Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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J/GEN/NY/IVAL

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A personagem de Chico Buarque põe em cena os bastidores do Brasil. E nós seguimos junto, coro doido. Por Luiz Pimentel

GENI

Genival, seu criado. Agora deixa eu ir!

MAX (segurando seu braço)

Teresinha, esta aqui é a Geni. No dia em que a
Geni for encontrada num quarto de pensão, nua, em decúbito ventral,
um punhal nas costas, o crânio esfacelado, nesse dia a nossa sociedade
vai despertar menos reluzente e menos perfumada.

(A ópera do malandro, Chico Buarque)

I.

Nem veado nem machão. Geni diz que é plurissexual.

Elx está fazendo teatro agora, com licença.

II.

Para um começo de conversa com elx:

http://letras.mus.br/chico-buarque/77259/

Para conversa mais longa: estudo de Luciane de Paula e Marina Haber de Figueiredo da música “Geni e o zepelim”:

http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/anais/1277836219_ARQUIVO_lucianedepaula.pdf

III.

Antes de começar a peça delx, vai ter um prólogo! :

– PRÓLOGO –

DIÁLOGO DE wagner homem COM O EX-CENSOR carlos lucio menezes ENTRECORTADO POR UM CORO DA GENI:

PERGUNTADOR: Fala uma de que você não gosta. Você foi muito enfático quando falou “tem algumas que eu não gosto”. Então, essa você deve saber exemplificar…

EX-CENSOR: Geni.

CORO DA GENI: Ela é um poço de bondade/ E é por isso que a cidade/ Vive sempre a repetir…

PERGUNTADOR: Geni? De tudo que é nego torto?

EX-CENSOR: Inclusive, eu fiz o possível para liberá-la. O pessoal tava lá na dúvida eu disse: “Não! Vamos liberar essa música. Vamos liberar”. Foram tantos os pedidos,/ Tão sinceros,/ tão sentidos,/ Que ela dominou seu asco.

PERGUNTADOR: Mas onde que pegava a Geni? Era na palavra “bosta” ou no fato de ser uma narração de um homossexual?

EX-CENSOR: “Bosta na Geni”…

Mas de fato, logo ela,/ Tão coitada e tão singela?

EX-CENSOR: Porque eu achava uma palavra muito grosseira para o tipo do Chico. Ele fez tanta sujeira,/ Lambuzou-se a noite inteira/ Até ficar saciado. O Chico não era desse tipo. Não, esse camarada, nessa hora não estava bem, não estava tranquilo. Ele devia estar meio agitado, meio preocupado, meio zangado com alguma coisa para fazer isso. Inclusive, têm muitas senhoras Geni Você dá pra qualquer um!/ Bendita Geni! pelo mundo que podem se sentir magoadas com isso. E não deu outra.

PERGUNTADOR: Deve ter causado um belo rebuliço.

CORO DA GENI: A cidade em romaria/ Foi beijar a sua mão:/ O prefeito de joelhos,/ O bispo de olhos vermelhos/ E o banqueiro com um milhão.

EX-CENSOR: “Vamos liberar com essa palavra BOSTA, mas vamos mesmo GENI. BOSTA! É uma palavra assim inconveniente, BOSTA! GENI não é palavrão, BOSTA! GENI não é pornografia, BOSTA! não é nada. BOSTA! É uma palavra apenas deslocada GENI de um texto artístico BOSTA do nível BOSTA de Chico Buarque GENI. Mas já que ele GENI colocou BOSTA, vamos liberar BOSTA GENI. Eu achava BOSTA que haveria BOSTA uma reação do povo GENI contra a censura BOSTA.” E, GENI de fato, houve BOSTA. A censura BOSTA foi muito criticada por GENI ter liberado essa BOSTA música GENI.

PERGUNTADOR: A censura recebia muitas cartas de gente pedindo para censurar isso ou aquilo? E é por isso que a cidade/ Vive sempre a repetir:

EX-CENSOR: Muitas, PEDRA muitas. BOSTA Cartas, telefonemas, pedidos. FEITA PRA APANHAR Mas isso aí não chegava nem aos censores. A própria chefia procurava desviar, BOA DE CUSPIR para não criar um clima de apreensão DÁ PRA QUALQUER UM com o volume de cartas e reclamações. MALDITA!

