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Sair do armário mais tarde

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Memória, envelhecimento, pintosas e caceteiras no interior do Mato Grosso do Sul. Por Guilherme R. Passamani

 

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Minha pesquisa atual está em desenvolvimento na região do Pantanal de Mato Grosso do Sul, nas cidades de Corumbá (108 mil habitantes) e Ladário (21 mil habitantes), nas cercanias da fronteira com a Bolívia. A pesquisa busca estabelecer contato com pessoas com conduta homossexual (uso “conduta” no sentido de John Gagnon em Uma interpretação do desejo – ver bibliografia –, tentando articular prática e sentido no que diz respeito às questões de sexualidade), maiores de 50 anos, para pensar as possíveis tramas entre memória, envelhecimento e condutas homossexuais ao longo do curso da vida, bem como compreender as idiossincrasias que podem existir na experiência desses sujeitos em regiões que não são caracterizadas como grandes centros urbanos.

 

Esta pesquisa é desdobramento de uma trajetória nos estudos de gênero e sexualidade iniciada em 2003. O interesse em trabalhar com cidades do interior de Mato Grosso do Sul se deve ao fato de eu ser professor na universidade federal desse estado e em vista da curiosidade por perceber se ali também se aplicava certa lógica de migração com a orientação sexual como base (Green, 2000), isto é, seria realmente necessário migrar para um grande centro a fim de alcançar a realização plena da “homossexualidade”? O investimento da pesquisa está na tentativa de percepção das potencialidades das cidades menores, nas quais, inclusive, podem emergir centralidades e periferias amparadas em outras óticas que não a lógica capital-interior.

 

O trabalho aborda a forma como se organizam as sociabilidades e, quem sabe, a produção de identidades, mesmo que muito fluidas. A particularidade de, no Pantanal, as redes em que as pessoas se conhecem serem todas interconectadas, produz um tipo de sociabilidade que não é tão comum ou recorrente nas cidades grandes devido à dinâmica da própria vida metropolitana.

 

Com isso, a partir de variações internas, o meu campo pode se apresentar ligeiramente diferente dos campos e trabalhos empreendidos nos grandes centros urbanos. Rupturas e permanências, talvez, possam dar a tônica da pesquisa, muito mais do que oposições basilares. Entre essas rupturas e permanências, podem surgir elementos para pensar a mudança da “homossexualidade enquanto lugar social” (Carrara, 2005) e mesmo diferentes aspectos do próprio processo de envelhecimento.

 

O fato de permanecer na cidade de origem pode sinalizar uma relação tensa com o anonimato e com a impessoalidade, especialmente no que diz respeito às questões que envolvem as condutas homossexuais dos sujeitos, fazendo com que estabeleçam potenciais confrarias (Soliva, 2012) onde o segredo e o anonimato possam ter especial importância. Esses elementos podem mudar, completamente, o regime de visibilidade com o qual os sujeitos estão constantemente negociando.

 

 

Bem poucas e bem velhas

 

Lembro dos primeiros comentários, quando cheguei a Corumbá, feitos pelas integrantes das ONGs que contatei: as bichas velhas da cidade eram bem poucas e bem velhas, mas velhas mesmo.

 

De fato, após alguns dias em campo, acabei constatando que as primeiras informações estavam corretas: eram poucas e bem velhas. No entanto, por meio das “velhas mesmo” consegui estabelecer contatos mais amplos, que me permitiram mais possibilidades e que renderam surpresas interessantes.

 

Meu conjunto de interlocutores é formado por 20 pessoas entre 52 e 82 anos, homens, mulheres e travestis. É um emaranhado de redes e sujeitos com condutas homossexuais que dividi em grupos de afinidade menores: a rede dos homens de quase 60, a rede dos homens de mais de 60, a rede do mundo do samba e a dos contatos da internet. Isso me permitiu olhar para diferentes trajetórias. Memórias, lembranças e histórias eram contadas a todo instante. Tive acesso, por meio de suas memórias, a festas privadas, com muitas bichas e bofes, nos idos de 1960 e 1970.

