Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

geni no mundo

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Manifesto gordx

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Anarkorpórexs. O punk nunca fará dieta. Por Missogina

Nosso korpo, o primeiro inimigo.

É agora, no presente Gordx.

Porque não se nasce gordx: torna-se gordx.

Enunciamos: “algumas garotas são maiores que as outras”.

Somos xs anarKorpórexs.

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Proclamamos;

primeiro, reconstruiremos nossas vidas com o que somos, o que incomoda,

o transbordar dx porcx que deseja viver

somos gulosxs & tentadorxs, puro Eros feito tesão da boa mesa e do bacanal,

gostamos do calor que dá a gordura nos dias frios de inverno

& frente à cultura do recato, de parecer & fazer tudo direitinho.

Nós somos as trincheiras do fascismo/ditadura da pele

Somos vida transbordada de prazer oral,

porque gostamos de comer e não queremos reprimir tais desejos

só pra agradar a família, x amante do momento ou o chefe que não quis me contratar pela má aparência.

Somos a denúncia andante das inconsequências da democracia dos corpos.

Custe o que custar.

Porque não negociamos os prazeres estomacais.

Somos xs que não resistem a desaparecer frente ao emagrecimento das diferenças corporais.

Porque ser gordx não é algo anedótico, é político, contra o estabelecido.

O que não encaixa, o que excede, estala limites, costuras e zíperes, assentos no ônibus, fronteiras, ficções, desejos.

Aqui estão minhas dobras, minhas sobras, aqui está o corpo, esse que não corresponde, que aparentemente ninguém quer comer, esse corpo enfermo.

Falamos como gordxs, balofxs, desde as estrias, celulites, pneus gordurosos & sebosos

que recorrem nossos corpos transbordados, o eterno apelido de escola,

proletárixs da beleza & da saúde, mais desejantes que desejadxs.

Falamos as baleias transfeministas, radicais,

porque não basta destruir o gênero se não dinamitamos também as normas corporais.

Porque no fundo damos nojo ao teu sistema de vigor, fortaleza, fecundação & força (de trabalho & militar).

Falamos xs gordxs que não comemos carne, que acreditamos que o racismo o sexismo o heterossexismo & o especismo são cadeias que devem ser destruídas.

Xs que não queremos trabalhar, xs que desejamos deixar de ser, abortar. Xs que não queremos parir, fazer greve. Também falamos xs gordxs peludxs, hediondxs, xs feixs, as bichas superfemininas, nós que não estamos no pornô a não ser por fetiche, as caminhoneiras, as desalinhadas, as que arrotam na mesa, nojentos, perturbadoras, excessos, nunca quietos nem impecáveis.

Éramos a gordinha simpática, a que ninguém chamava para o baile, a que nunca conseguiu fazer dieta, a tímida, a que se cobria, a gorda escrota, essa que sempre queriam que fechasse a boca, a porca, a bola, baleia, saco de areia, Seu Barriga, Dona Redonda, Jaime Palilo. Para o resto, nosso corpo é um grande globo deformado, gorduroso.

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Porque todxs somos potenciais obesxs anoréxicxs.

Não queremos nos modificar nem que nos aceitem pelo que somos “por dentro”, nem nos autotorturar com dietas & exercícios extremos; queremos que os desejos se desaprendam & que nosso corpo se transforme em potência de desejo pelo simples fato de ser corpo.

Falamos para os/as gordas/os que ainda se encontram no espaço do silêncio, da vergonha, da piada… Não te convidamos a sair do armário dos números, mas a destruí-lo!

O espelho não é um reflexo da realidade, o que vemos nele não é mais que uma construção social a ser desconstruída.

Mostramos as garras, uivamos como lobas & saímos do espaço do silêncio

HOJE GORDX

       ONTEM PUTA

                 AMANHÃ LOBO

Missogina (Constanza A. Castillo) nasceu no Chile em 1991.
É artista e terrorista. Seu site é http://missogina.perrogordo.cl.

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Tradução: Marcos Visnadi

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Katiuscia da Costa Pinheiro – 5 de junho de 2013 - 0:04

Texto ácido, legal mesmo. Me lembrou o vigor do SCUM Manifesto, da Valerie Solanas.

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