Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

entrevista

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Entrevista com Estrella Soria

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Com trajetórias muito distintas as mulheres se apropriam, subvertem e dão outros usos à tecnologia. A partir de diferentes referências, do contato inicial com a tecnologia e da percepção do seu potencial uso, a produção do conhecimento por mulheres desde outras latitudes e suas histórias se multiplicam. A ação de uma passa a ser fundamental para o exercício de escuta e projeção de outras vozes, quase inaudíveis na avalanche dos grandes meios de comunicação.

Uma destas mulheres é Estrella Soria, que na convulsão da greve contra a privatização da Universidade Nacional Autônoma no México, em 1999,  começou a fazer rádio.  As experiências mais vinculadas a projetos de construção coletiva e comunitária abrem outros horizontes para o fazer que também é uma perspetiva sensível do mundo. Para além das influências externas, de conceitos que são assumidos e reproduzidos como modismos, a ação destas ativistas está em usar o que é possível, o que está disponível ainda que precário, reinventando dispositivos e aparelhos, tecendo encontros para troca de experiências e conhecimento, e privilegiando a transmissão e difusão dos saberes em espaços coletivos.

 

 

 

 

Comente um pouco sobre a sua relação com a tecnologia, como esse interesse surgiu e como você a utiliza.

 

A tecnologia sempre foi uma ferramenta essencial para me mover no meu contexto. Eu sou da Cidade do México e me chamo Estrella Soria. A Cidade do México evidentemente te submete a certas dinâmicas para você sobreviver nela.

Desde muito pequena gosto de videogames, de maquininhas. Em relação a outras meninas quiçá fui um pouco atípica, gostava destes tipos de brinquedos e assim comecei a crescer. Eu também gosto muito de botões e não tinha descoberto muitas vantagens que poderia ter com o uso destas ferramentas. Até que, pouco a pouco, começo a crescer e começo a me encher de outros tipos de coisas, gostava muito de gravadores, tinha um gravador rosa lindo, brincava de fazer rádio e até depois de fazer rádio me lembrava vagamente dos momentos que eu tinha este gravador.

Nunca pensei que ia me dedicar a isto, foram decisões que pouco a pouco fui tomando, tinha relação com o meu ativismo desde a universidade com os movimentos sociais. Quando entrei na Universidade Nacional Autônoma do México participei de uma greve que aconteceu contra a privatização da universidade pública, em 1999, que durou 9 meses e foi interrompida pela polícia em 6 fevereiro do ano 2000.

Então… durante este período, surgiram muitos meios de comunicação com o uso de tecnologia digital e  também com o uso de tecnologia analógica. Os meios de expressão se diversificaram.

Eu participava deles, tanto dos alto-falantes como da rádio que naquela época começou a funcionar: uma rádio livre com tecnologia própria, retomando alguns modelos de transmissores que estavam disponíveis…

Depois que tive esta experiência na rádio, voltei à universidade.. Bem, tudo aconteceu dentro da universidade, mas eu voltei para a faculdade de ciências políticas, onde meu ativismo se concentrava principalmente .

Uma das coisas que fizemos para melhorar as instalações foi pegar os laboratório de computação. Havia.. Imagine só!.. Em uma faculdade de ciências políticas, somente três computadores!  Então colocamos internet neles. Eu ainda não sabia mexer nisso, não sou exatamente tech, mas sei que as necessidades de nos comunicarmos e de podermos nos comunicar com o mundo eram uma prioridade.

Então colocamos internet em muitos dos computadores , os custos eram pagos de forma autogestionada. Ficávamos com eles por três meses e depois os devolvíamos à coordenação da faculdade, com algumas garantias, claro, de que houvesse abertura, acesso a todas as pessoas, não somente às universitárias, mas todos os tipos de pessoas.

Ao possibilitar o acesso à tecnologia – não somente dos meus companheiros e companheiras, mas das pessoas em geral, dos vizinhos da colônia Santo Domingo, da colônia Copilco – tínhamos uma incidência sobre o que estava acontecendo no nosso contexto mais cotidiano.

Em 2006, voltei a trabalhar na rádio livre, já com um interesse mais focado, porque eu estava trabalhando no meu tema de tese sobre as rádios livres na Cidade do México. Comecei a estudar as regras, a regulamentação administrativa para poder manter uma rádio comunitária e porque não existiam mais rádios comunitárias no México.