 

Fiquei conhecendo um pouco sobre os atuais e antigos Carnavais na região, uma espécie de saída do armário para muitas das bichas locais. Percorri os caminhos dos diferentes níveis e regimes de visibilidade (Meccia, 2011) a que os sujeitos estiveram e estão submetidos. E, principalmente, acessei personagens (muitas personagens) e suas estratégias para permanecer na cidade de origem e, ainda assim, conseguir viver no armário a sua conduta homossexual. Essas histórias continuam sendo escritas. Por eles, pois o curso de suas vidas segue. E por mim, cujas transcrições de todas essas informações recebidas estão sendo codificadas na forma de trabalho de doutorado em ciências sociais na Unicamp. Aqui, apresento um caso específico que estou analisando. Trata-se da trajetória de Tom.

 

 

A problemática do armário

 

 

Tom, 53 anos, é funcionário público municipal e já trabalhou em banco, restaurante, loja e outras empresas. Essa vida de trabalho é acionada por ele para justificar suas origens sociais, isto é, para dizer que, diferente de muita bicha que tem as costas quentes, ele precisou ralar muito, pois nunca ganhou nada de graça.

 

Pude observar em nossos encontros que ele se preocupa bastante com o visual. Tom é branco, baixo e magro, com cabelos tingidos de mechas louras. Suas roupas joviais chamam a atenção: camisetas coloridas justas ao corpo, bermudas jeans longas e tênis. Isso compõe o que ele chama de “jeito jovem de ser”. Tom está conectado à internet de maneira constante. Redes sociais como Facebook e Twitter ou aplicativos de pegação como Scruff, Grindr, Hornet e Tinder são acessados a todo instante, a ponto de a gente precisar disputar a atenção dele com essas ferramentas.

 

Tom foi um dos meus interlocutores que passou por um processo de “assumir-se”. Esse processo não foi, segundo ele, nem fácil nem rápido. Exigiu algumas estratégias, observações, medos, silêncios, pois, em seu círculo de relação, mesmo entre algumas pessoas de sua família, existia preconceito com outras pessoas com conduta homossexual da cidade. Na trajetória de Tom, a problemática do “armário”, discutida por Eve Sedgwick (1998), é muito oportuna.

 

Por que penso que há relevância do “armário” na história de Tom? Porque havia a necessidade do estabelecimento de uma vida dupla: a vida para a família e os amigos e a vida para as conquistas eróticas e sexuais – quase sempre, muito secretas. Além disso, essa condição lhe causava certo sofrimento, opressão, confusão e culpa, uma vez que as referências de Tom não apontavam para a forma como ele se compreendia: “Eu não queria ser traveco e bicha mulher. Era só isso que a gente via aqui.”

 

 

Gradientes de bichice

 

O sociólogo argentino Ernesto Meccia, quando disserta sobre os diferentes regimes de visibilidade que transitam da “homossexualidade” à “gaycidade” na Buenos Aires da segunda metade do século 20, mostra como a socialização entre pessoas do mesmo sexo tinha um caráter “clandestino”. Mais que isso, que esse caráter “clandestino” foi, durante décadas, algo “normal”.

 

A insegurança de Tom entre se assumir ou não dialoga com o fato de a “homossexualidade” também ser clandestina no Pantanal. Ela existia, mas estava visível apenas nos dias de Carnaval ou restrita às festas particulares em casas quase isoladas. Quer dizer, o espaço público e, principalmente, a luz do dia permaneciam privatizados pelas condutas heterossexuais.

 

Talvez a visibilidade da “homossexualidade” fosse um problema no Pantanal assim como era em Buenos Aires. E arrisco – a partir das informações de  Tom – a pensar que algumas visibilidades pudessem, particularmente ali, ser mais problemáticas que outras.

 

No caso dos homens com conduta homossexual, aqueles bastante afeminados, ou mesmo as travestis, não causariam tanto espanto, pois marcariam de forma muito visível, em seus corpos, a diferença: homem com conduta heterossexual e macho é assim; travesti ou homem afeminado e com conduta homossexual é assado. Os mundos, ainda que hierarquizados, estariam divididos, e uma “heterossexualidade” hegemônica estaria preservada. O problema apareceria quando os homens não fossem mais tão afeminados e nem “inventassem de querer ser mulher”, porque aí se borraria a fronteira. Deixariam de existir os limites rígidos entre uns e outros e, por fim, a “heterossexualidade” se veria ameaçada.

