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[SSEX BBOX] | Os movimentos de Juan

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E o que viu do mundo em um pouco mais de seis décadas. Por Dea Zanella, de São Francisco, nos Estados Unidos

 

 

A equipe [SSEX BBOX] em São Francisco entrevistou Juan Tomas Crovetto, gay, espanhol, 65 anos, para falar sobre sua vivência, dar seu testemunho sobre seus 46 anos nos Estados Unidos e contar, através de sua história pessoal, o que viu do mundo nessas seis décadas e meia.

 

 

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26 de junho de 1969, 21h30

 

Juan desembarca no aeroporto JFK, em Nova Iorque. Ele tinha viajado para uma temporada de intercâmbio de estudos, hospedado por uma família em Cape Cod. No dia seguinte ao desembarque, ao ver a capa do jornal, mesmo sem saber inglês, leu a palavra homosexuals na notícia e acreditou ter chegado ao paraíso. “Aqui, os gays estavam na primeira página do jornal! Em Madrid, eu ainda nem tinha saído do armário”, lembra Juan.

A notícia falava sobre a noite anterior, StoneWall Riot, a rebelião que deu origem ao movimento pelos direitos dxs homossexuais. Porém, somente dois anos mais tarde, Juan entenderia a dimensão do que tinha acontecido na noite de sua chegada ao país.

Foi em 1971, após passar mais um verão em Cape Cod, que conheceu um homem gay e decidiu ficar com ele. “Então você resolveu seguir seu coração e se mudar pra Nova Iorque?”, perguntei. Juan disse: “Coração? Não, era sexo puro!” e deu uma boa risada. “Você sabe como é: os homens gays fazem amizade através do sexo. Primeiro transam e depois viram amigos, pelo menos comigo era bem assim.”

Ele foi embora da Espanha governada pelo ditador Franco, com o sonho de ser livre na América. “Eu sempre soube o que eu sou: eu danço, sou gay e por isso tinha que estar em um lugar onde eu pudesse fazer isso sem medo. Por isso quis vir pra cá. A ditadura na Espanha me impedia de ser quem eu sou.”

Aos 21 anos, sua vida tinha se transformado: mudou-se para o Village (bairro gay de Nova Iorque), começou a dar aulas de dança, se apresentar em eventos e logo formou uma rede de amizades muito sólida. “Foi uma época muito divertida, todo dia dançava, encontrava os amigos, tinha muita gente.”

 

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Era a época da disco-dancing e, durante um ano, Juan deu aulas no Estúdio de Dança Fred Astaire, em Nova Iorque. Decidiu então trabalhar sozinho e passou a dar aulas em seu loft. Ganhou o Sapato de Ouro por ser o melhor professor de disco-dancing na cidade.
“Mas no fim dos anos 70, acabou a era disco. Um dia, encontrei uma mulher no Central Park, que tinha uma cobra. A cobra me olhou, eu me aproximei. Então a cobra me deu um beijo na boca e eu me apaixonei! Decidi que tinha que comprar uma cobra e foi assim. Essa foi minha próxima evolução.”

Juan se apresentou dançando com sua cobra negra de estimação por alguns anos, até que, em 1987, Nova Iorque começou a mudar. A pobreza e a violência aumentaram e “a energia da cidade ficou mais baixa, numa frequência muito ruim. Percebi que eu queria ir embora, que tinha que ir pra Califórnia”, relembra ele.

Chegou em São Francisco com 500 dólares no bolso e, no terceiro dia na cidade, conheceu um homem. “De novo, a mesma coisa: primeiro sexo e depois amizade” conta ele, com a sua risada safada. Era um professor de dança que estava se mudando para a Grécia, e que deixou todo o seu negócio e seus clientes para Juan. “Sempre tive muita sorte. Sempre.”

 

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E o que mudou para você, saindo de Nova Iorque e chegando em São Francisco?

“São Francisco é tão diferente de todos os outros lugares, tão liberal, aqui todo mundo é esquisito de alguma forma. It’s a Freak-City*. Muitos dizem que é uma cidade de loucos, mas eu digo que é uma cidade de gente criativa. Muitos movimentos nasceram aqui: movimentos sociais, ideias revolucionárias que, para mim, são formas de arte: The Sisters of Perpetual Indulgence, por exemplo. Elas apareceram na época da crise da aids, em 1981, e continuam ajudando a conscientizar as pessoas e a cuidar de quem adoece.”