– FIM DO PRÓLOGO –

IV.

Geni é uma personagem do musical A ópera do malandro, de Chico Buarque cujo texto é uma releitura da Ópera dos mendigos (John Gay, 1728) e da Ópera dos três vinténs (Bertolt Brecht e Kurt Weill, 1928). Ambientada na Lapa carioca dos anos 40, na última fase do Estado Novo, A ópera do malandro apresenta as disputas entre o empresário de bordéis Fernando Duran e o malandro contrabandista Max Overseas, nos primórdios da entrada massiva de multinacionais no país. Marcada por diálogos ágeis e um deboche constante de tipos sociais (cafetão, agiota, contrabandista, policial, empresário), nessa ópera “não há heróis, todos os personagens vivem em torno do capital. Na luta pela sobrevivência que não permite veleidades éticas eles estão em dois níveis: o dos que lutam para sobreviver e o dos que lutam para acumular” (disse Chico Buarque).

Assim como Brecht virou vinténs em ópera, também o dinheiro é o grande protagonista de A ópera do malandro, promovendo drásticas modificações no “ofício” da tradicional malandragem carioca. E lá, dentro dessas exaustivas transformações das estruturas econômicas, políticas e culturais do país, encontramos Geni nos bastidores, em sua espera para entrar em cena, chateadx com esse desvelamento de um protagonismo na ópera que não seu.

A primeira montagem de A ópera do malandro estreou em junho de 1978, no Teatro Ginástico, sob a direção geral de Luís Antônio Martinez Corrêa e musical de John Neschling. Na época da feitura do texto da peça, foram estudadas, para a composição da personagem Geni, as memórias de Madame Satã, que morreu dois anos antes da estreia carioca, sendo citada na nota lançada por Chico Buarque por ocasião da estreia.

No número 37 da revista Lampião da Esquina, na ótima reportagem “O teatro é uma arte guei?”, Antônio Carlos Moreira diagnostica o interesse progressivo pelo tema da homossexualidade nos teatros do eixo Rio-São Paulo a partir da década de 70. O repórter supõe que tal investida temática pode ter acontecido pelo abrandamento da Censura Federal em relação a alguns temas e, muito mais provável, pela percepção dos empresários teatrais do “novo” filão homossexual e da rentabilidade gerada por produções que atendessem a essa demanda de público.

V.

Senhorxs, se ninguém quer cantar nada, eu mesmx apresentarei um numerozinho, isto é, vou imitar umx meninx que vi uma vez nesses botecos-de-quatro-vinténs, lá no Soho. Ou será que foi na Lapa, repassando bagulhos importados pras dondocas de Copacabana? De qualquer forma, cantarei, pra animar um pouco essa gente chata. É que me deu vontade de cantar.

Geni já está em cena. Mas elx perturbou tanto o cafetão, a cafetina e o inspetor de polícia com seu jogo cômico de revelar informações por dinheiro, que a plateia acaba gostando muito mais delx do que da Marieta Severo, atriz que faz a protagonista Teresinha. Todxs entoam, no ápice do espetáculo, a pedido dx próprix Geni: “Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! Ela é feita pra apanhar. Ela é boa de cuspir. Ela dá pra qualquer um. Maldita Geni!”.

Geni e o zepelim” é cantada pelx próprix Geni durante a peça. Quando escutada a música, sem a assistência da peça, a voz de Geni pode ser associada à de uma mulher que se prostitui e escandaliza alguma pequena cidade conservadora.

Na peça de teatro, Geni é Genival. Sempre um ator a interpreta. Na estreia, em 1978, apresentam-se:

(…)

Lúcia………………………………………………………..Elba Ramalho

Geni.……………………………………………………Emiliano Queirós

Barrabás……………………………………………………Ivens Godinho

(…)

A carreira do ator Emiliano Queirós foi fortemente marcada por sua atuação na estreia da Ópera como Geni. Conta o ator numa entrevista que, a princípio, a intervenção musical de Geni na peça era extremamente breve. Foi quando Chico Buarque assistiu à sua performance que decidiu aumentar a composição e, em poucos dias, retornou aos ensaios com “Geni e o zepelim”. O caráter narrativo da música e sua tensão dramática são nitidamente inspirados na canção “Pirata Jenny”, presente no texto de Brecht e Weill.