Obviamente havia uma condição, há uma condição desigual – já que o México é um país no qual existem monopólios. O México é um país no qual é crime fazer uso da comunicação, tomar os meios de comunicação e os operá-los. Mesmo que, às vezes, as leis digam o contrário. Por exemplo, para os povos indígenas, que supostamente estão habilitados para fazê-lo, mas, na verdade, não têm os equipamentos para operá-las nem para obter as permissões legais.

Então, é por isso que funcionam cerca de 70 rádios comunitárias – em momentos emergenciais algumas a mais, em momentos não tão emergenciais, talvez menos. Temos aí, mais ou menos, o número de rádios que funcionam em relação ao número de rádios que têm permissão para funcionar como rádio comunitária: que são menos de 20.

É algo obviamente desigual.  Existe uma relação de poder que, com os seus critérios, decide quem tem este tipo de permissão. Pouco a pouco foi ficando mais complicado, as leis que estão sendo elaboradas no México foram feitas para proteger a propriedade privada ante uma indústria que aponta as rádios comunitárias como, digamos, um operar desleal, de concorrência desleal.

Claro que nem existem as condições para que exista uma concorrência, então, os argumentos da indústria não podem ser corretos. Mas foram eles que incentivaram o governo a regulamentar e somar leis que não melhoraram as condições de acesso aos meios de comunicação. Foram implementadas e adicionadas outras leis para criminalizar com até 20 anos de prisão a operação de rádios comunitárias.

Então foi aí que comecei a me focar mais em fazer rádio, quer dizer, produzindo rádio. Mas isto também te desafia a ter o uso e apropriação das máquinas e ferramentas com as quais se pode fazer rádio. E algumas destas ferramentas estão acessíveis porque existe toda uma comunidade de conhecimento e de desenvolvedores. E me refiro aos compas e às compas, e  desenvolvedores de softwares livres que permitem e facilitam ferramentas e suportes com os quais se pode ligar meios de comunicação virtuais, na verdade digitais, e também no nível das redes sociais e no nível da tecnologia analógica, que permite tirar a frequência e amplificar as vozes através da fm.

Logo, foi gradual minha apropriação da tecnologia, no sentido da liberdade de expressão não como uma etiqueta, mas como uma liberdade na qual acredito e reivindico e também como liberdade de comunicação e de informação.

É assim como os desafios tecnológicos: se transformaram em parte do nosso fazer cotidiano e não somente nisso, mas também garantir, ou seja, não só adquirir de uma maneira individual e pessoal,  mas também compartilhar com toda uma coletividade. Senão, não é possível potencializar os trabalhos de comunicação.

Quando já estivemos do lado de lá de um meio de comunicação não somente nos aproximamos das comunidades como mediadoras ,com um microfone com o qual se pode amplificar a voz da outra e do outro, mas assumindo a outra e o outro como um sujeito que emite também sua própria comunicação e a qual é necessário potencializar. Então é uma questão-chave para assumir como um meio livre, como um meio de comunicação livre ou comunitário.

 

 

Quando e como você começa a atuar como ativista?

 

Minha relação com a tecnologia passou pela defesa da comunicação e da pessoa, do ser humano. Isso passa pelo respeito à privacidade também com uma postura de não controle, quando este controle existe  subjugando, também reivindico a ação e o exercício dessa liberdade para poder comunicar. Dado que me envolvi com a tecnologia, comecei a atuar como ativista… Já faz alguns anos, conforme comentei, como ativista da comunicação. Lembro disso como uma ruptura e toda uma mudança, um questionamento da minha própria vida, desde quando estava na universidade.

 

 

O que é o Rancho Electrónico? Como você percebe a sua participação neste espaço?

 

O Rancho Electrónico  é um projeto do qual participo atualmente, um hackerspace.  A forma como participei inicialmente foi sonhando em ter um espaço assim.  Não somente eu, mas conspirando com outras compas que tinham vontade de ter um espaço,  e de aprender  a ter um espaço, poder tocar nossas próprias realidades, desafiar nossas limitações e poder compartilhar em um lugar.

É assim como surge este hackerspace que inicialmente o pensamos como um lugar autogestionado, semelhante aos lugares dos quais várias e vários viemos. Surge assim o Rancho Electrónico, que atualmente tem dois anos.

