa. Quando li esse livro, Carta a El Greco, resolvi mudar para cá. Resolvi mudar minha vida. Eu tinha uma casa gostosíssima em São Paulo, todo mundo ia lá comer, namorar, dançar – meus namorados, meus amigos, minhas amigas. Aí, li o livro e mudei minha vida.

CLB. Por quê?

HH. Eu tinha que ser só para compreender tudo, para desaprender e para compreender outra vez. Aquela vida que eu tinha era muito fácil, uma vida só de alegrias, de amantes.

 

Abandonando a vida boêmia na cidade grande, Hilda mudou-se para a fazenda da mãe, na zona rural de Campinas. Passou a vestir apenas batas, puxou o cabelo para trás e construiu em volta de uma figueira, à moda de um convento, o lugar onde viveria e faria sua obra: a mítica Casa do Sol.

 

casa do sol

 

Hilda tinha então 34 anos, já não era uma menina. A leitura de um livro a fez perceber que, se quisesse alcançar algo maior, precisaria investir tudo nisso, sem concessões. Simultaneamente, o país entrava num regime escancarado de exceção, que se estenderia por mais de duas décadas – e talvez (ai de nós) por bem mais que isso. Em 1965, Hilda instalou-se definitivamente em Campinas. Em 1967, ela, que até então só escrevera poesia, começa uma produção intensa de peças de teatro.

 

Folha de S.Paulo. Você começou na poesia. Por que a mudança para o teatro?

HH. Meu interesse pelo teatro começou na época da ditadura. Alguém inventou que eu era uma comunista roxa. A polícia foi na casa da minha mãe e queimou todos os meus livros. Era uma coisa muito premente que eu estava sentindo e queria me comunicar mesmo com as pessoas.

 

Foram oito peças em três anos de trabalho, de 1967 a 1969. Quase não foram encenadas e permaneceram praticamente inéditas até o começo dos anos 2000. Ainda são a parte menos conhecida dos mais de 30 livros que a autora publicou. Nelas, Hilda encena o autoritarismo de um modo quase didático: ataca a Igreja, o Exército, a Empresa, a Escola, todas instituições que compunham o regime militar. No Auto da barca de Camiri, entre ruídos de metralhadora, a alegoria da morte de Che Guevara. Em As aves da noite, dentro de uma cela escura em Auschwitz, cinco homens são condenados a morrer de fome sob a vigília de soldados nazistas.

 

As peças não alcançaram o grande público. Alguns críticos disseram que eram poéticas demais. Certamente a censura não ajudou. Hilda Hilst desistiu da dramaturgia, mas não de comunicar-se diretamente com as pessoas. Em 1970, lançou seu primeiro livro de prosa, Fluxo-floema, que trazia a drástica mudança de estilo que caracterizaria seu texto a partir de então. Era urgente denunciar as injustiças a que o povo era submetido, mas isso não podia ser feito com a linguagem cotidiana e funcional, instrumento de opressão e da expansão capitalista.

 

Léo Gilson Ribeiro. Hilda Hilst, você é frequentemente tachada de “autora hermética” e parece que pouca gente te lê ou pelo menos se faz um silêncio sepulcral sobre a sua obra, que eu considero a mais transtornadora e importante em língua portuguesa, hoje. Você se considera “hermética”, difícil, inacessível?

HH. Como vamos poder, numa página de jornal, definir toda uma conduta literária que, a meu ver, não pode deixar de ser também entranhadamente ética? A primeira coisa que eu tenho a dizer, e você sabe bem disso, Léo, é que nenhum escritor se senta e diz: “Agora vou escrever um trabalho hermético”. Isso é uma loucura. Isso simplesmente não existe! O que existe é que eu escrevo movida por uma compulsão ética, a meu ver a única importante para qualquer escritor: a de não pactuar. Para mim, não transigir com o que nos é imposto como mentira circundante é uma atitude visceral, da alma, do coração, da mente do escritor. O escritor é o que diz “Não”. “Não participo do engodo armado para ludibriar as pessoas.” No momento em que eu ou qualquer outro escritor resolve se dizer, verbalizar o que pensa e sente, expressar-se diante do outro, para o outro, o leitor que pretende ler o que eu escrevo, então o escrever sofre uma transformação essencial.

