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Eu não mereço ser estuprada. Por Sueli Feliziani

 

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Se uma mulher sai à noite, está pedindo para ser estuprada. Cerca de 80% dos enfermeiros do Brasil são mulheres, e muitas trabalham à noite.

 

Isso vale também para médicas, atendentes e várias trabalhadoras do setor de serviços. Pessoas deveriam ter o direito de sair pra trabalhar em paz, certo? Errado. Se você é mulher, você não tem esse direito.

 

“Ah, mas essas mulheres saem à noite pras baladas, pra beber.”

 

Você trabalha a semana toda – não à noite, porque não pode, vai ser estuprada –, ganha seu dinheiro e, no fim de semana, resolve sair com suas amigas pra espairecer e ver gente. Delícia, né? Vai dançar e tomar uma cerveja. Então, não. É lógico que está pedindo pra ser estuprada. Porque todo mundo deveria ter direito a lazer. Mas, se você é mulher, não tem.

 

E mais: durante o dia também não pode. Se você está no metrô, às sete da manhã, em cima do salto, carregando sua marmita e os livros da faculdade, tem gente que acha que você também está pedindo pra ser encoxada. Afinal, você está ali, num vagão com lotação excedida, encostando nas pessoas à sua volta. Mas todo cidadão deveria ter direito a um transporte seguro. Não, não pode. Se você é mulher, você não tem essa opção. E ainda vai aguentar assédio do chefe, do office boy, do gerente, do cliente e sorrir. Porque seu corpo é público e não é nada demais, é só uma cantada.

 

Se a roupa sensual é que causa estupro, respondam essas questõezinhas básicas: por que 70% dos estupros acontecem em casa ou com conhecidos ou familiares da vítima?

 

Todo mundo anda em casa de shortinho dançando o tchan ou vestida de látex? Porque eu em casa uso roupa rasgada, cabelo bagunçado e chinelo.

 

Por que crianças são metade das vítimas de estupro?

 

Será que são muito excitantes aquelas roupinhas de babado e aquele legging da Hello Kitty? Ou o fetiche por meias 3/4 e sapatos boneca número 20 é universal? E velhinhas de 80 anos? Avental e xale de crochê. Tudo comprado no sex shop, só pode.

 

 

Por que mulheres de países em que o código de vestimenta é rigido, como Sudão, África do Sul, Congo, Iraque, Irã, ainda assim são estupradas?

 

Será que burcas são muito provocantes? Ou é o poder de sedução inevitável dos tornozelos em meias escuras que enlouquece os hormônios masculinos? Ou aqueles olhos misteriosos por trás das telinhas dos niqabs? Hummm, muito sexy e misterioso, não acham? Ou as vestimentas tribais que cobrem o corpo todo, e ainda vêm com turbante. Tudo muito provocativo.

 

Por que mulheres em contexto de guerra são estupradas sistematicamente?

 

E esse fetiche por roupas esfarrapadas e desnutrição por escassez causada por conflito armado prolongado que parece ser primordialmente turn on, hein, gente?

 

Ou seja, você não pode sair de dia nem de noite, não pode estar em casa, não pode beber nem dançar, nem trabalhar, nem ir à faculdade, nem usar shortinho ou burca, nem ter 5 ou 80 anos em tempos de paz ou de guerra.

 

Na verdade, o que causa o estupro é existir.

 

Tá podendo na rua. No vagão. De dia. De noite. O que não tá podendo mesmo é ser mulher.

 

#usandoalógicaporqueseusaraforçavaisairmorte

#pessoasnãosejamquemvocêsestãosendo

#porfavornãofaçammerdafaçamsentido

 

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Jaqueline Couto – 1 de abril de 2014 - 19:44

Foda. Uma das melhores coisas que li a respeito do #EuNãoMereçoSerEstuprada.

Ana Amelia – 2 de abril de 2014 - 8:25

concordo com a jacqueline!

matheus matheus – 9 de abril de 2014 - 23:37

Não pode é as pessoas serem como estão sendo.

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