Podemos observar a vida, a convivência, a construção e a aspiração para construir um conhecimento horizontal e livre. É  assim como ele se mantém , se mantém com recursos de todas e todos de forma autogestionada, com a participação de todas e todos que transitamos diariamente, e também das pessoas que transitam eventualmente nos grupos de trabalho.

Percebo minha participação nesse espaço como provocação, a percebo como provocadora porque sempre quero tudo e acredito que, se estamos nesta vida e permanecemos nela, é sonhando, fazer com nossas ideias e princípios mais que com desejos tecnológicos e de conhecimento. Faço algumas provocações que saem de forma natural e é aí onde agradeço estar acompanhada de toda uma comunidade a qual me coloca em uma realidade, me localizar como um principio de realidade, para sonhar e potencializar o que penso e o que me acorre. E também acredito que é um lugar de reivindicação e reconhecimento da outra e do outro, do outrem, de nos reconhecer hiperdiversos e diverses e nos reconhecer tocando não somente a tecnologia, hackeando também estruturas sociais e inclusive hackeando nosso próprio corpo, quer dizer, as impossibilidades e limitações que nosso corpo supõe, muitas vezes como mulheres, como homens e revolvendo essa ordem binária desde a dança até a organização e a ação.

 

 

E  o rádio nessa discussão, como você vê a importância/particularidade do rádio em relação a outros meios de comunicação? Existe uma relação ou demanda específica das mulheres que fazem rádio?

 

Existe uma demanda especifica das mulheres que fazem rádio e creio que também dentro da tecnologia, dentro dessa convivência no Rancho Electrónico. Percebemos como é importantíssimo nos acompanhar, reconhecer que todas as pessoas precisam de apoio e de um suporte e isto significa uma comunidade que nos anime a participar.

Temos muito cuidado às vezes de repensar e escutar mais precisamente quais são nossas necessidades como mulheres ou diversidades. E às vezes precisamos é de nos manter nesses espaços, porque necessitamos estar nesses espaços. Não somente participando política, social e culturalmente, mas também como mantermo-nos aí implica em todo um desafio que tem a ver com a forma como você compartilha e como evita submeter-se à outra, a outrem, e como subverter. É justamente o oposto: como transformar o outro em seu aliado ou como somos um na soma, como mexemos no controle dos meios, sejam tecnológicos ou de comunicação.

Acredito, então, que as mulheres no movimento de meios livres, tecnológicos, e na própria reflexão sobre nosso papel nos meios de comunicação, na informação, na formação. Pois isso é especialmente importante para fazer uma sociedade mais justa e menos discriminatória. Para fazer uma sociedade que questiona, que se reformula.

Há sim uma reivindicação do fazer das mulheres: de desmistificar que nós não podemos nos apropriar da tecnologia e de desmistificar que nós não podemos  programar — não somente código, mas nossa própria vida, nossa própria sexualidade, nossa forma própria de pensar.

Acredito que a reivindicação é desafiadora e, se você me perguntar agora, justamente quando estou em um encontro de mulheres, isso se torna mais complexo. As tarefas que temos são realmente desafiadoras: como mulheres sim, mas também como humanas, como humanos porque nem sequer a categoria mulher muitas vezes atinge todas as coisas que nos sentimos ser.

Então .. ufa! Essa é a mais complicada, deixaria até aí. Estou pensando agora, estou reformulando aqui e o que, sim, tenho claro, é que é de vital importância a participação e alcançar/escutar a voz de todas, por mais baixinha que seja, escutar as vozes de todas e entender de onde vem, e saber como somamos, como nos integramos e como nos potencializamos — respeitando essas diferenças. Não acredito nos discursos de unidade, mas sim no respeito a “outridade”.

 

 

O que segue te provocando para atuar desta forma?

 

A coletividade me provoca , neste momento, a coletividade me provoca muito; me provoca muito estar em um hackerspace como o Rancho Electrónico; me provoca muito a minha realidade, meu contexto no México, o contato com as outras coletividades das quais faço parte:  Mujeres Grabando Resistencias, como a Plataforma Mujeres Radialistas de Oaxaca. É provocador se pensar com diferentes e mantendo diferentes diálogos, principalmente me provoca o controle. Me provocam as inércias do controle que existem sobre os corpos e mentes… Isso é o que me provoca, me provocam as limitações, a impotência, a impunidade…  A transtocar e pa’lante.

 

Estrella Soria é:

 

 

Ilustração: Nara Isoda

 
 

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