Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

resenha

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O verborrágico e visceral guia do homossexual inteligente

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A nova peça de Tony Kushner, autor de Angels in America, trata da luta de classes e de homossexualidade nos EUA de hoje. Por Márcio Aparecido da Silva de Deus

Na peça The Intelligent Homosexual’s Guide to Capitalism and Socialism with a Key to the Scriptures (em tradução livre, O guia do homossexual inteligente para o capitalismo e socialismo com uma chave das Escrituras), Tony Kushner volta a escrever com humor sobre seus assuntos favoritos: política, história, família, religião e homossexualidade. Esta resenha baseia-se principalmente no material de divulgação (que compreende o primeiro ato da peça) da publicação do livro que será lançado pela editora Theatre Communication Group.

Kushner ficou conhecido mundialmente por sua peça épica Angels in America, de 1993. Ele colocou no palco alguns dos problemas da sociedade estadunidense, como o surgimento da aids nos anos 1980, que ceifou milhares de vidas, em especial da comunidade gay. Isso num período em que o mundo também experienciava uma corrida armamentista entre as superpotências, em que os Estados Unidos estavam perdendo seus principais “competidores”, como a URSS, sucumbindo à crise econômica e à divisão política interna.

Personagens históricos como Roy Cohn (um dos advogados do mais alto escalão e expoente da direita estadunidense, foi o assessor principal de Joe McCarthy e sobreviveu politicamente a ele) e Ethel Rosenberg (uma secretária, judia e comunista, que foi acusada, julgada e executada como espiã num processo em que Cohn teve papel decisivo) traziam à tona o clima de caça às bruxas da era macarthista. Nesse período, os movimentos sociais (como o feminista, o negro e o gay) estavam em plena luta por mais direitos de igualdade – em especial no caso dos gays, cuja contenção foi de extrema virulência, o que resultou em inúmeros casos de homossexuais espancados até a morte nas ruas e nos estabelecimentos públicos por serem “portadores em potencial do vírus”. Kushner ainda conseguiu ir um pouco mais longe, ao vender os direitos de filmagem para a rede HBO, tendo ele mesmo se encarregado de escrever o roteiro da minissérie homônima que foi ao ar em 2003, com grande elenco: Meryl Streep, Al Pacino, Emma Thompson, Mary-Louise Parker, entre outrxs.Pode-se entender que tal venda tenha pasteurizado, de certo modo, as questões discutidas na peça e transformado-a em apenas mais uma mercadoria aclimatada para o consumo imediato. Hoje essa minissérie pode ser encontrada em qualquer livraria e locadora no Brasil.

No cinema, sua feliz parceria com Steven Spielberg também trabalha com a história, demonstrando seu fascínio por questões sociopolíticas e de lutas sociais, como ocorreu nos filmes Munique (2005) e Lincoln (2012). Ambos lhe renderam alguns prêmios e até indicação ao Oscar por melhor roteiro.

No dia 9 de maio de 2009, a peça O guia do homossexual inteligente para o capitalismo e socialismo com uma chave das Escrituras estreou e teve uma ótima recepção de público, garantindo o teatro lotado em todos os dias de sua montagem. Entretanto, não se pode falar o mesmo em relação à crítica teatral e jornalística, como é o caso do The New York Times, que criticou avidamente os assuntos tratados: socialismo, homossexualidade, família, luta de classes e lutas sociais – enfim, coisas de que a teoria do fim da história, de Francis Fukuyama, tentou dar conta anos atrás.

O Guia teve seu título inspirado na peça O guia da mulher inteligente para o capitalismo e socialismo, de Bernard Shaw, e no livro Ciência e saúde com a chave das Escrituras, de Mary Baker Eddy. Tanto a peça de Shaw quanto o livro de Eddy são tomos de considerável volume. As ideias entre esses dois trabalhos se chocam, pois Shaw estabelece um diálogo sócio-histórico, ao passo que Eddy trabalha as bases para um sistema de pensamento religioso e uma prática adotados pela igreja Christian Science. Parece que Kushner apropria-se disso de alguma forma, não decepcionando nos diálogos das personagens, que são verborrágicos e viscerais, exigindo muita atenção dxs expectadorxs, além de aguçar a curiosidade, podendo render uma busca dialética por fontes históricas para aumentar a compreensão dos fatos dramaturgicamente representados.