Quando esse tópico aparece, decidimos voltar um pouco no tempo. Voltamos para sua vida em Nova Iorque, no começo dos anos 80.
“Muitos dos meus amigos adoeceram e morreram entre 84 e 87, em Nova Iorque. Toda a nossa comunidade teve que se ajudar, todo mundo cuidou dos amigos. Os médicos não queriam cuidar, tinham medo até de encostar nos pacientes, mesmo sabendo que o contágio não se dava por contato de pele. Então, eu cheguei em São Francisco e foi igual. Uma tristeza. E foi assim até mais ou menos 1994,1995, quando saíram os novos medicamentos. Aí a coisa mudou. Ficou melhor: as pessoas morriam menos, adoeciam menos. Assim, podiam efetivamente trabalhar e continuar vivendo, sabe?”

Nesse momento, Juan lembra que vive numa “bolha”: “Nova Iorque e São Francisco não são como o resto do país. O estigma mudou nessas cidades, os gays e os héteros entendem melhor como se dá o contágio e o preconceito. Passaram a tratar melhor quem é soro-positivo.” Mas ele se pergunta como seria estar em outros estados, ou outros países, onde as pessoas não têm tanto contato com as informações. E “essas informações” são principalmente a respeito dos efeitos tóxicos do AZT.

 

 

A aids apareceu no meu corpo, não só o HIV. São coisas diferentes. Você pode ser HIV positivo e não ter aids.

 

 

Neste ponto da conversa, pergunto mais sobre os medicamentos, os tratamentos e as informações que temos sobre o universo HIV-AIDS. Ele me contou sobre seu caso e o movimento dos “dissidentes”:

“Eu sou positivo há 22 anos. Peguei meu resultado em 17 de março de 1993. Mas estava saudável e não adoeci. Nós, os dissidentes, acreditávamos que os remédios, o AZT em especial, eram o motivo das mortes, e não o HIV em si. Vi muitos dos meus amigos morrerem e sofrerem muito com os tratamentos. Acreditávamos que comendo bem, nos exercitando e levando uma vida saudável, o sistema imunológico iria se fortalecer. Passei dez anos sem me medicar. Em parte, estávamos certos. O AZT era mesmo muito tóxico. Mas, em 2003, eu fiquei doente pela primeira vez; tive que ir para o hospital. Fiquei internado por dez dias e não sabia o que estava acontecendo. E foi então que me disseram: você está com aids. A aids apareceu no meu corpo, não só o HIV. São coisas diferentes. Você pode ser HIV positivo e não ter aids. Foi o que aconteceu comigo nesses dez anos. E, depois desse episódio, eu decidi tomar os remédios. Nessa época, já estavam saindo os novos medicamentos, muito mais específicos, menos tóxicos e sem os efeitos colaterais do AZT. Os inibidores de protease. Eu melhorei muito rápido.”

Juan conta que a partir desse momento, começou a tomar a medicação e que passou quatro anos em tratamento, até que decidiu parar novamente, por conta de uma decepção importante com o que chamou de “a Aids S.A..”, ou seja, a “indústria da aids”.
“Eu decidi me separar de tudo o que tinha a ver com isso, pois tinha ficado muito decepcionado. Eu era voluntário numa organização que alimentava pessoas com aids, estava cozinhando para eles um dia e minha casa pegou fogo. Ninguém da organização veio me ajudar, nenhum telefonema para saber se eu estava bem. Meus amigos vieram limpar minha casa comigo, mas decidi que não queria ter mais nada a ver com aquela “indústria”. Parei de tomar os remédios. Mas em 2011, fiquei doente de novo. E dessa vez fiquei pior, precisei de muito mais tempo para me recuperar. Então voltei a tomar os remédios, junto com boa alimentação, bastante sono e exercícios. E eu melhorei. Tomo minha medicação até hoje e não fiquei doente de novo. Meu conselho é que se tome a medicação.”

E quem estava com você nesse momento? Quem te acompanhou?

“Nas duas vezes que adoeci, em 2003 e outra em 2011, tive a sorte de ter muitos amigos por perto, tinha pelo menos cinco pessoas me visitando no hospital a cada dia. Em 2011, passei cinco meses numa casa de recuperação. Os amigos continuaram vindo. Não teve um dia em que eu fiquei sozinho.”

