Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Entrevista com Erin Pinheiro

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Comente um pouco sobre  a sua trajetória no “mundo da tecnologia” e como esse interesse foi se tornando uma profissão.

 

Comecei a me interessar por computação muito cedo, quando a minha família tinha um computador 386 e eu assistia eles fazendo algum trabalho ou jogando. A interação de se digitar alguma coisa e ver um resultado aparecer no monitor era fascinante pra mim e, desde então, persegui isso de uma forma meio arbitrária, pesquisando por conta própria tudo aquilo que me interessava. Hoje tenho uma maior facilidade com hardware e software, o que me trouxe até os círculos que frequento atualmente.

 

 

Pensando em tecnologia em geral (não só em “informática”), quais avanços ou invenções tecnológicas trouxeram melhorias para a vida de pessoas trans?

 

Acredito que a comunicação em nível global providenciada pela Internet tenha trazido grandes melhorias, principalmente pela possibilidade de troca de informações e experiências com pessoas do outro lado do planeta, além da maior facilidade para encontrar grupos de apoio sem precisar se expor.

 

 

Como a tecnologia é usada atualmente como instrumento de ativismo pró-causas LGBT?

 

Pela mesma facilidade de organizar grupos sem o risco de exposição, as redes sociais ajudam muito com o ativismo. Hoje em dia é muito mais fácil divulgar uma informação, uma ideia, que várias pessoas vão ler, porque na Internet a informação fica lá pra sempre, pra qualquer um ver. Pra informação privada isso pode ser um problema, mas pro ativismo acho que é uma ótima solução.

 

 

Quanto ao mercado de tecnologia, por que há tantos homens nessa área e poucas mulheres?

 

Não sei se sou a melhor pessoa para responder sobre isso, até porque parece que cada um tem uma ideia diferente sobre o assunto, mas acho interessante notar que, antes da década de 1980, não era bem assim o caso. Inclusive, no início da computação, além da primeira programadora ser uma mulher (Ada Lovelace), o trabalho de programar computadores valvulados colossais era dado às mulheres por ser tarefa associada àquela de preparar uma receita culinária. Apesar do reforço de estereótipo, é uma prova de que mulheres sempre estiveram presentes no campo.

 

 

Como você vê a aceitação de pessoas trans no mundo da tecnologia?

 

Lenta, mas ao menos presente. Tenho certo “rancor” quando vejo alguma tentativa de inclusão que erra em algum aspecto, mas meus amigos vivem me dizendo que eu deveria estar contente que ao menos estão tentando. A maioria dxs amigxs trans que conheço em círculos de tecnologia também só têm amizades trans (ou ao menos queer), ou seja, é meio que um grupo segregado.

 

 

Você acredita que os esforços de trazer mais mulheres para as (grandes) empresas de tecnologia buscam a igualdade de gênero ou a criação de reserva de mão de obra?

 

Vivo me perguntando a mesma coisa e chego à conclusão de que não faço a mínima ideia. Acho que, se fossem realmente esforços de igualdade de gênero, já estaríamos num lugar bem melhor hoje em dia e os problemas (discriminação, diferença salarial, entre outros) não existiriam mais.

 

 

Esses esforços também ocorrem visando incluir pessoas negras, trans ou de outras classes sociais?

 

Sim, mas, na minha experiência pessoal, vejo esses esforços bem menos do que os de inclusão apenas das mulheres. É como se houvesse uma classificação de qual grupo é mais importante que o outro, uma fila de qual grupo deve receber seus direitos primeiro.

 

Como é ser mulher e trabalhar em uma empresa de tecnologia?

 

Depende muito do tipo de empresa. O lugar em que eu trabalho [LabHacker] é pequeno e informal, voltado pra comunidade e com pessoas de mente aberta. O clima em um ambiente desses é muito diferente do clima em uma empresa mais tradicional, no meu caso nem chega a ser uma questão em si. Ao mesmo tempo, já ouvi vários relatos de amigas minhas, cis e trans, do Brasil ou do exterior, horrores sobre o local de trabalho.

 

 

Dizem que a área de tecnologia paga bem. Há diferenças salariais entre mulheres e homens? Há diferenças salariais entre pessoas trans e cis?

 

Com certeza existe diferença salarial, não somente na questão de gênero como também nas questões de etnia, orientação sexual… O problema é que, na nossa cultura atual do trabalho, é “tabu” discutir salário. Reforçamos a ideia de que é errado perguntar quanto que o fulano ganha, ou dizer quanto ganhamos, por isso essa questão acaba sendo abafada socialmente.

 

 

Mesmo “pagando bem”, vemos no Brasil que há poucas pessoas na área (em concursos públicos, por exemplo, o índice de candidatos por vaga é menor para tecnologia). Por que você acha que isso acontece?

 

Não tenho uma resposta concreta pra isso, mas acho que muitas pessoas têm “medo” da tecnologia, porque é uma coisa que não entendem, então procuram algum outro profissional pra resolver os problemas. Por outro lado, também existe o fato de que muitos cursos (profissionalizantes ou apenas tutoriais) ensinam de um jeito “receita de bolo” sem explicar o que está sendo feito. O resultado é que a pessoa não aprende nada, tem medo do que não entende e por isso não procura mais informação sobre o assunto, muito menos tenta seguir uma carreira na área.

 

 

Às vezes, quando há palestras, websites, entrevistas sobre tecnologia voltada para mulheres, ainda se vê um reforço do estereótipo feminino (delicadeza, tons rosas, maternidade, dona de casa…). É coisa da nossa cabeça ou você também sente isso?

 

Percebo isso mais em eventos ministrados por entidades não compostas por maioria feminina, por exemplo quando se trata de uma empresa maior ou coisa assim. Acho que isso se deve tanto por certa falta de discernimento quanto por apelo à dicotomia de gênero, para chamar a atenção numa tentativa desesperada de atingir o público-alvo correto.

 

 

 

 

Erin Pinheiro tem 21 anos, é transfeminista e estuda Sistemas de Informação na USP Leste. É curiosa e tem um vasto conhecimento de pouquíssima utilidade sobre tecnologias arcaicas, já hackeou desde um Sega Master System até sua própria identidade.

Ilustração: Nara Isoda

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