Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Úteros artificiais, prostíbulos reprodutivos e clonagem

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A contrassexualidade de Preciado versus o prognóstico da dominação tecnológica masculina. Por Bruna Coelho

 

 

 

Caso queira ler o texto abaixo, favor preencher o seguinte contrato [1] e enviar para uterosartificiais@gmail.com.

 

Com meu consentimento, eu, _____________________, registrado sob o patronímico ______________________, nascido em __________________, na cidade de ___________________________, renuncio as minhas condições aparentemente naturais de: [ ] homem ou [ ] mulher, de sujeito auto-consciente, de   [ ] flamenguista ou fluminense [ ] ____________, [ ] de heterossexual ou de [ ] homossexual, de frequentador do(s) bar(es) _______________________, de consumidor da(s) marca(s) ______________________________________, de trabalhador da empresa ____________________________. Renuncio ao meu signo solar de _____________ e ao ascendente em _______________. Abro mão de todo privilégio (social, econômico, patrimonial). Renuncio às seguintes características minhas: ___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________.

Como contrapartida, x autorx do texto, que não é ninguém senão isso, compromete-se a enunciar-si.

O presente contrato deve vigorar ao longo da realização da leitura, durante _______ minutos.


Assinatura [incluir versão digital]

 

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Pop-up, página 3 do browser: Homem da geração y5, conheça esta nova tendência: GeneticS-EX. Acesse os espécimes selecionados de sapiens xx: ampla gama de tipos, variedade de traços e cabelos. São criados soltos em nossa área de 20000 m2 no coração de Manhattan, onde divertem-se uns com os outros, conectados na rede. A alimentação destas mulheres é à base de ômega 3, 6 e 9, fósforo e antioxidantes. Acesse nosso site e veja os filtros disponíveis para a seleção de seu exemplar. Maximize seu prazer sexual: selecione características físicas compatíveis com seus desejos e membro. Garanta a transmissão do melhor patrimônio genético a seus filhos. Agende, online, sua visita. As xx sapiens estão disponíveis em chat e esperam por você!

 

 

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Nesta segunda-feira, o cientista holandês Dick Schilthuizen veio a público anunciar sua mais nova invenção: úteros artificiais. Graças aos avanços da nanotecnologia, será possível gestar bebês de modo controlado e seguro neste maquinário. Sondas conduzirão os nutrientes necessários à circulação sanguínea, garantindo ao feto uma dieta balanceada de acordo com os padrões estabelecidos pela FDA. Seus batimentos cardíacos e respiração serão monitorados. Os pequenos holandeses se desenvolverão nestas máquinas e as mães continuarão sua rotina normalmente. “A revolução feminista finalmente chegou”, defende o cientista: “as mulheres agora estarão livres das dores do parto e dos incômodos da gravidez! A preocupação com o uso de medicamentos, ingestão de bebidas alcoólicas, quantidade de exercícios físicos, acabou!”, comemora o pesquisador.

 

 

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O presidente do Japão, Hiroshi Yamane, anuncia: “Tivemos êxito em 99,3% dos casos, a expectativa de vida dos indivíduos permanece a mesma. A seleção de homens com os melhores genes agora é possível”. O presidente afirmou ainda que os cientistas estudam vender este projeto à China e aos Estados Unidos. Negociações com a Alemanha iniciam-se amanhã.

 

 

Imaginou-se algo semelhante a isto. E acusou-se a terrível conjunção entre tecnologia, capitalismo, e patriarcado. Temeu-se, com certa razão, o desenvolvimento tecnológico neste mundo machista, misógino, sexista, branco, heterossexual, homofóbico – filosoficamente eurocêntrico, e econômica e militarmente american. Onde time is money. Temeu-se que a tecnologia assegurasse a dominação masculina – esta constante na história humana, constitutiva das mais diversas sociedades. Nas versões apocalípticas do feminismo dos anos 70, imaginou-se a futurista criação de úteros artificiais, de bordeis reprodutivos e o desenvolvimento de técnicas de clonagem [1]. Tecnologias que, presentes num mundo de governança dos seres que se dizem homens, tornariam dispensáveis as barrigas ditas femininas. O ventre materno ou aquilo pelo qual fêmeas são necessárias. Tecnologias que, tomando a parte pelo todo, substituiriam – imaginou-se – as mulheres.