VI.

PELO CÉU PELO MAR

― De onde virá a chance pra explodir essa espelunca?

ECOS DE UMA PRIMA NOVA-IORQUINA

OU

GENIS TAMBÉM SÃO TRAIÇOEIRXS

GENI

(lê a mão esquerda) Estou vendo uma coisa! Ah, uma mulher muito importante na tua vida…

MAX

Genival, todas as mulheres da minha vida são muito importantes. (beija a boca de Fichinha e acaricia as coxas de Shirley)

GENI

Esta mulher é mais importante que todas as outras… Porque vai te trair.

MAX

(interrompe o beijo e as carícias) E diz o nome dela aí?

GENI

Só uma letra. A inicial.

MAX

Vamos ver… é tê?

GENI

Não, é gê.

Geni é traiçoeirx. Nela ainda ressoa o eco da voz épica da Jenny dos piratas, da Ópera dos três vinténs. Ao contrário de Geni, Jenny, sua prima nova-iorquina, não foi nada piedosa quando perguntada sobre o destino da cidade em que vivia.

Na ópera de Brecht, Jenny é uma copeira num boteco barato do Soho. Por noites a fio os bêbados a expõem ao ridículo e riem de sua condição miserável. Como forma de defesa ela começa a contar sempre uma mesma história, mesmo que sua voz soe imperceptível. Uma narrativa de vingança. Assustadora. Súbita tradução do pensamento de uma criatura muda e tratada como invisível:

Quando todos menos esperarem, um navio aportará em Nova York. Piratas desembarcarão e saquearão a cidade, amarrando todos os homens, mulheres e crianças na praça principal. Na frente do boteco, Jenny sorrirá, e ninguém poderá compreender sua mórbida satisfação. Ela é a escolhida. Conduzida como uma rainha à praça pelos piratas ela deverá decidir os cidadão que irão morrer. Sua voz finalmente poderá ser ouvida: todos.

 

Epílogo

Vida longa a Geni! A todxs nós.

Se Geni não acontecesse agora, o despertar era menos reluzente e tudo era menos perfumado.

Jogue pedra, jogue bosta. Nós também estamos fazendo teatro! Tirando palavra de pedra pra que as coisas possam ter um pouco mais de graça, mesmo dentro dessas formas chatinhas que fomos inventando para nós mesmos ao longo dos últimos 4 mil anos… Máscaras prontas, sangue nos olhos: meio víbora, meio santa, maldita, bendita e meio o que ainda vai ser inventado nas edições que vêm por aí. Geni, presente! Vai na frente, de corifeia. Nós seguimos junto, coro doido.

Leia outros textos de Luiz Pimentel e da seção Perfil.

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Paloma Franca Amorim – 2 de junho de 2013 - 17:43

Muito legal a revista e o artigo. Eu sempre penso nas problematizações de gênero a partir da perspectiva feminista, no caso da Geni imagino ser inevitável associar a opressão que ela vive à opressão sobre essa ideia de figura feminina fora dos padrões normativos do heteropatriarcado. Ela é uma prostituta mas é uma prostituta homem, é uma mulher da vida mas é uma mulher da vida homem, isto é, ela não se encaixa nem nas modalidades conceituadas a partir da moral burguesa. E foi ela a entregue, em sacrifício, ao comandante do zepelin gigante para salvar a cidade (“essa dama é a geni/ mas não pode ser geni/ ela é FEITA pra apanhar/ ela é boa de cuspir”). Do ponto de vista da peça, acho genial a canção que ela mesma canta pois para mim o discurso gerado é a confecção em música de uma parábola de gênero (portanto, mais um dado de opressão/oprimido no sistema da dramaturgia), quer dizer, a geratriz fundamental à opressão sobre Geni não surge somente a partir de um pressuposto moral – o de ela ser uma personalidade do submundo cabarelístico da peça – mas também por a personagem não estar passível de juízo tradicional de definição de gênero. Não sei, pensamentos.
Abraços a todos.

