Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Efeito colateral da ejaculação

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Notas sobre a paternidade no patriarcado. Por Guilherme Leite Cunha

 

Não seria um absurdo dizer que, no Brasil, a paternidade é praticamente inexistente. Para o macho padrão, ela se resume ao ato de ejacular dentro de uma mulher e engravidá-la. Resume-se, portanto, a um efeito colateral oriundo de uma ação, que visa em todas as instâncias à obtenção de prazer masculino.

 

As afirmações iniciais estão longe de ser exagero: elas se justificam pelos números esparsamente levantados sobre a questão no Brasil. Em 2011, o Conselho Nacional de Justiça, com base no Censo Escolar, constatou que cerca de 5,5 milhões de crianças não possui o nome do pai no registro de nascimento.

 

Levando-se em conta que, segundo o IBGE, a população brasileira com até 19 anos é de 60 milhões, já temos quase 10% da população que sequer sabe o nome do pai. Isso sem considerarmos ainda que, também segundo o IBGE, há 3,5 milhões de crianças fora da escola, população que não entra nos dados do censo escolar, e que tem potencial de elevar o número dos “sem pai” substancialmente. Há estimativas ainda que dizem que, todo ano, ao menos 700 mil crianças nascem sem que o nome do pai conste em suas certidões. E, se somarmos a esses números o fato de que muitas outras crianças, apesar de possuírem o registro do pai no papel, não possuem relação paternal na realidade, pode se estimar que mais de aterradores 50% da população infantil não alcança o direito de conviver, mesmo que distantemente, com um pai – fato esse há décadas diagnosticado pelo psicanalista da família José Ângelo Gaiarsa.

 

Estamos, portanto, ainda na fase primitiva de se reivindicar a simples presença física e material de um pai no desenvolvimento infantil e na constituição familiar. Nesses termos, muito longe da mistificação masculina do herói, o homem, principalmente o heterossexual, ainda hoje é o verdadeiro vilão de qualquer tipo de família.

 

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Referência masculina

 

A construção social e histórica da masculinidade vigente raramente permitiu o desenvolvimento de características ligadas ao cuidado, ao afeto e à assistência. Nenhum menino, em plenos anos 2000, ganha um boneco de bebê para cuidar e se divertir quando criança. O protótipo a ser desenvolvido é, até hoje, o do provedor, do dominador, do “comedor” e do egoísta. E o macho capitalista de nossos tempos vai mais a fundo: em sua busca incessante pelo sucesso, não encontra mais ninguém para se preocupar que não seja ele mesmo.

 

Nesse sentido, a família tradicional é para o pai um duro fardo a ser carregado pós-ejaculação. É uma obrigação que, por assim dizer, ceifa a vida de sonho e liberdade do macho padrão, que, ano a ano, se afunda muitas vezes em amargura, em violência, no alcoolismo e na ausência – comportamentos padrão que se alongam até a velhice do homem e se finalizam, muitas vezes, em mortes prematuras.

 

Do ponto de vista dos filhos, a importância do pai não reside nos dogmas heteronormativos que pregam a função da famosa e patética “referência masculina” –  que tem o poder de impedir a produção de filhos gays e filhas lésbicas –, mas no simples fato de se constituir como um apoio emocional, afetivo e material ao filho. A família poderia, assim, ser não o lugar da reprodução dos dogmas, dos moralismos e da castração, mas um núcleo tão importante quanto outros na sociedade, de apoio à construção da liberdade. Nesse sentido, prescindir de qualquer figura, como a paterna, torna a tarefa familiar de assistência muito mais complicada.

 

O homem, portanto, se nega a se dedicar ao outro, até mesmo um outro em situação de fragilidade, e reproduz esse comportamento nessa negação. Forma na ausência e na “não-relação” o padrão masculino vigente, de que o homem não deve perder tempo com os outros. Para esse homem, aguentar o fardo pós-coito reside na capacidade dele de vergar os outros, ou seja, sua família, à pura subserviência e à dominação. Incapaz disso, resta-lhe uma vida de amargor e frustração.

 

Cabe agora àqueles que negam e combatem esse comportamento vigente, profundamente opressor, construir formas novas de paternidade e a constituição de caracteres afetivos no homem. E, junto à demolição da figura dominadora, cabe aos homens e mulheres que divergem dessa construção, juntar-se a todos os militantes que lutam historicamente por novas relações de gênero. E, assim, criar novos mecanismos de educação que garantam não somente a simples presença física e material do pai, mas também relações afetivas livres e de qualidade. Qualquer que seja o futuro da família sem relações de opressão, ela passa por isso.

 

 

Guilherme Leite Cunha é formado em artes visuais na ECA-USP e mestre em estética e história da arte na mesma instituição. É coordenador das Oficinas de Criatividade do Sesc Pompeia e editor da revista Dazibao, de crítica de arte e cultura. Foi criador do extinto blogue Diversidade masculina.

Ilustração: Bárbara Scarambone.

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Daniela Cortez – 7 de maio de 2014 - 13:45

Parabéns pelo texto, Guilherme. Espero que um dia esse padrão se torne ultrapassado

Carolina Thomson – 3 de junho de 2014 - 9:39

Guilherme, dá uma aliviada no coração ler um texto desses… É muito bom ler textos de homens/companheiros que também sonham e lutam pela liberdade no núcleo familiar. Gratidão!

Ana Paula de Lima – 3 de novembro de 2015 - 20:15

Sensacional Texto. Perfeito .

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