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Abro um parêntese: a metonímia ou o fetiche é procedimento corriqueiro na relação social entre os sexos; aparentemente eterno, mas historicamente reforçado. Sempre das mulheres se tomou a parte pelo todo, no discurso e na ação. Se hoje uma mulher é bunda ou seios, mais t.p.m (útero, ovários, progesterona e estrogênio), na equação antiga e moderna tudo leva a crer que bunda e seios ou boceta ela também fosse. Mas, o que importa, é que a mulher, com a certeza dos doutos doutores, era: útero e umidade. Seus sentimentos, pensamentos e volições, desde a antiguidade à modernidade, o saber médico os interpretava como afecções deste “órgão reprodutor” denominado útero.

No século XVIII, marcado pela “profusão de discursos médicos sobre a diferença entre os sexos” [3], o útero determina as demais partes do corpo feminino. Como dizia o fisiologista e filósofo francês Pierre-Jean-Georges Cabanis, que sejam as “fibras carnosas” “mais fracas e o tecido celular mais abundante nas mulheres do que nos homens […] não se pode duvidar que isto não se deva à presença e à influência do útero e dos ovários que produzem esta diferença” (CABANIS, L’influence des sexes apud FRAISSE, p. 79). Determinam até mesmo seus cérebros; e sua razão, por conseguinte [4] – que, pensada por este discurso médico como sexuada, é “tão fraca e frágil quanto o resto do corpo da mulher”, como mostra a filósofa Genéviève Fraisse. Mulheres, fragilidade, hystéra (ὑστέρα) – útero. Histeria nomeava os sintomas psíquicos e somáticos apresentados por elas à época do surgimento e desenvolvimento (por eles) da psicanálise no XIX. Da antiguidade à modernidade, compreendia-se os fatos de consciência femininos, em boa parte, como traduções do que se passava em seus corpos. Fossem seus pensamentos, quereres e afetos interpretados a partir da epistemologia antiga presente até o século XVII, para a qual a diferença sexual expressava a diferença de temperamento nos corpos: úmido e fleumático, para as mulheres, quente e seco, para os homens; o que desembocava nas concepções do corpo feminino como essencialmente doente, na do masculino como são – e, “mais perfeito”, nas palavras do médico e filósofo romano Galeno –, e na compreensão do adoecimento como feminilização do corpo [5]. Fossem interpretados após a mutação epistemológica do XVIII indicada por Michel Foucault, decorrente do abandono das classificações dos seres visíveis operadas pela taxinomia e do surgimento, só então possível, da biologia. Com a noção de organismo que lhe caracteriza, “a única suscetível de dar conta da relação entre a estrutura e a função de um corpo” (FRAISSE, 1992, p. 74), a biologia traduzia a questão da diferença entre os sexos na distinção entre as funções dos ‘sistema reprodutivos’: “a partir do visível da mulher, seu corpo, e com a evidência de sua função, a reprodução, se elabora uma história natural da mulher, na qual se articulam o conjunto do estudo da constituição física do corpo feminino e aquele de sua função reprodutiva”, comenta Fraisse (idem, p. 78). A função da mulher: reprodução. Órgãos responsáveis: úteros e ovários. Seu destino: propagar a espécie – mãe natureza. Mas – bradaram as feministas – o destino das mulheres não deveria ser prescrito pela biologia, nem sua função social reduzida à geração natural de crianças, à ocupação com seus cuidados e bons-modos [6]! As mulheres tem uma história política mesmo quando impedidas de narrá-la pelo rebatimento de um discurso biologizante sobre seus enunciados. Mesmo quando não cidadãs, porque discriminadas, diferenciadas dos homens em seus direitos e deveres, e razão: no pós-revolução francesa, “da maternidade educadora à responsabilidade social e política”, as mulheres, muito mais “razoáveis” que “racionais”, são aquelas que cuidam dos bons modos, enquanto os homens fazem as leis” (FRAISSE, 1992, p. 71).