 

Portanto, é possível que, no Pantanal, a pirâmide da estratificação sexual proposta por Gayle Rubin (2011) tenha sofrido algumas alterações e as travestis e os gays afeminados não ocupassem os lugares mais depreciativos. Esses lugares poderiam, justamente, ser ocupados pelos gays mais discretos, mas ainda assim identificados como homossexuais, como se eles não tivessem tido a “coragem” de serem gays de verdade, ou seja, afeminados ou travestis (haveria uma indiferenciação – bastante pontual e localizada – entre orientação e identidade de gênero: gays afeminados e travestis seriam etapas diferentes de um mesmo gradiente de bichice).

 

 

Idas e vindas de Tom

 

O cuidado com a visibilidade, no caso de Tom, também tem a ver com o seu lugar de classe. Embora ele não fosse de uma família rica, era de uma família trabalhadora e conseguiu ascender socialmente. Classe e sexualidade conversam de perto e produzem uma tensão que inibiria algumas práticas eróticas e sexuais. Em outras palavras: Tom não podia “ser mulher”, como diz, porque tinha o que perder.

 

Até chegar a um patamar de quase completa visibilidade, a estratégia utilizada por Tom foi a de primeiro conhecer a vida gay em outras cidades, como Campo Grande (a capital do estado) e Rio de Janeiro, onde viviam alguns amigos também com conduta homossexual. Andar por esses lugares, conhecer os espaços de sociabilidade do mercado GLS, conhecer diferentes pessoas com conduta homossexual permitiu a Tom entender melhor o que se passava com ele e sedimentar algumas certezas no que diz respeito a sua orientação sexual. Depois de um tempo de reflexão, de volta ao Pantanal, ele “assumiu” que era bicha mesmo e começou uma vida fora do armário.

 

Todavia, as idas e vindas de Tom são diferentes de um processo migratório das bichas das pequenas cidades para os grandes centros. Alguns estudos propõem que o êxodo é uma espécie de destino para as pessoas com condutas homossexuais nascidas nas pequenas cidades, mas isso não parece se aplicar à vida de Tom. A diáspora que envolveria as pessoas com conduta homossexual não tem vez aqui. Mais do que migrar, Tom e as demais pessoas que entrevistei na minha pesquisa transitaram por alguns grandes centros, experimentando a diversidade e aparente liberdade inexistentes na cidade de origem. Mas retornaram para suas cidades com os conhecimentos adquiridos e, ao que tudo indica, com mais coragem para desenvolver experiências semelhantes ali.

 

Alguns trabalhos de intelectuais que buscaram escrever “a história da homossexualidade no Brasil do século 20” acabaram construindo um imaginário de que, para o exercício pleno de uma “sexualidade desviante”, era decisivo um processo migratório para os grandes centros urbanos do país (fundamentalmente no Sudeste). Tais trabalhos colaboraram para edificar a ideia de que no interior, nas cidades menores, nas vilas e lugarejos, as práticas sexuais entre pessoas com conduta homossexual seriam atos contundentemente reprováveis.

 

Esses estudos (alguns, aliás, de muito fôlego) não estão equivocados. Meus dados de campo, por exemplo, mostram situações de medo, de preconceito, de controle e vigilância. No entanto – e parece que isso era desconhecido dessas pesquisas – há uma série de histórias sobre resistência dos sujeitos que estão na pequena cidade. Meu trabalho no Pantanal mostra isso. Tom mostra isso. E tantos são os exemplos em minha pesquisa que desacreditam da necessidade fundamental da migração para a realização plena da sexualidade.

 

 

Desfilando a resistência

 

Parte das estratégias adotadas pelos sujeitos são contadas por Tom a partir de sua experiência. Ele lembra que, antes de se assumir, já tinha dado algumas pistas à família (bem como à cidade) de que poderia ser uma bicha, pois já estava muito envolvido com o Carnaval.

