Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

coluna

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FARÓIS ACESOS│ O que é que eu vou fazer com essa tal… FALTA DE NOÇÃO?

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Sei que os movimentos sociais estão a toda pelo País [<3], mas imploro que vocês parem com essa greve de noção. Chega de plantar loucura no campo do meu sofrimento, galera. CHEGA. Por Neusa Sueli

TV Revolta: #XatiadaLifestyle

Nas últimas semanas, falou-se muito na internet de uma tal de TV Revolta, um canal no Youtube criado por um menino sem noção, que fica fazendo umas macaquices e falando asneiras feito um imbecil, fingindo estar nervoso com “toda essa ROUBALHEIRA, com toda essa PALHAÇADA que a gente vem assistindo no Brasil” (sic).

Segundo o perfil que eles têm no Facebook, a TV Revolta foi fundada pelo comunicador social (risos) João Vitor de Almeida Lima, que usa a “arte audiovisual e cênica para abordar temas que representam o homem globalizado”. (Acho lindo esse engajamento social, viu? Beijos).

Você acha que é só isso? Nãããão, queridinhxs! Eles põem as Facas Ginsu no chinelo! A TV Reboba quer “colaborar com o desenvolvimento do Brasil através de publicação de imagens, reportagens, vídeos, textos, músicas, filmes, documentários, curta metragens”, mas noção que é bom, NIENTE. Vocês estão de parabéns, viu.

Nos vídeos criados por este ser abençoado (ele tem uma personagem chamada João Revolta – olha só que original! –, um arremedo chinfrim do Alborghetti + alargador + barba) abundamreclamações, queixas e comentários daqueles que a gente lê nos grandes portais de notícia, ou seja, nada além de lugares-comuns políticos, gritos, “revolta”, #vouxingarmuitonainternet e #xatiadalifestyle.

tv revolta cecilia silveira revista geni

Não é lindo? Ficaram orgulhosxs? Nem eu.

Acho engraçado que pobre e sem teto nervoso com injustiça social e má distribuição de renda é “vândalo”, criminoso, mas classe mérdia #xatiada com congestionamento em aeroporto é “ativista virtual”. Fico SUPER FELIZ em ter que ficar sabendo de tanta asneira, viu? Obrigada mesmo, pessoal, de coração.

Seu bando de ridículxs! Eu vou é criar a TV Minha Mão Na Sua Cara e acabo com essa conversa de TV Revolta em dois tabefes. Só no plim-plaft.

Quando é que a gente vai aprender que para defender a nossa opinião não precisa desqualificar a do outro? Quando é que esse povo que se acha muito civilizado por não receber Bolsa Família (mas não vê problema em receber bolsa Fapesp, CNPq, porque, né, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa…) vai aprender que essa tal civilização não se constrói com grito e difamação? Prestem atenção, cambada de cu sem prega!

ISSO AQUI NÃO É BAGUNÇA! Façam o favor de aprenderem argumentar. Tô cansada de ver tantx marmanjx grunhindo ofensa na banda larga. Largxs vão ficar vocês na hora em que eu fizer um fistfucking de noção, cambada de energúmenxs!

Como é que vocês faziam para envergonhar os colegas antes das redes sociais, hein, gente?

Religiões afro e justiça federal brasileira: nem Iemanjá salva

Como se a vida já não estivesse complicada o suficiente para quem é afro e religioso, o magnânimo Eugenio Rosa de Araújo, juiz da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro, ainda resolveu piorar. Esse “espírito de luz”, no final do mês de abril, declarou em uma sentença que “as manifestações religiosas (sic) afro-brasileiras não se constituem em religiões porque não contêm os traços necessários de uma religião, por não terem um texto-base (como a Bíblia ou o Corão), uma estrutura hierárquica nem um Deus a ser venerado” [insira aqui sua cara de gozo místico].

Desde o ano passado, a Associação Nacional de Mídia Afro tinha denunciado ao Ministério Público uma série de vídeos que estavam circulando pela internet e que ofendem as religiões africanas. Porque vocês sabem, né: tudo que é ruim, demônios, magia e bruxaria esse povo diz que vem da África.

liberdade religiosa umbanda candomble cecilia silveira revista geni

Depois, quando digo que noção devia ser item obrigatório na cesta básica, tem gente que acha que eu exagero.

