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ESCULACHO | Velhices e cretinices

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Minha avó me disse esses dias que envelhecer não é o problema. Por Alciana Paulino

 

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Aconselhamento

 

− Pi pi pi pi pi… pi pi pi pi pi.

 

Todo dia de manhã é assim. Ela joga um bom punhado de arroz na frente da casa e começa a fazer esse som. Não demora muito para que alguns pássaros apareçam. Ela sempre inicia uma conversa com eles. De onde estou não dá para ouvir bem o que é, mas o tom do papo é de proximidade, intimidade, parece que está conversando com bebezinhos, com aquela voz infantilizada que opta pelos diminutivos.

 

Já mora sozinha há uns anos, recebe visitas esporádicas do filho, da nora e do neto. Já roubou bebida aqui de casa e já a ajudamos a levantar quando procurava sua Corotinha.

 

Com a sabedoria trazida pela idade, ou por todos os tombos e rasteiras que a vida lhe deu, ela sempre me aconselha: “Não casa, não, criança. Marido não serve pra nada. Filho não serve pra nada. Só prestava a minha filha, que só soltou meu braço quando casou e só soltou o braço do marido quando morreu. Morreu nova, deixou o menino pequeno e a mãe doida. Já te disse que fiquei doida quando minha menina morreu?”.

 

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Medo

 

Quando era criança tinha medo de gente muito velha. Para mim era como se soubessem de tudo e rissem do resto do mundo ainda perdido, sem saída ou solução.

 

 

Sobre o corpo

 

Minha mãe diz que gosta de ser gorda porque não sente tanto as mudanças trazidas pelo tempo. Adora falar da pele despencada de algumas atrizes magrelas.

 

 

Ouvindo histórias

 

Um amigo me contou que, assim que seu avô morreu, a sua avó fez um pedido inusitado: queria conhecer uma travesti. “O que uma senhora ia querer com uma travesti?”, pensou o filho, mas decidiu ceder à sua vontade, levou-a até um bairro em que muitas trabalham como prostitutas. Ela desceu, conversou um tempo com uma delas, se emocionou. Voltou muda para casa, pegou um papel e se trancou no quarto.

 

Ninguém teve coragem de fazer perguntas. Mas já existem centenas de teorias sobre o assunto.

 

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Lá na fazenda

 

Decidi não me entregar à loucura criando uma imagem: eu velhinha num quarto com chão de cimento queimado e grandes janelas azuis. Sentindo cheiro de chuva e pão de queijo e café. Vestida com uma camisola de algodão bordada à mão. Tranquila com tudo o que tinha passado, procurando os óculos para ler um livro.

 

 

Vovó

 

Minha avó me disse esses dias que envelhecer não é o problema. O problema segundo ela é que as pessoas vão indo embora e talvez você tenha que ir também, mas ainda tem tanto a fazer por aqui.

 

 

Estágios

 

Minha irmã fez um estágio num lar para idosos, ela conta que se surpreendeu com a vitalidade do povo. Principalmente da Dona Rosa, quem adorava fazer inveja às mocinhas com a unha mais bem-feita da cidade.

 

 

Cretinice

 

Uma amiga me contou que presenciou uma briga no ônibus, uma moça não queria ceder o lugar pois, segundo ela, não daria a vez para velho nenhum sentar, sabia que todos eles estavam voltando do baile da terceira idade, enquanto ela tinha pegado no batente o dia todo.

 

Deixa o povo dançar, gata!

 

 

Só se

 

Só quero envelhecer se tiver garantias de que terei acesso ilimitado às deliciosas safadezas mundanas.

 

 

Só que

 

Eu não tenho plano de previdência privada.

 

 

Então

 

 

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Ilustração: Gunther Ishiyama.

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Aline – 23 de abril de 2015 - 10:16

Visões muitos particulares do envelhecer. Adorei!
Eu tinha medo da velhice, quando mais nova, pois tudo parecia uma mentira depois da juventude, mas tenho visto que eu estava errada…

Érika Lino – 17 de maio de 2015 - 13:28

Quero ser daquelas senhorinhas com meu cabelo platinado natural.
Dançar até a coluna travar,ou a joanete reclamar.
Quero contar ao meus netos sobre a paciata dos R$0,20.
Assim como o avó do meu pai me contou como foi viver 13 anos após a abolição dos escravos.

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