 

Esse é um fato curioso. Alguns entrevistados contam que o simples envolvimento com o Carnaval, naquele tempo, era, sim, dar pistas de que se era bicha. Tom lembra: “Eu já desfilava. Naquele tempo, se você desfilava no Carnaval, é claro que você era viado. Mas eu não assumia e nem dava essa pinta que dou hoje. Mas todo mundo sabia. Homem-homem não desfilava.”

 

Um pouco antes do primeiro desfile no Carnaval, ele começou a perceber mais fortemente alguns desejos por garotos. Entre 15 e 16 anos experimentou a primeira relação sexual com outro homem. O garoto era amigo de seu irmão mais velho e Tom o considera seu primeiro namoradinho. Tom diz que o rapaz não era gay, ele era homem. A relação não era exatamente igualitária: “Eu namorava, eu gostava. E ele só queria me comer.”

 

No entanto, essas primeiras relações e esses casos eventuais com amigos do seu irmão, ou vizinhos, nunca foram sistemáticos ou sintomáticos para que ele decidisse, naquela época, assumir-se. Tom revela que pensava nesses desejos como próprios de uma fase de experimentação e descoberta da sexualidade. Algum tempo depois, pensava ele, isso passaria e ele se envolveria com alguma mulher.

 

Seus primeiros envolvimentos com os homens se aproximam do que foi proposto por Peter Fry, em Para inglês ver, como um modelo hierárquico, que, no caso de Tom, se realizou com o amigo hétero do irmão comendo a bichinha nova sem com isso comprometer nem sua “heterossexualidade”, nem sua masculinidade. Por outro lado, pensar a conduta homossexual como uma fase é algo recorrente em outros estudos. Quando eu pesquisei um grupo de jovens com condutas homossexuais na cidade de Santa Maria (RS), esta era uma ideia muito presente: a homossexualidade, para eles, era vista no final da adolescência como uma fase de experimentação até decidirem pela heterossexualidade. No entanto, a fase gay, como diziam alguns, permaneceu e não teve volta. Tal situação parece ter sido a percebida por Tom no Pantanal.

 

No que diz respeito à visibilidade, ainda que Tom se compreendesse como uma pessoa com conduta homossexual, ele escolheu permanecer no armário até os 25 anos, por questões que envolviam o mundo do trabalho e seu lugar de classe. Tal decisão coincide com a saída de casa para a coabitação com amigos em outro bairro da cidade.

 

Passar a dividir casa com um homossexual assumido foi como que a saída do armário involuntária de Tom: “Morar com a bicha me fazia, automaticamente, bicha também. E quer saber? Melhor assim. Tudo ficou resolvido.” Diferente do amigo, que se montava de mulher (ou “estava em travesti”, para usar um termo do pesquisador Mario Carvalho – ver bibliografia), Tom não nutria esse tipo de desejo, mas tampouco dispensou aprender a dar pinta: “Guri, eu sempre gostei de dar pinta”, diz ele pondo a mão na cintura. “Sou pintosa mesmo, caceteirinha, e ninguém tem nada com isso.”

 

Caceteirinha é uma variação de caceteira, um sinônimo, entre meus interlocutores do Pantanal, para se referir à bicha. A expressão é utilizada, especialmente, para se referir a bichas que têm uma quantidade grande e variada de parceiros. As bichas caceteiras são aquelas para as quais não faltam homens, afinal elas não têm critério nenhum, ficam com todo mundo. As caceteiras são as bichas mais desprestigiadas. Geralmente são mais velhas, mais “escuras”, mais pobres e menos escolarizadas. Até existem caceteiras brancas, ricas e jovens, mas não é comum.