Deixa eu ver se eu entendi: então quer dizer que agora é preciso ter “texto-base”, ter livro grande e com váaaarias páginas para que uma crença seja respeitada como religião? Hum…

E vem cá: precisa ter ISBN também, registrar na Biblioteca Nacional, ter assinatura do autor, ficha catalográfica (Beijo, deus! Me liga para assinar o contrato, tá)? Hum…

Quer dizer então que as culturas orais não têm direito a ter religião porque, tipo assim, não têm editor, diagramador e revisor da palavra divina? Ah tá. Tô aqui orando pelo restabelecimento do seu bom senso, viu. Poxa…

POXA A MINHA XANA!!! PRESTA ATENÇÃO!

Que falta de noção! Tô aqui me perguntando como é que um juiz (que em vez de Direito estudou Errado, certeza) acha que pode sair por aí dizendo o que é e o que não é religião, hein gente? Desde quando ele tem conhecimento de causa para deliberar sobre isso? Quem é que ele foi consultar para dizer isso? Deus? Mandou um SMS, um WhatsApp direto para o Todo-poderoso? Olha, eu acho que o telefone dele é da TIM, porque não pega direito (ele nunca me atende).

TÔ É COM VONTADE DE PEGAR ESSAS 17 VARAS FEDERAIS DO RIO DE JANEIRO E ENFIAR TODAS NO MEIO DO SEU…

Queria ter uma espada de Iansã BEM GRANDE para enfiar na goela desse indivíduo (ia enfiar em outro lugar, mas como ali é uma delícia, resolvi mudar – soy esperta, scusi) para ver se ele adquire um pouco de noção. Nossa, tô torcendo para que Xangô jogue um raio DUNDUM e fulmine essa alma trevosa, e não deixe nem as cinzas. Quero ver essa anta chamuscada – e ainda vou cantar “Parabéns para você” com tudo pegando fogo, assoprar e tudo. Juro.

FIFA “fofa”: pagode, pagode, pagode

fifa naovaitercopa cecilia silveira revista geni

No último dia 22 de maio, os grandes jornais noticiaram que a FIFA (sem vergonha nenhuma, aliás) havia registrado no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) a marca “Pagode”, cujos direitos exclusivos de uso e exploração comercial ela deterá até o final do ano. O registro refere-se a “Pagode” como se fosse uma fonte tipográfica; o problema, porém, é que a legislação referente ao campeonato ampliou a restrição [insira aqui sua cara de Só para contrariar].

Você, amiga, que adorava sair por aí dizendo “Tô fazendo amor com oito pessoas…”, que estava acostumada a virar para a amapô e dizer “Tira a calça jeans, bota o fio dental, morena você é tão sensual”, ou que se perguntava “O que é que eu vou fazer com essa… FALTA DE NOÇÃO”, não pode mais, tá? A FIFA não deixa. Eu ia ficar aqui argumentando sobre esse absurdo, mas cansei, e só queria dizer uma coisa:

PAGODE. PAGODE. PAGODE.

PÁ-GODE

P

A

G

O

D

E

pAgOdE

edogap

(Scusi, soy poeta)

Pronto: agora falem para a FIFA vir me processar.

***

Em tempo: é irônico ver um monte de gente reclamar e dizer que “Não vai ter Copa” e tratar as eleições no Brasil como se isso aqui fosse um grande clássico, Brasil X Argentina. Em vez de tentar desqualificar o discurso alheio, tentem argumentar. Parem de dizer que o PSDB só tem demônio e que o PT é a verdade a luz e a salvação, e vice-versa. Vocês agem como se tudo não passasse de um Fla-Flu, mas, espero eu que percebam, que o que está em jogo é o futuro político do País. Falta de confiança nas instituições políticas não é privilégio do Brasil, assim como corrupção. Não é privilégio de partido, não é privilégio de orientação política. Vamos tornar este debate sério, senão caminharemos – sem sombra de dúvida – para o pior.

***

Em tempo de novo: este ano faz um ânus que eu tô na militância com um monte de gente lynda e phopha.

Ai gente, posso dizer? Posso mesmo? Eles são a razão pela qual eu acordo de manhã e ponho meu creme para pentear, meu sutiã da Valisère, sabe.