Hoje, “a mulher é útero” toca em refrão fetichista: além de bunda, seios, cerveja popular ou artesanal, a mulher é… t.p.m. – e a pílula anticoncepcional é prescrita como solução a este “transtorno” (que são as mulheres hormonalmente enlouquecidas)! Mesmo discurso e conexão modernas entre feminino e des-razão, mesma igualdade modernas entre homem e racionalidade, lógica, ou conceito. Capacidade de abstração. Caracterizadas, grosso modo, as filosofias modernas pelos vocabulários de sensibilidade, imaginação e entendimento ou razão para qualificar as disposições da “alma” humana, dizia-se, do sapiens xy, que sua razão lhe permitia conhecer os conceitos e a verdade. A parte racional no homem predominava sobre olfato, visão, audição, tato, paladar; sobre suas paixões alegres e tristes. Já a mulher era dotada de uma razão de segunda categoria. Dizer-lhe completamente desrazoada (ou louca) não se aplicava a todos os casos ou situações. Seria igualar-lhe às bestas, definidas pela vulgata aristotélica como seres desprovidos de razão, irracionais [7]. Seria igualar-lhe, ainda, aos povos escravizados (o “outro” “primitivo”, fetichizado ou coisificado aos olhos e teorias do colonizador, ser que não dispunha de alma ou razão: era bicho, e, bicho, “logicamente” submetido à espoliação de seu sangue e trabalho). Nem louca, nem explicitamente escravizada ou fera, a mulher tinha sua razão desenvolvida em certo grau – eles consentiam, “ponderados”, racionais. “A mulher é um ser razoável, mas…”; “não tem a mesma razão que o homem”, sintetiza Fraisse a fórmula masculina (FRAISSE, 1992, p. 69). Entretanto, as vívidas paixões de sua alma, suas tristezas e alegrias, os ciclos menstruais, a umidade de seu corpo, tudo isso fazia, nelas, o império da fantasia. Ou dos sentidos. Por isso, devido a esta inclinação natural, prescrevia-se que as mulheres não deveriam ler tantos romances. “A sensibilidade e a imaginação desviam as mulheres do caminho trilhado pela reta razão” – terão dito, basta procurar. Doutos filósofos, eles teorizavam sobre elas, seus objetos. Vimos que na medicina não foi diferente: se, por definição, diz Dorlin, “a arte médica é uma técnica na qual o Homem é, por sua vez, sujeito e objeto de conhecimento, nos séculos XVII e XVIII, no momento em que a medicina se constitui como ciência, as mulheres são relegadas a serem objetos do saber” (DORLIN, 2009, p. 15).

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“Mulher sem razão, ouve o teu homem” – cantam em coro Ney Matogrosso e Adriana Calcanhoto. A eterna canção. A nossa música. Grega. Será que não a dançamos cada vez ao consentir: sim, os melhores em matemáticas, raciocínios lógicos, “objetivos” são eles; enquanto, mulheres, meticulosas, somos atentas aos detalhes? Leia-se: ao concreto, ao não-abstrato. Ao supérfluo e desimportante – segundo a lógica: deles. As disposições psíquicas e físicas delas, bem como suas alterações de ânimo, seus gritos, choros, encontravam explicações em uma suposta natureza inerente ao corpo e à fisiologia feminina, enquanto as disposições psíquicas e físicas deles remetiam ao trabalho sobre seu corpo e sua fisiologia xy efetuado pela cultura, pelos modos de socialização inerentes à organização do trabalho e outras instituições sociais. Homem = ser de razão; mulher = ser de natureza. Mesmo quando dotadas de razão, como em Kant, “a razão das mulheres não é, para elas, sua própria finalidade”; serve a lhes fazer compreender que “sua natureza, isto é, primeiramente, seu corpo, tem a primazia sobre seu espírito, em que sua expressão individual é inútil com relação a esta tarefa de reprodução da espécie a qual cada uma das mulheres se dá em um movimento global de conjunto” (FRAISSE, 1992, p.70), comenta Fraisse. Já o naturalista e antropólogo francês Julien-Joseph Virey, em falácia linguística e autoritária, deduzia da etimologia das palavras femme (mulher), foemina (feminino), foetus (feto), de mesma raíz, a destinação natural da mulher: procriar. “Encontra-se menos diferença de uma mulher a outra, que de um homem a outro: elas se mantém mais perto da natureza delas que nós, da nossa; a civilização parece fortificar suas inclinações [biológicas], enquanto ela tende a diminuir as nossas” (idem, p.80). Homem = ser de razão; mulher = ser de natureza. Ou, segundo a máxima antigamente atual: “os homens são todos normais (institucionalizados) e as mulheres são todas loucas (por “instinto” materno e mistério feminino)”. Fim do parêntese. E do mistério.