 

 

Performances e lugares

 

Com relação a ser pintosa e outras performances desempenhadas por Tom, as reflexões de Judith Butler (2000), sobre as diversas formas de expressão e classificação de mulheres com conduta homossexual, assim esclarecem:

 

Poderíamos dizer que a sexualidade excede qualquer narrativa definitiva e que nunca é “expressada” completamente em uma atuação ou em uma prática […] Não existem linhas diretas, expressivas ou causais entre o sexo, o gênero, a apresentação de gênero, a prática sexual, a fantasia e a sexualidade. Nenhum destes termos captura ou determina o resto. [Tradução da Geni]

 

Butler adverte, talvez para tranquilidade de Tom, que os sujeitos são performáticos. A nossa capacidade performática opera inclusive, e de maneira complexa, no mundo dos desejos. Por isso a autora conclui que não existe uma relação linear entre gênero, prática sexual, fantasia e sexualidade. A invenção de uma matriz heterossexual regulatória do desejo é apenas uma tentativa de frear uma série de múltiplas possibilidades, que passam também pelo ser pintosa e por outras expressões que, de alguma forma, subvertem as fronteiras de gênero e têm como objetivo pluralizar as manifestações de desejo.

 

As liberdades conseguidas a partir da estabilidade financeira para ser pintosa e viver como gostaria contrastam com o tempo de sua juventude. Tom associa visibilidade com uma espécie de estrutura socioeconômica que garantiria um lastro de respeito, pois isso significaria ser independente da família de origem e conseguir transitar socialmente a partir de um lugar de classe um pouco mais favorecido. O argumento de Tom é no sentido de justificar o que ele chama de “sair do armário mais tarde”, que teria sido o seu caso e do seu grupo de amigos, os homens de quase 60.

 

Por outro lado, a situação é um pouco mais complexa. Homens mais afeminados e travestis, na opinião de Tom, não teriam como esconder a homossexualidade. Deles, era exigida uma visibilidade, ainda que sem qualquer estrutura de proteção. A afeminação seria esse elemento que os empurraria para a visibilidade. Segundo ele, muitas vezes esses sujeitos mais afeminados eram também mais pobres e por isso seriam discriminados.

 

A discriminação não se dava apenas em razão da visibilidade de uma conduta sexual de minoria (já que algumas vezes a visibilidade ostensiva acabava por desqualificar não o sujeito, mas a própria consistência do preconceito, operando de forma a ressignificar a discriminação), mas também por serem pessoas pobres. Haveria um encontro de preconceitos. Ele se considera pintosa, mas como conseguiu inserir-se no mundo do trabalho em um lugar mais bem situado, teria mais condições de se defender da discriminação e do preconceito, situação que tornaria outros sujeitos, igualmente pintosas, mas alocados em lugares subalternizados na estrutura socioeconômica, em flagrante situação de alguma vulnerabilidade. Tom assim me conta:

 

 

Eu acho que a cidade é preconceituosa. Eles toleram você dependendo do seu nível social. Eu sou uma pessoa que todo mundo gosta porque eu trabalhei. Eu sempre tive uma posição de destaque na sociedade. O maior preconceito é com as pobres e com os travecos. Alguns que são travecos são aceitos na sociedade, porque ele são tipo, são cabeleireiros, você sabe, em qualquer lugar eles são bem aceitos. Porque eles têm uma clientela. Eles têm as mulheradas da sociedade, que eles fazem cabelo da sociedade. Então, elas gostam disso.

 

 

É sempre potente pensar, na esteira de Avtar Brah (2011) e Anne McClintock (2010), como algumas categorias em articulação que produzem diferença podem gerar aproximações ou potencializar desigualdades – na fala de Tom, essas categorias são a afeminação (isto é, performances de gênero que fazem alguns homens com conduta homossexual serem reconhecidos como pintosas ou mesmo a identidade de gênero das travestis) e a questão de classe. Quando olhadas pelo viés das performances de gênero, associado à questão de classe, há um trânsito rumo a lugares menos nobres na pirâmide da estratificação sexual (Rubin, 2011). Galgar espaços menos desconfortáveis na referida pirâmide está associado, aqui, com o lugar de classe na hierarquia social.

