Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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ESCULACHO | Dá para endurecer sem perder a ternura?

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Pé na porta e militância. Por Alciana Paulino

Algumas questões me mobilizam muito, principalmente as relacionadas à sexualidade e gênero. Por me colocar de forma apaixonada, muitas vezes tive que contar com a paciência alheia. Não estou aqui pregando passar a mão na cabeça de gente machista/homofóbica/racista/fascista etc., mas acho que a ferocidade que podemos empregar em alguns debates pode ser medida.

 

Não tenho vergonha de ser uma feminista aguerrida, muito pelo contrário! Mas seria mais interessante se tivesse maturidade para escolher minhas lutas. Ficar escangalhando o tempo todo mina muito da minha energia e acho que pode minar a dos outros também e, se formos pensar em uma militância, no agrupamento de pessoas por uma causa, passa a não fazer muito sentido.

 

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Você, pessoa feminista que está lendo a coluna Esculacho neste exato momento, o que faria se ouvisse: “Ah, ela é assim porque não teve a oportunidade de conviver com uma figura masculina”. Meu bem, eu não sei o que passa pela sua cabeça, mas pela minha passa responder o seguinte: “Po**a, em que mundo você nasceu, cresceu e cometeu o crime de se reproduzir?”.

 

Talvez você até concorde comigo, mas fico pensando se tenho que jogar a verdade na cara o tempo todo. Percebo que isso me afasta do convívio de pessoas que, por mais que sejam conservadoras e machistas, ainda são importantes para mim.

 

Que fique claro que eu não pretendo deixar de me colocar, ok?! Mas existem formas e formas.

 

 

Nos coletivos o bicho pega

 

(Não, não vou falar do transporte público.)

 

Até agora estava falando daquele tête-à-tête maneiro. Mas, e quando chega uma voz destoante no coletivo do qual você faz parte e rola aquela polêmica? Você é a pessoa que acolhe e vai construindo o seu argumento aos poucos ou daquelas que manda a voadora, mete o pé na porta, sabe que está certx e ponto?

 

Vamos pensar juntxs. Se você faz o “rolê militância”, já deve estar acostumadx aos embates públicos, discussões acaloradas, enfim, essa balbúrdia deliciosa. Mas, se está se aproximando destes espaços há pouco, pode ser muito assustador ver como a coisa acontece.

 

Um casal de amigxs narrou que em um debate feminista uma garota aproveitou a fala aberta para colocar sua visão classista sobre a questão de gênero e violência. Contou a história de que a empregada doméstica que trabalhava em sua casa sofria com a violência diária de seu companheiro. Achava estranho que a moça não aceitasse morar em sua casa (local onde trabalhava) e ficava se perguntando o motivo de ela estar acomodada naquela situação. Quando me contaram o que a menina tinha dito, eu pensei imediatamente em duas coisas: 1) ela foi destruída e 2) que inocência falar aquilo naquele espaço (feminista/anticapitalista/maravilhoso).

 

Depois deste papo eu voltei para casa e fiquei pensando. Talvez se estivesse naquele debate eu ia querer deixar muito claro para aquela menina que ela estava enganada. Juntaria toda aquela energia ruim que acumulei vivendo em um mundo cindido, cheio de distinções, e jorraria na cara dela. Sambaria, linda e simplesmente. Mas, pelo que disseram, a dita estava disposta a acompanhar o debate, o grupo etc.

 

Para nós que militamos é imprescindível aproximar as pessoas das nossas causas. Demonstrar a relevância do que nos move, sensibiliza etc. Mas não é pagando de garota do Exorcista que vou fazer isso acontecer.

 

Repele ou agrega? Às vezes o ímpeto inocente de falar o que pensa com aquela força ancestral pode botar tudo a perder… Imagina Chuck Norris distribuindo chutes para qualquer coisa que não gostou.

 

 

Cadê a ternura?

 

Como educadora, eu jamais viraria para umx alunx e diria “bebê, você é estúpidx? Não percebe que blá-blá-blá”. Mas existem diferenças aí, eu amo meus/minhas alunxs, eu adoro trocar ideias com elxs e nunca os vejo como pessoas acabadas e definidas. Independente da idade que tenham. Talvez o processo de ensino-aprendizagem me humanize.

 

Talvez tenha me construído como militante feminista a partir do estereótipo machista do que é uma militante feminista. Bang! Essa é bombástica! Mas também é uma suposição. Existem outras. O que vale é refletir sobre isso. Nós, vítimas do ódio, não deveríamos propagar isso às avessas.

 

Não acredito que seja com violência e autoritarismo que vamos conseguir convencer alguém, até porque eu nunca fui convencida deste jeito. Espero manter a minha força guerreira, mas usá-la quando realmente for necessário. Para os coletivos dos quais faço parte e para as pessoas que não me agridem eu quero uma conversa sincera, aberta e justa. Quero trazer comigo o mesmo afeto que levo para os debates com xs educadorxs ambientais com quem trabalho.

 

Fazer parte do Coletivo Geni tem me ensinado muito. Mesmo quando alguém discorda do que eu digo/penso/falo, faz isso com dignidade e respeito e é assim que eu quero ser quando crescer. Ternura, Brasil!

 

Mas e você, como lida com isso?

 

 Leia outros textos de Alciana Paulino e da coluna Esculacho.

 

Ilustração: Vitor Martins.

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