 

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As amizades parecem ter um papel especial e importantíssimo no seu relato de vida. Pergunto a Juan o que mudou, como ele sente que as amizades se formam e se mantêm através do tempo.
“Vou ser bem honesto com você: hoje em dia, não faço mais amigos através do sexo. Ao ficar mais velho, acho que sou menos atraente para outras pessoas. Mas isso não é tão ruim. Eu faço amigos que são amigos de amigos, faço amizades pelo ensino de dança, meus alunos viraram meus amigos.”

O que você valoriza hoje, o que foi descobrindo com o passar do tempo?

“Perdoar, não levar as coisas pro pessoal, cuidar bem de si: comer bem, dormir bastante, se exercitar. Se amar.”

Quais diferenças você vê entre envelhecer na comunidade gay e na comunidade hétero?

“Acho que isso fica mais difícil para as mulheres. A sociedade não aceita e não permite que as mulheres envelheçam, que possam ser bonitas mesmo com suas rugas e cabelos brancos. Mas me parece que isso não é igual no mundo LGBTQIA** e no mundo heterossexual. No mundo gay, isso faz pouca diferença. Nós ligamos menos para isso. Apesar do sexo diminuir com a idade (isso eu admito), as ligações de carinho se mantêm fortes, a despeito da aparência física, que muda com a idade. E mesmo a quantidade de sexo… quando se é jovem, a busca é quase diária, mas acho que quando se envelhece, essa necessidade muda. Passam a ser mais importantes outras coisas, como a intimidade e poder contar com os outros. Não sei, você fica mais em paz consigo mesmo, você não topa mais alguns tipos de relacionamentos só para ter sexo. Eu sinto que fiquei mais seletivo com o passar do tempo.”

Quando você fala do mundo LGBTQIA, você sente que aqui em São Francisco este é um grupo unido?

“Não exatamente. Os subgrupos são divididos e cada um luta por sua voz, sua causa. Primeiro os homens gays conseguiram mais visibilidade ao longo da história, depois foram as lésbicas. Hoje podemos casar, adotar crianças, estar nos espaços públicos sem medo em muitos lugares do país. Como eu disse, nas “bolhas” de São Francisco e de Nova Iorque, os direitos já estão garantidos. Claro que ainda há lugares em que não é assim. Mas para a população trans ainda é muito difícil, mesmo nessas “bolhas”. Pessoas trans ainda não estão protegidas no trabalho, por exemplo. Por isso acho que as coisas andam em etapas: primeiro foram os homens gays, depois as lésbicas e o próximo passo é a legislação mudar em favor dxs transgêneros.”

 

 

 

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*”É uma cidade-aberração”, tradução nossa.
**sigla cada vez mais utilizada nos EUA, visando abranger a sigla LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros) incluindo Queers, Intersex, Ally [aliadx] e/ou Asexual [assexuadx]. Às vezes é adicionado o símbolo de mais (+), no final da sigla, para tentar abarcar a todxs.

 

 

 

 

 

[SSEX BBOX] – Sexualidade fora da Caixa é um projeto de justiça social que busca oferecer perspectivas inteligentes, impactantes e não convencionais sobre sexualidade, gênero, relacionamentos e intimidade a partir do relato das experiências de pensadorxs, educadorxs, ativistas, artistas e outras pessoas que vivem, aprendem e amam “fora da caix(inh)a”.

O projeto iniciou suas atividades com um conjunto de web-documentários e é a primeira série online que explora o tema da sexualidade com o intuito de promover uma mudança social baseada nos princípios dos direitos humanos. Tem como temas principais a diversidade sexual e de gênero e o sex positive (positividade em relação ao sexo) nas cidades de São Paulo, São Francisco, Berlim e Barcelona. Atualmente, o [SSEX BBOX] desdobra-se em diversos formatos, como eventos com a exibição de filmes & debates, publicações, podcasts, workshops e festas. Estamos, pela primeira vez, produzindo uma conferência internacional. Mais informações em: http://www.ssexbbox.com/.

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Fotos [SSEX BBOX]: Priscilla Bertucci.

Demais fotos: acervo pessoal.

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