Claudia Celeste – 3 de junho de 2013 - 21:27

Isto é maravilhoso!… vai fundo!…. Me lembro da maravilhosa interpretação da nossa cantora e atriz Marlene (A Maior), que com maestria apresentou uma vez no programa do Fantástico… Foi inesquecível!… Parabéns, Luiz Pimentel…

Luciane de Paula – 4 de junho de 2013 - 4:17

Adorei tudo. O conteúdo, as reflexões, o formato da revista, as publicações, os comentários (amei, Paloma, o seu comentário). Principalmente, adorei a iniciativa de um espaço para reflexão acerca de um tema tão urgente de ser pensado e debatido, por mais que se diga e se produza um momento de aparente liberdade, extremamente discriminatória, punitiva até, em que a violência doméstica e de gênero são ainda tão gritantes, por isso até todo um movimento de tentativa de expressividade e liberdade existente. Contradições do patriarcado em seu discurso contemporâneo – tão “mulher da vida” quanto Geni; tão “mulher macho” quanto Diadorim e tantros outros Lampiões. Aliás, estou pensando nessa relação em Grande sertão, veredas…muito interessante também: a “nóia” de Riobaldo ao contar ao “doutor” o seu drama ao se deparar jagunço valentão possivelmente apaixonado por outro homem por não saber que Diadorim é mulher travestida de jagunço de seu bando, por proteção e possibilidade de sobrevivência, até a sua morte; e, a partir disso, todos os seus dilemas internos e atos externos em combates com terceiros, jagunços do bando inimigo, ao descontar suas “neuras”. Muitas vezes como ocorre na realidade com “homens” que não assumem sua própria sexualidade (penso ainda mais na gravidade disso em locais explicitamenta machistas, como o sertão, no caso da obra de Guimarães Rosa, o sertão de Minas Gerais). Interessa-me ainda a relação metafórico-metalinguística existente na obra junto da questão de gênero, talvez por minha formação em Letras. Isto é, a relação entre prosa e poesia imputada aos gêneros masculino (Riobaldo) e feminino travestido de masculino (Diadorim). A mistura de gêneros (gêneros em todos os sentidos”feminino/masculino e prosa/poesia). No grande sertão rosiano, que é o grande sertão da vida, Rio-baldo é o rio em balde que alimenta-se das veredas do sertão. Veredas esporádicas, sonhos ideais, quase alucinações, diamantes no deserto ao longo do rio seco no/do sertão. Diadorim é a vereda de Riobaldo. Vereda que se esconde, não se mostra, traveste-se, por medo da violência, pois, sozinha no mundo, sem algum tipo de proteção (ser homem num mundo de valentões), não sobreviveria. As veredas disfarçam-se para não serem arrancadas do sertão. Sim, a feminilidade que se esconde ao se travestir de jagunço matador. Mais que isso, Riobaldo, rio seco, racha-se inteiro ao perceber sua condição passional e, com isso, sai rachando o solo de tantos. É ele, como diria Morin, “prosa ordinária da vida” que não sabe lidar com a poesia que existe em si, sua emocionalidade exacerbada, que disfarça e não assume por ser ela, socialmente, não permitida, uma vez que imagina ser Diadorim seu companheiro de bando, homem-rio, igual a si. Esta, por sua vez, é pura poesia disfarçada. A poesia da vida, élan “demens”, segundo Morin, existente em homens e mulheres, especialidade escondida no cotidiano. Delicadeza da vida dura, tão disfarçada que, muitas vezes, despercebida, como Diadorim, que vive até a morte como homem sem ser descoberta. A especialidade que, num mundo duro, seco e sem vida, tem de ser travestida para sobreviver. Poesia que os homens têm e são também (sensibilidade, passionalidade etc) e, num mundo-sertão como o que vivemos, regido pelo patriarcado injusto que rege nossa cultura, precisa ser sufocado. Fosse Diadorim, de fato, homem, talvez os dilemas de Riobaldo ao se aperceber apaixonado por ele/ela seriam ainda mais graves (ou não, pois Dia-dor-im poderia, com certeza assumir-se, por mais dor de cabeça que esse sol de meio dia pudesse imputar ao bando de jagunços Felicianos que vivem e, muitas