Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

arte

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Do espaço limitado à Rede

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As maçãs podres do graffiti. Por Ana Clara Marques

Publicado em 11/05/2016

Quando pensamos em espaços de criação, a mulher até tem espaços, mas quando olhamos para estes espaços, percebemos o quanto ele é limitado.

Na história da arte, vemos mulheres nos bastidores, sendo musas ou até mesmo ajudantes de grandes pintores. Esse papel foi se perdurando durante séculos e, atualmente, se olhamos para o graffiti, vemos as mulheres na linha de frente: além de pintar, elas  também escrevem, projetam e atuam autonomamente, e isso é fruto de diversas lutas ao longo da historia. A transgressão das mulheres.

 

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A grande questão levantada em meados de 90 em São Paulo, especificamente em Santo André, era a falta da participação das mulheres dentro do graffiti, e a justificativa apresentada pelos homens é que “O muro está aí, a rua é pública: não pinta porque não quer”. Essa frase muitas vezes era proferida e silenciava o debate. Quando nós mulheres nos vemos sozinhas na multidão pensamos em encontrar nossos pares, outras mulheres para comprovar que aquilo que você percebe não é fruto da sua imaginação.

 

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É nesse contexto que eu – Ana Clara Marques -, Fernanda Sunega (Campinas) e Prima Dona (Rio de Janeiro) nos achamos na internet e percebemos que todas as dificuldades e todas as nossas inquietações eram exatamente as mesmas. A justificativa de que a rua é pública dita por homens era na verdade um truísmo para não responsabilizar a ação deles enquanto homens. Isso nos fez refletir que o movimento hip hop não era um planeta a parte em que todas as minorias seriam incluídas, mas esse movimento faz parte de toda essa construção social, construída cotidianamente por pessoas e nele estão algumas contradições do sistema como o machismo.

 

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Diante das dificuldades e da solidão, tentamos agregar mais mulheres para este espaço. Realmente foi uma tarefa difícil, pois estávamos espalhadas pelo Brasil e a ferramenta que nos possibilitou grandes avanços foi a internet. É nesse cenário que nasceu a Rede Graffiteiras BR, uma rede virtual composta por mulheres graffiteiras para trocar ideias, realizar reflexões e construir projetos. Nossas angustias eram partilhadas nessa rede e aprofundando, percebemos uma diversidade de problemas das mulheres que, dependendo da sua classe e etnia, se intensificava. Nesse contexto o feminismo foi se fortificando, e tomando corpo. As questões que eram postas já ultrapassavam a participação das mulheres e começamos a refletir outras demandas como a elitização do graffiti, o racismo e outras questões politicas.

Tomando corpo

A Rede Graffiteiras BR foi tomando corpo e tivemos nosso primeiro encontro presencial, em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial. Além de nos conhecermos e  ter sido bárbaro ver mulheres de Recife, Pará, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, também realizamos uma roda de conversa e lá constatamos várias situações violentas que muitas vezes não identificávamos.

 

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Apareceram algumas discordâncias entre nós: algumas mulheres afirmaram que não enxergavam o machismo, mas um ato nos uniu em relação aos avanços que deveriam ser feitos, além do modo como a revista Graffiti colocava a imagem das mulheres.

 

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Era comum abrirmos a revista e entre fotos de graffiti, vermos fotos de mulheres de costas, de saias, mini blusas e roupas chamativas, a revista colocava assim, as mulheres como objetos. Aquilo nos incomodou muito, mas algo nos deixou estarrecida, a Revista Graffiti publicou uma matéria da grafiteira ACB, com sua arte estampada nos muros e junto com a legenda de apresentação da matéria estava escrito “Nem parece mulher pintando”, o que  indignou a todas nós, sem exceção.

 

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Nossa primeira ação conjunta além de refletir, escrever projetos, fazer parcerias, ficamos com a missão de escrever uma carta de repúdio à revista, mostrar que nós mulheres podíamos mudar o mundo. Nossa carta foi publicada na revista e já com a resposta do editor da revista, o grafiteiro Binho Ribeiro. Nela ele justificava as imagens das mulheres pelo número de leitores homens e também comparava a revista graffiti com as revistas de surf e skate onde as mulheres ocupavam o lugar de beleza para entreter os homens sexualmente.

 

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A partir disso conquistamos um espaço na revista, um espaço dedicado às grafiteiras. Isso foi um avanço, pois a revista era o único veículo de comunicação especializado e mulheres também eram leitoras. Não ter uma referência feminina num espaço majoritariamente masculino era uma barreira para que as mulheres se inserissem nesse meio.

 

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No ano seguinte, realizamos mais um encontro em Porto Alegre e realizamos mais um encontro no mesmo local pelo projeto Trocando Ideia e o MHHOB – Movimento Hip Hop Organizado Brasileiro. Outros encontros vieram, como em Santo André e São Paulo (SP), Salvador (BA) e uma parceria que realizamos com o Coletivo Ariporiá de Manaus (AM).

Maçã Podre

Nos anos que me dediquei a rede só tinha energia para ela e para o próprio graffiti. Tinha o sonho de fortalecer e criar uma rede nacional junto com Fernanda Sunega e Prima Donna. Após anos de dedicação e alguns desencontros em  debates, fomos nos afastando e a rede se dissipou. Ainda não avaliamos e nem paramos para pensar sobre isso.

 

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Em seguida montei um coletivo menor para me dedicar de um modo que não tomasse toda minha vida e que também avançasse na ideia da estética feminista. Com esse intuito nasceu o Grupo Revolucionário de Intervenção Feminista Maçãs Podres. Nesse grupo tínhamos mais autonomia e liberdade buscando escrever, pintar e difundir o feminismo numa linha mais radical. Várias pessoas passaram pelo grupo, mas ele se estendeu durante um tempo com Patrick Monteiro, Élida Regina, Fernanda Sunega, Gabriel Brito e eu.

 

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Toda a nossa produção artística tinha o feminismo como base e sempre com o recorte de classe e raça. Murais com a temática do feminicídio, amor, infância, a questão racial e a divulgação do feminismo, era o nosso mote. Também tinham poesias feministas e muitos artigos e pesquisas que realizamos durante anos. Realizamos Parcerias com a ONG Católicas pelo Direito de Decidir, Instituto Sou da Paz, ONG Women’s Support Project, coletivos feministas, oficinas em espaços comunitários, escrevemos diversos artigos, poesias, envolvemos em toda a nossa  produção feminista revolucionária a temática feminista, numa perspectiva de raça e classe.

 

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Hoje a dedicação está em realizar ações em espaços diversos. No graffiti, não participo mais de grandes eventos, a não ser que tenham uma proximidade com o que acredito.

Estudando sobre esse tema, realizamos um estudo dentro do grupo (eu, Patrick Monteiro e Élida Pereira) sobre a arte feminista. Shulamith Firestone contribuiu na reflexão de que as mulheres seriam o combustível emocional dos homens nas artes. Ao ver a história das artes no contexto amplo, as mulheres eram registradas enquanto musas. Toda relação dos homens com as mulheres gerava criação e em contrapartida, em nós gerava paralisação. A nossa ação sempre foi muito indireta. Enquanto as mulheres gastam sua energia emocional com os homens, os homens roubam a energia das mulheres, criando e impossibilitando as mesmas de projetarem um futuro.

Concluímos que os homens são sempre colocados como protagonistas e inventores das artes criando as regras dos espaços e inclusive determinando o que seria arte e o belo. Isso quer dizer que o que entendemos por arte é pelo olhar masculino, nosso objetivo era criar  uma estética feminista. Desconstruir mesmo e ressignificar a produção artística.

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