Eu fico tão emocionada em falar deste monte de pessoas incríveis, que dá vontade de chorar, mas evito para não borrar a maquiagem (vocês devem saber que lápis de olho anda custando os olhos da cara – scusi, soy militante pobre, pero maquiada). Sei que esse look “fui no salão, mas parece que saí do after” tá usando, mas meu delineador pode ser torto, mas é torto de raiz.

Eu acho que todo mundo no mundo devia ter um Coletivo Geni para chamar de seu, com:

– uma Alci, para ser dyvah, arco-íris sensual, apoteose de prazer, luxúria e amor;

– uma Aline, para ser bem-informada, jornalista (adoro falar que tenho amigos jornalistas, dá uma agregada, sabe?), magnânima, puxar o freio de mão e ser phyna (com sotaque portenho-carioca) quando a gente precisa;

– uma Amanda, para vir ficar à flor da pele (e nervosa) com a gente;

– uma Arianne, para mostrar o quanto o povo quer mandar no nosso corpo, mas não vai conseguir (meu cu é meu, scusi);

– um Bruno, porque sua vida precisa de risadas, de mapas, de um pouco de drama e alegria (não necessariamente nessa ordem); #ciganoigor #cobogófeelings

– uma Carol, para dizer educada, fofa, maldita e integramente aquilo que precisa ser dito (e mandar gifs lyndos também);

– uma Cecília, para ajudar a gente quando as coisas aqui ficam russas;

– um Cesar, para ser indignado, para pegar o papel craft e fazer um cartaz, e lembrar que a gente não pode se conformar com nada e que a gente precisa mudar tudo, e militar, e ir para a rua e…;

– uma Ciça, para ser a coisa mais fofa e sensível do mundo, e desenhar as coisas mais lindas do universo e além. E por ser simplesmente Ciça (isso dá nome de novela, aproveita);

– uma Clara, para ser o cérvix da minha questão, o palmito da minha empanada, amiga de fé, irmã, camarada (e mandar gifs lyndos também);

– uma Giovana, para nos lembrar que toda palavra possui feitiço e que todo preconceito possui magia (e que isso não tá fácil para ninguém) #xôvoldemort;

– um Gui, para ser fofo, tirar fotos incríveis e estar sempre empolgado (mesmo que seja para ir entrevistar alguém a pé, com chuva e num lugar a 300 Km de distância da sua casa);

– uma Lia, para enfrentar temas espinhosos e falar de coisas cruciais – porque coisas cruciais precisam urgentemente sempre ser ditas;

– um Luiz, para ficar no meio (ui!), ser lindo, entrar no palco, bater cabelo e sambar na cara da sociedade, fazer um pivô e voltar jogando a franja (scusi, società);

– um Marcos, para esvaziar a geladeira, terminar seu prato quando você não aguenta mais comer, fazer cyberbullying e você amar ele ainda assim (<3);

– um Otávio, para te dirigir, te filmar e te editar (#sorryhumankind)

– um Pedro, para fazer a barraqueira (minha concorrente), mas citando Raymond Williams (amplexos nas espáduas, queridinhxs);

– uma Sueli, porque uma só Neusa Sueli para sentar a mão na cara da sociedade não é suficiente – vocês são muito sem noção (#vemgente #vemirmã);

– um Tiago, porque todo grupo precisa de um ariano torto para ser o menino da informática e fazer um site lyndo, com ilustrações lyndas, e falar uns nomes que às vezes a gente não tem ideia do que se trata;

– um Thiago, para pôr o dedo na ferida (mas pode pôr onde quiser, tá? Aqui a gente topa tudo!) e falar de suicídio e de coisas nem sempre tão bonitas.

Mas o que eu acho mais incrível nessxs genizes todxs, é que eles veem pedradas indo e vindo de tudo quanto é lado, e desviam de umas, e pegam outras e transformam tudo em flores. É por isso que eu xs admiro tanto: elxs fazem com que todas essas pedras virem amor.

Parabéns para a gente!

<3 <3 <3

 Leia outros textos da coluna Faróis Acesos.

Ilustração: Cecilia Silveira.

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João Ricardo – 12 de junho de 2014 - 2:16

Estou amando tudo aqui!!

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