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Hoje em dia, para homens e mulheres, e sobre homens e mulheres, a biologia com suas variações (neurociência, psiquiatria…) aparece como O discurso que traduz a verdade de seus pensamentos, volições, e quereres, em termos de déficit ou superávit de substâncias químicas. Vide descrições sobre depressões, orgasmos, atividades físicas, compulsões alimentares, dificuldade patológica de se livrar de coisas velhas (está no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, acreditem!), bipolaridade, déficit de atenção, tudo explicado a partir do aumento ou redução de serotonina, endorfina, problemas nos neurotransmissores. Alterações físico-químicas. Também em nossa alimentação tal redução opera: a gula como prazer capital cede lugar às calorias, aos aminoácidos, e carboidratos necessários a uma dieta balanceada. A gorda batata frita: destituída! Assim, se a redução ao biológico apresentava-se naquilo que se dizia do feminino – mulheres, seres de natureza pouco razoáveis governados por seus úteros, úmidos humores e sensibilidade; enquanto os homens se consideravam como seres de cultura, da redução ao físico-químico hoje ninguém escapa. Os discursos médicos dos quais se valem as políticas públicas, as indústrias farmacêuticas, de shakes, entre outras, pretendem dizer a verdade sobre homens e mulheres. Fim do parêntese.

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Num futuro não tão distante, imaginou-se que clones estariam para a superfície da terra, assim como as formigas para o subsolo. Homens se divertiriam em prostíbulos reprodutivos ou assegurariam sua reprodução em úteros artificiais. Imaginou-se. Nesta supremacia fetichista macha futurista, ovários e barrigas, isto é, mulheres, a natureza feminina, ou a mulher que é natureza (que é sempre mãe; em nenhuma língua se diz “pai-natureza”) – seriam dispensáveis. Cinco vivas às inovações, às “descobertas”, às invenções e ao progresso! – brindariam eles. Imaginou-se algo semelhante a isto – as feministas dos anos 70. E temeram, não sem razão, o desenvolvimento tecnológico: as mulheres seriam dispensáveis no patriarcado capitalista. Parêntese: (não deixa de ser curiosa a atual inversão desta equação, quando a tecnologia permite fecundação interóvulos. Seremos, será, testemunhas oculares não da supremacia macha, mas da lésbica cyborg? Desponta, será, no horizonte, o matriarcado intergaláctico cubano em aliança com o PT?).

 


Beatriz-Paul Preciado, cyborg feminista e filósofx espanholx, em seu Manifesto contrassexual, nota as insuficiências deste modelo de análise crítico das evoluções tecnológicas, presentes não apenas nos prognósticos apocalípticos de Corea e Andrea Dworkin. Barbara Ehrenreich, Gena Corea, Adrienne Rich, Mary Daily, Linda Gordon, Evelyn Fox Keller, todas estas autoras para as quais o corpo feminino era um produto da história política e não apenas natural, também teriam reduzido o conceito de tecnologia ao controle patriarcal do corpo feminino, segundo Preciado. As denúncias do procedimento de anestesia peridural ao qual eram – e ainda são – submetidas muitas mulheres, do teste genético, e da pílula anticoncepcional são, neste sentido, exemplares. Tecnologia é aí sinônimo de técnicas de reprodução, cujo significado prático é: assegurar a dominação masculina. Patriarcado e tecnologia, assim, se intercambiam. O pressuposto desta noção é a moderna dicotomia natureza e cultura: a tecnologia é artifício, cultura, e opera, via estas práticas citadas, sobre o corpo – natural – das mulheres. Assim, se a natureza foi criticada e expulsa pelo feminismo na descrição da feminilidade, ela retorna pela porta dos fundos na denúncia de tais práticas. Ainda, se as teóricas dos 70 quiseram fazer da mulher um ser de cultura com uma história política, foi apenas pela inversão da polaridade natureza-cultura, a partir da qual as mulheres e o feminino se davam como objeto de pensamento (ou eram apropriados pelo pensamento macho e categorias straights): sem recusar esta dicotomia, alvo da crítica de filósofos pós-estruturalistas, não se sai do terreno do adversário, isto é, de sua epistemologia colonizadora. Estas autoras também teriam sido, para Preciado, pouco generosas com relação às possibilidades de resistência política abertas pelo desenvolvimento tecnológico.