 

Se sabia homem-poeta, de uns côncavos de musgo e de prodigioso eco, à noite ele esperava que a lua habitasse o papel, poderia ter sido lenhador, não o que abate mas o que acaricia, lenhador-amante, homem de amor, Lih, inútil também porque ainda que os olhos tivessem conhecido o de dentro dos jacintos e coisas inomináveis e flagelos, difícil se fazia traduzir para o outro, conhecimento, ciência maior, compaixão, espectro junto de Lih, imantado de luar escrevia: é lícito cantar de amor quando o rei é cruel em seu reinado? Se o canto das gentes se juntasse à audácia fremente do meu canto, talvez o rei cruel nem mais reinasse. E começou a cantar esses versos numa guitarra escura, uns nasais de dentro, e outros sons mais fundos de timbre amolecido e uns mais agudos, miniatura tensa tecida de consoantes e de vogais do rei. Os outros:
de que rei é que falas?
o rei não é o mais alto?
não são reais as ações do rei?
a luz que sai do ouro não é ouro?
é ouro se vive na podridão dos canais?
é rei ainda se na miséria nunca se demora?
é rei se foge de nós?

 

*

 

Menina católica, velha profana, mulher excêntrica, jovem bonita. Pornógrafa, hermética, militante, humana, brasileira, poeta. Talvez pouco adiantem os estereótipos, as anedotas, os mitos que atravessam um corpo não mais presente, uma presença cada vez maior, mais ampla e difusa à medida que sua voz reverbera nas páginas enfim impressas e nas gravações recuperadas. Como reduzir uma vida a uma identidade? E como não reduzi-la, se as fotos de Hilda Hilst são cada vez mais revistas, se acumulam-se os olhos e as expectativas sobre elas?
 

Como, enfim, contar uma vida? Por onde a gente termina? Se a vida, todo o tempo, começa.

 

Se um dia te afastares de mim, Vida – o que não creio
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida –
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco
rosso: compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguez da via manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
O êxtase de te deitares contigo. Beba.
Estilhaça a tua própria medida.

 

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Para saber mais

 

Não recomendo nenhum livro pra começar a ler o trabalho de Hilda Hilst. Cada vez mais acho ele inteiro excelente e complexo. Como diria a própria: informe-se.

 

Os trechos que reproduzi em itálico foram extraídos dos seguintes títulos, respectivamente: “Pequenas sugestões e receitas de espanto antitédio para senhores e donas de casa” (em Contos d’escárnio. Textos grotescos), “Odes maiores ao pai” (em Exercícios), Amavisse, Cascos & carícias, Com os meus olhos de cão, “Amável mas indomável” (em Pequenos discursos. E um grande) e Alcoólicas.

 

Os trechos de entrevistas reproduzidos aqui foram retirados do livro Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst (ed. Globo, 2013, org. de Cristiano Diniz), que é muito divertido!

 

A Casa do Sol virou um instituto que abriga cães, oferece residências artísticas e realiza eventos em torno da obra de Hilda. Vale a pena visitá-la fisicamente, ou virtualmente neste endereço. As fotos que ilustram este texto foram retiradas da página no Facebook.

 

Parece que há poucos registros em vídeo de HH. Vale a pena ver uma reportagem do Fantástico de 1979 e uma entrevista constrangedora da TV Cultura de 1990. Mas bom mesmo é ouvi-la recitando quatro de seus poemas nesta gravação.

 

Quanto à crítica literária, tem cada vez mais gente lendo e escrevendo sobre Hilda Hilst. Do que li recentemente, recomendo o trabalho de mestrado de Ronnie Francisco Pereira Cardoso sobre a trilogia pornográfica, que é uma leitura muito legal desses livros controversos. A edição dedicada a HH dos Cadernos de Literatura Brasileira também tem coisas ótimas (inclusive um ensaio da nossa entrevistada na Geni nº 2, Eliane Robert Moraes). E, nas edições das obras completas feitas pela editora Globo, sempre vale a pena ler as notas introdutórias de Alcir Pécora, amigo de Hilda e crítico foda de sua obra.

 

Se nada mais der certo, você poderá tentar uma vaga em Marduk para encontrá-la pessoalmente, quando a buça negra vier pra você também. Antes, não esqueça de chacoalhar o nabo.

 

São Paulo de Piratininga, abril de 2014

 
 

Leia outros textos de Marcos Visnadi e da seção Perfil.

Ilustração: Bruno O.

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camila – 2 de abril de 2014 - 14:09

poetisa (alem de existir a forma feminina, é uma palavra bonita).

Jaqueline Couto – 2 de abril de 2014 - 19:04

Acho que foi uma das melhores que li sobre HH.

matheus matheus – 9 de abril de 2014 - 22:18

Belo ensaio, Marcos! Sou apaixonado por esta amada obscena senhora e suas múltiplas vozes orgiásticas.

matheus matheus – 9 de abril de 2014 - 22:23

*orgiáticas

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