O que é viável adiantar é que há um outro modo de pensar nesses diálogos às vezes interrompidos, outras vezes simultâneos: a expressão do turbilhão emocional de cada personagem (não há respostas fechadas ou maniqueístas). Talvez essa tenha sido a segunda característica a desagradar a crítica, pois o texto demanda uma interpretação profunda de relações e, segundo alguns jornalistas, o público está muito acostumado com a linguagem midiática e despreparado para fazer tais elucubrações. O que é uma falácia, pois os textos de Kushner flertam o tempo todo com tal linguagem e por vezes ironizam em demasiado a obra, comprometendo seu lado crítico.

Kushner ambienta a história no Brooklin, Nova York, no verão de 2007. A personagem Gus Marcantonio, um estivador aposentado, ex-líder dos trabalhadores, ex-comunista e primo do congressista Vito Anthony Marcantonio, chama seus três filhos: Pill, um professor gay de história numa escola de ensino médio; Empty, uma ex-enfermeira, advogada lésbica; e Vito, um empreiteiro de obras. Outros familiares acabam entrando na história, como a irmã de Gus, Clio, ex-freira radical que atualmente toma conta dele. A finalidade dessa reunião familiar é discutir a possível segunda tentativa de suicídio de Gus. X espectadorx infere que a motivação do personagem para atentar contra a própria vida é ter sido diagnosticado com Alzheimer. No entanto, podemos chegar ainda a outra conclusão: a de que o motivo seja uma certa desilusão de sua vida e de suas lutas da juventude. Alguns críticos, como Ben Brantley, observam que Gus sofre por viver num mundo pós-marxista. O que pode ser outro problema, já que a sociedade atual, que mostra tamanha desigualdade social, nunca precisou tanto do movimento marxista.

É interessante observar como a história dos Estados Unidos e a situação socioeconômica perpassam a tessitura da dramaturgia o tempo todo. Por exemplo, os nomes das personagens são cuidadosamente escolhidos. Se traduzirmos para o português Empty, o nome da filha de Gus, teremos a palavra Vazia o que de certo modo revela muito da sua própria vida. Já o nome de um dos filhos, Vito, nos dá a possibilidade de recordar de Vito Anthony Marcantonio, um polêmico advogado e congressista ítalo-americano, a princípio do Partido Republicano, que tinha muita afinidade com as ideias socialistas.

X espectadorx não encontrará um tema nessa peça, e sim uma miríade de possibilidades, como o destino dos movimentos sociais, capitalismo versus socialismo, família, homossexualidade, o papel da religião nisso tudo. Apesar de o Guia não ter todo o tratamento formal de outras peças kushnerianas, ainda assim ele consegue trabalhar, dentro de um universo familiar particular e privado, as tensões e contradições históricas que mimetizam questões da coletividade.

Para saber mais

FRANZINI, Jacques. The intelligent Homosexual’s Guide to the Capitalism and Socialism with a key to the Scriptures. Minneapolis: McGuire Proscenium Stage, 2009.

MASELIS, Fred. An Intelligent Homosexual’s Guide to Capitalism and Socialism: Tony Kushner looks at the decay of the “left”. 20 jul. 2011. In: World Socialist Web Site. Disponível em: http://www.wsws.org/en/articles/2011/07/kush-j20.html.

BRANTLEY, Ben. Debating Dialectics and Dad’s Suicide Plan. 5 May, 2011. In: New York Times. Disponível em: http://theater.nytimes.com/2011/05/06/theater/reviews/the-intelligent-homosexuals-guide-by-tony-kushner-review.html?pagewanted=all&_r=0.

 

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Rodrigo Lima Batista – 2 de julho de 2013 - 8:48

Nada como um pouco de acidez sarcástica do problema comum não só nos Estados Unidos como no mundo todo. Não vejo tanto nesta resenha como no trecho do vídeo uma ferramenta para liderar uma manifestação. Vejo como tema de reflexão para algo muito maior na nossa doentia sociedade que é aceitar nossos semelhantes. É a impressão que obtive, pelo menos!

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