Parecia-lhe, então, urgente redefinir o conceito de tecnologia. Seu argumento central: a tecnologia é inerente à construção identitária dos seres humanos e da experiência daí decorrente. Que eu me perceba como uma mulher ou um homem, ou nem uma coisa, nem outra… que eu me perceba – a mim como sujeito narrador de minha história e aspirações, marcadas na carne pelas vivências de minha ‘sexualidade’… Que eu me narre a partir das dores e prazeres experimentados com meu pau, minha buceta, cinta-caralho, boca, ânus, todos os orifícios de uma só vez ou alternadamente. Com dois parceiros, cinco, num castelo sadiano revisitado de olhos bem fechados, na casa de swing, festa universitária de esquerda, casa de periferia, fist fucking ou clássico papai-e-mamãe, à luz de velas. Ou à lâmpada branca. Que faça tudo isso com ou sem camisinha, preocupadx com o hiv ou the gift. Que faça, evitando a gravidez, ou desejando-a. Com ou sem contraceptivos, sífilis, hepatites A, B, Y. Que aspire pela longevidade ou viva intensamente cada segundo. Isto resulta de tecnologias e de saberes. Dráusio Varella e Marta Suplicy, a sexóloga e O Discurso Médico. Livro infantil De onde vim para onde vou? Manual queer distribuído pelo governo. Sobre o sexo, saberes e poderes, micros e macros: tecnologias. Técnicas constitutivas da sexualidade como determinante da maneira como nos apercebemos no mundo. O Sexo… A Verdade íntima – e tão pública – de cada um.

 

 

Quem é você? Assinale H para homem, M para mulher, X para outros, C para casado, S para solteiro, indique o número de filhos, sua orientação sexual, ou sua desorientação (Recuse-se a assinar se você assinou o presente contrato – lembra-se?).

 

Comtra as feministas dos anos 70, Preciado retoma, portanto, Foucault, para quem, “uma técnica é um dispositivo complexo de saber e de poder que integra as ferramentas e os textos, os discursos e os regimes do corpo, as leis e as regras para a maximização da vida, os prazeres do corpo e os enunciados de verdade” (PRECIADO, p.111). Não sendo apenas artifício mobilizado por um poder estatal ou econômico, não sendo apenas algo artificialmente rebatido sobre o humano em nome da reprodução do capital e do patriarcado, falar em tecnologia, com Foucault, significa que não há vida humana fora das técnicas inerentes aos jogos de poder, para além dos regimes de verdade, dos saberes instituídos, das práticas de controle dos corpos “fundamentadas” por tais discursos sapientes. E que não há vida humana fora das técnicas ‘contrassexuais’, para além das rotas de fugas abertas por estas mesmas verdades e saberes institucionalizados e instituídos como os seus contras. Não há sexualidade e gozo do “corpo próprio”, e da propriedade do corpo, sem a tensão com as normas do gozo correto e suas possibilidades de subversão, muitas vezes recodificadas e re-normatizadas pelos pequenos, e micro, e macro poderes. Para Foucault, portanto: 1) o sujeito é produto de uma relação de poder específica: não é autônomo, não tem centro, nem é auto-consciente – tampouco, o é das forças de que resulta; 2) o Estado não centraliza o poder – ninguém o faz, nem Alckmin, nem Dráusio Varella, nem o Capetal ou a Sabesp; 3) não há primazia da ordem econômica na produção dos sujeitos, nem o motor da história é a luta de classes – a disputa entre oprimidos/opressores, burgueses e proletários, ou, na versão feminista do marxismo, as mulheres e os patriarcas; 4) o poder não se define apenas pela coerção, repressão ou proibição: ele produz sujeitos e a possibilidade de narrar-se; 5) as técnicas são micro-poderes. Não há, portanto, experiência de si para fora das técnicas, das identidades disponíveis, ou que, recusando-as, não abisme num profundo “desconhece-se a si mesmo”. Primeiro passo da ética.