vezes, regem nosso sertão-mundo-Brasil). Na obra, há, então o questionamento sobre feminino e masculino, feminilidade e masculinidade, metaforizados pelo sertão e suas veredas. Prosa e poesia que se mesclam e complementam, mesmo sendo/estando distantes, pois con-vivem sem, muitas vezes, encontrarem-se ou admitirem-se complementares, feito água e óleo. Mas prosa e poesia não são puros no sertão-mundo porque não são água e óleo. São terra e água…um recebe e espera, com suas rachaduras abertas, feridas expostas, a água a penetrar-lhe, nutrir-lhe (e ainda aqui, novamente, se quem “nutre” é o homem, fluido e penetrante); o outro não aceita sua natureza e não quer ser “arrancada” de seu solo. Traveste-se, vereda que é, e alimenta nutre, portanto) esse mesmo solo, que agora já não é feminino, mas masculino, com suas verdades e certezas rachadas, sua dor exposta. Porque há feminilidade no masculino e masculinidade no feminino, como há prosa na poesia e poesia na prosa, independente do gênero (não é preciso ser travesti ou homossexual ou transexual para viver essas mesclas que nos habitam. A palavra “hetero” já diz tudo: a heterogeneidade da linguagem, dos gêneros discursivos e dos gêneros humanos. O que isso tem a ver com Geni? Tudo. Feminino e masculino, feminino-masculino e masculino-feminino se misturam, mas não se fundem amalgamados. Separam-se também. Cada qual assumindo sua identidade à sua maneira, como pode, de acordo com sua vivência histórica. Todos oprimidos e opressores, trocando de lugar, dependendo sa situação. Ora no poder ora fora dele. Sendo aclamados, ovacionados ou atirados pelo povo-coro que continua tendo sua voz ressoando como eco de manobras sígnico-ideológicas. A vida não é simples. O ser humano é “complexus” com-plexus e as questões de gênero são mais sutis que uma aparente e reles “escolha” (que, sabemos, não é bem escolha) de sexo ou de produção escrita. Afinal, mesmo quando “tão sentida” e “tão singela”, Geni “se virou de lado e tentou até dormir”, mas será que foi só fora que gritava, na cidade, “o povo em romaria”, “sem deixar ela dormir”? Creio que não. Afinal, “O Grito” (Munch) vem de dentro pra fora e de fora pra dentro, em diálogo comunicacional mútuo, como reflete Bakhtin ser a linguagem: organismo vivo em movimento, em atos. O povo, em “Geni e o Zepelim” é o povo literal, externo, mas também o povo interno que habita Geni e todos nós, sua consciência. Como em Riobaldo que, no centro do romance de Guimarães, ao perceber a atrocidade cometida ao matar com tamanha crueldade um de seus inimigos, do bando inimigo, e discutir com Diadorim por isso (a agressividade expressa e contida, masculina e feminina ao mesmo tempo), sai, sozinho a andar sem rumo pelo sertão-mundo e, ao chegar no centro do sertão-mundo-romance, enuncia a sua grande questão (vereda do grande sertão-linguagem): “Qual o sentido da vida?” e o sertão, que em Guimarães, fala, fabuloso, responde-lhe “-Ai, Zé, op!”. Enigma sem sentido? No centro do romance-vida, no centro do sertão-mundo, a questão central do ser humano, tenha ele o gênero que for, tem a sua resposta, simples, enigmaticamente respondida – e, como sempre, na vida, aparentemente sem sentido. Sim, o sentido da vida/existência está de trás pra frente. A poesia travestida de Geni e Diadorim a arrebatar valentões por chacoalhar as estruturas sociais, mesmo com toda a opressão vivida (até por serem, querendo ou não, apenas por existirem, questionadores): a poesia que invade a prosa ordinária da vida. O feminino que, ao contrário do que se espera, não espera, mas invade o masculino, em todos os sentidos. Isso mesmo: “Ai, Zé, op!”. Acho que me empolguei. Divaguei. Penso que a ideia da revista seja essa. Ao menos, em mim, foi o que suscitou, o desejo do diállogo, prenhe de sentido, aparentemente sem sentido, por tantas questões colocadas para refletirmos. Obrigada por sua existência, Geni. 😉

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