 

A bicha pintosa que tem um bom trabalho, a travesti cabeleireira ou envolvida com o Carnaval, isto é, que tem uma renda que não vem da prostituição, estão mais bem situadas e conseguem, inclusive, barganhar a tolerância e, até, quem sabe, o respeito das pessoas de sociedade. Em síntese, o que Tom conta é que o preconceito atingiria as pessoas afeminadas e pobres. O lugar de classe, em uma condição menos favorecida, é que tornaria a afeminação uma categoria discriminável.

 

 

“Eu sambo mesmo”

 

 

De maneira geral, essas memórias compõem a trajetória de Tom, um de meus interlocutores da rede dos homens de quase 60 anos. Olhando pelo retrovisor, ele entende que sua vida foi uma vida de superação. Superação da pobreza mais flagrante e de possíveis discriminações. Entende-se respeitado como é, sem máscaras e sem sobrenome importante: “Todos sabem que eu sou uma bicha. Que eu sambo mesmo. Que eu sou pintosa e caceteira. Mas que sou muito sério quando tem que ser sério.”

 

Por fim, como uma pequena parte do meu trabalho ainda em construção, a trajetória de Tom, iniciada com o que ele entende ser uma saída tardia do armário, ajuda a pensar a possibilidade de vivência de uma conduta homossexual na cidade do interior em meio ao enfrentamento de desafios e ultrapassando as barreiras que, possivelmente, sejam interpostas por preconceitos e discriminações. Há custos, certamente (a exposição, por exemplo, talvez tenha sido, no caso dele, um dos mais flagrantes). Mas, como diria a canção, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Talvez, Tom tenha conseguido administrar essa tensão ao longo do curso de sua vida, o que a converte hoje em uma sensação de realização e vitória diante do destino ruim ao qual parecia estar fadado, em vista de suas origens sociais.

 

 

Referências bibliográficas

 

BRAH, Avtar. Cartografia de la diáspora: identidades en cuestión. Madrid: Traficantes de Sueños, 2011.

BUTLER, Judith.“Imitación e insubordinación de género” In: GIORDANO, Raúl (org.). Grafías de Eros. Historia, género e identidades sexuales. Buenos. Aires: Edelp, 2000. p. 87-113.

CARRARA, Sérgio. “O Centro Latino Americano em Sexualidade e Direitos Humanos e o ‘Lugar’ da Homossexualidade”. In: GROSSI, Miriam Pillar [et al.] (org.). Movimentos sociais, educação e sexualidades. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

CARVALHO, Mario Felipe de Lima. “Que mulher é essa?”: identidade, política e saúde no movimento de travestis e transexuais. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva). Instituto de Medicina Social. Rio de Janeiro: UERJ, 2011.

FRANÇA, I. L. Consumindo lugares, consumindo nos lugares: homossexualidade, consumo e subjetividades na cidade de São Paulo. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2012.

FRY, P. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

GAGNON, John H. Uma interpretação do desejo. Ensaios sobre o estudo da sexualidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.

GREEN, James Naylor. Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: EDUNESP, 2000.

HALBERSTAM, Judith. Female masculinity. London: Duke University Press, 1998.

McCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

MECCIA, Ernesto. Los últimos homosexuales. Sociología de la homosexualidad y la gaycidad. Buenos Aires: Gran Aldea Editores, 2011.

PASSAMANI, Guilherme R. O arco-íris (des)coberto. Santa Maria, RS: Editora UFSM, 2009.

PASSAMANI, Guilherme R. Na batida da concha. Sociabilidades juvenis e homossexualidades reservadas no interior do Rio Grande do Sul. Santa Maria, RS: Editora UFSM, 2011.

RUBIN, G. Deviations: A Gayle Rubin Reader. Durham, NC: Duke University Press, 2011.

SEDGWICK, Eve Kosofsky. Epistemología del armario. Barcelona: Ediciones de La tempestad, 1998.

SOLIVA, Thiago Barcelos. A confraria gay: um estudo de sociabilidade, homossexualidade e amizades na Turma OK. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Antropologia). PPGSA, UFRJ. Rio de Janeiro, 2012.

 

 

Guilherme R. Passamani é bolsista Fapesp, doutorando em ciências sociais na Unicamp na linha de Estudos de Gênero e professor da UFMS.

Ilustração: Gustavo Inafuko

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