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NOTAS

  1. O presente contrato é um duplo paródico do proposto por Beatriz Preciado em Manifesto contrassexual. O papel desempenhado por este dispositivo jurídico moderno foi magistralmente trabalhado por Gilles Deleuze em Apresentação de Sacher-Masoch (1967).
  2. Sigo a análise de Preciado, em Manifeste contra-sexuel. A autora refere-se às análises “às vezes apocalípticas” de Corea, sobre a invenção de úteros artificiais e clonagem, e de Andrea Dworkin, sobre bordel reprodutivo (PRECIADO, 2000, p. 110). A transformação destas ideias em notícias no presente texto é ficcional e não tem o compromisso de descrever em pormenores o que pensaram.
  3. Cf. Fraise, La raison des femmes, 1992, p.74.
  4. Em A razão das mulheres, Geneviève Fraisse, comenta a clássica e perene invocação da natureza nas representações do feminino nos discursos médicos do XVIII e diz: “[este discurso] tenta se legitimar pela aparência de um saber médico em que as observações sobre a textura muscular se aliam às considerações sobre a influência do útero no conjunto do corpo feminino” (FRAISSE, 1992, p. 66). E ainda: “Se o discurso dos médicos filósofos diz que o útero influencia até o cérebro feminino, marcando, assim, por toda parte, a diferença entre um homem e uma mulher, isto significa que o sexo feminino é simplesmente presença do sexo como tal; o que não é o caso do homem, cuja função sexual permanece separada do resto de seu corpo como de seu espírito” (idem, p. 67).
  5. Elsa Dorlin, em A matriz da raça, mostra que a compreensão médica da saúde e da doença não era somente descritiva de estados flutuantes do corpo, mas como se tratavam de categorias de dominação de um gênero sobre o outro. O médico antigo Galeno cuja teoria influenciou a medicina até o XVII, comenta a autora, “depois de ter afirmado que o homem é mais perfeito que a mulher, por conta da ‘superabundância de calor’ em seu corpo, ele escreve a propósito do corpo feminino: ‘[As partes] não tendo podido, por conta do calor, descer […] tornam este animal um ser mais imperfeito’” (DORLIN, p. 21). Sobre a centralidade do conceito de temperamento na medicina, Dorlin explica: ele “designa a conformação interna do corpo. O corpo é composto de muitos humores que tem, cada um, qualidades diferentes (frio, quente, úmido e seco) e que tem perfeições variáveis. A saúde ideal consiste no equilíbrio e na mistura perfeita de todos estes humores. Ao contrário, a doença é o excesso de um destes humores” (DORLIN, p. 22).
  6. Conferir como o filósofo Jean-Jacques Rousseau, em Emílio, seu livro de pedagogia, tematiza as diferenças na educação dos homens e das mulheres justificando-a pela necessidade natural das mães ficarem perto de seus filhos. Da amamentação à responsabilidade pela educação moral de seus filhos é um só pulo em seu argumento. À educação de Emílio, um discípulo-filho imaginário, Rousseau consagra o livro praticamente em sua totalidade, enquanto à de Sofia, apenas um capítulo: as mulheres, a “outra metade da república” (o androcentrismo desta construção é notável) devem zelar pelos costumes. É este seu papel – doméstico – na República francesa.


Sobre seu livro A razão das mulheres, Genéviève Fraise diz: “Este livro se conclui ali onde ele nasceu, num pedaço de frase de Espinosa no qual ‘o louco, a mulher e a criança’ pertenciam a uma mesma categoria para o filósofo, dos seres sem razão aos homens do homem de razão” (FRAISSE, 1992, p. 16).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

São nossas as traduções dos trechos citados.

 

DORLIN, E. La matrice de la race. Paris: La découverte, 2009.

FRAISSE, Genéviève. La raison des femmes. Paris: Plon, 1992.

PRECIADO, Beatriz. Manifeste contra-sexuel. Paris: Balland, 2000.


Bruna Martins Coelho
[descrição]: “Assina o presente contrato”.

Ilustrações de Lia Urbini e Aline Sodré.

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henrique iwao – 21 de maio de 2015 - 21:51

olá. eu gostaria de saber mais especificamente quais os livros e/ou trechos que corresponderiam a sua categoria de “versões apocalípticas do feminismo dos anos 70 em que se imaginou a futurista criação de úteros artificiais, de bordeis reprodutivos e o desenvolvimento de técnicas de clonagem”. abrax.

Roberto Quintas – 27 de julho de 2015 - 18:48

excelente texto. não apenas aborda a superação dos [pre]conceitos sobre a huanidade, mas também faz um ensaio que introduz o que eu chamaria de hipertexto.

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