Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

editorial

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Matou a família e foi ler a Geni

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Meninx ou meninx, o amor é o mesmo

No começo de abril, foi inaugurado na Alemanha um cemitério só para lésbicas. Astrid Osterland, uma das militantes da Safia, associação de lésbicas idosas responsável pela iniciativa, declarou à reportagem da Vice: “A morte é uma parte da vida; é preciso aprender a viver com isso e aceitar. Muitas de nós não têm uma família com quem ser enterradas. Em vez disso, queremos descansar ao lado daquelas com quem lutamos, amamos e vivemos”.

 

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No final de abril, o IGay fez uma reportagem sobre Arthur, um menino trans gay de Ribeirão Preto que tem 13 anos e uma família que não só o aceita, como o apoia de um jeito que poucas vezes vemos por aí. “Ele é meu filho e vai ser sempre amado, não tem porque não ser assim”, diz o pai de Arthur. “Menino ou menina”, completa a bisavó, “o amor é o mesmo.”

 

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Astrid não tem uma família ao lado da qual ser enterrada. Arthur tem uma família que o ajudará a crescer. Na distância entre essas duas experiências, resolvemos dedicar a Geni de maio a essa instituição tão complexa e contraditória, especialmente para as pessoas que saem do padrão dominante de orientação sexual e identidade de gênero: a família.

 

O que o tema tem de atemporal, ele também tem de urgente. Afinal, no mês passado cartazes foram empunhados na reedição da tenebrosa Marcha da Família de 1964. Uma marcha que parece estar longe do fim e que, hoje, conta com gente como o deputado Anderson Ferreira (PR-PE), membro da bancada evangélica no Congresso e autor do projeto de lei que cria o Estatuto da Família. O texto está sendo analisado por uma comissão especial e que propõe que o Estado só aceite um modelo de família, aquelas com “núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável”.

 

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A diversidade das famílias não se reduz ao modelo burguês heteronormativo. Nesta edição, damos exemplos disso mostrando uma associação de mães e pais de LGBTs de Portugal e relações familiares nas prisões femininas brasileiras. Além disso, Guilherme Leite Cunha discute as limitações da paternidade num mundo em que ser homem significa não saber cuidar nem demonstrar afeto.

 

Os efeitos nocivos do patriarcado para as relações familiares também aparecem, de modo implícito e avassalador, nas histórias dos refugiados sírios homossexuais no Líbano e num relato sobre transfobia em um Centro de Referência de Assistência Social em Assis (SP).

 

Na luta contra a transfobia, publicamos um perfil de Effy Mia, transgressora artista argentina. E estreamos, com muita alegria, a coluna À Flor da Pele, em que Amanda Palha acerta as contas com o médico que disse que ela era um menino.

 

Em maio, que dizem ser o mês das mães, a família da Geni se expande. E a gente lembra os versos do poeta russo Maiakovski, que Caetano Veloso musicou: “que a partir de hoje/ a família se transforme/ e o pai seja pelo menos o Universo/ e a mãe seja no mínimo a Terra”.

 

Coletivo Geni, maio de 2014

Ilustradora convidada: Nara Isoda

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