Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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O CÉRVIX DA QUESTÃO | O machismo e a competição feminina

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Como meninas de 9 anos conseguem identificar e punir vagabundas? Por Clara Lobo

Dias atrás, uma amiga me confidenciou ter ouvido, no vestiário do dojo de artes marciais que frequento, uma conversa de quatro moças sobre a minha pessoa. Elas comentavam que eu era uma vagabunda por ter feito sexo com um dos colegas. Puseram-se a enumerar meus outros defeitos: eu era feia, não tinha peito nem bunda… enfim, elas não entendiam o que o rapaz vira em mim. Duas delas namoravam colegas do dojo, o que, no meu parco e parvo entendimento, fez-me crer que elas também tivessem feito sexo com eles, mas quem sou eu para alegar tal similitude de ações se eu era indubitavelmente a vagabunda, enquanto elas, indubitavelmente, não?

Confesso-lhes que aquilo não me surpreendeu minimamente. Primeiro, porque já ouvira disparates semelhantes sobre outra frequentadora. Segundo, porque já ouvira conversas similares em outros lugares, outras situações, vindas de outras mulheres sobre outras mulheres. Seu marido te traiu? Culpa daquela vagabunda. Seu namorado olhou pra bunda de outra mulher? Também, com essa roupa de biscate… Uma colega de trabalho conseguiu a promoção que você almejava? Aquela vagabunda deu para o seu chefe, óbvio.

Uma lúcida amiga sempre me diz: “Temo as mulheres que chamam outras de vagabundas”. Eu também. Internalizar o machismo, do qual deveríamos nos livrar, por não saber lidar com a nossa própria insegurança ante o (possível) desejo sexual do macho é comportamento que vejo com frequência na mulher heterossexual. Infelizmente, meter-se na vida dxs outrxs a fim de difamar ou depreciar a imagem de outra mulher é prática corriqueira em ambientes de trabalho, rodas de amigas, vestiários de academia. A mulher que deseja ser a menina dos olhos do homem, a preferida (seja do pai, marido, chefe ou colega), não vê problema em submeter a outra, considerada rival, a julgamentos enviesados e condenações baseadas em maledicência gratuita e mesquinha.

Não é absurdo que isso assim seja? Que mulheres se submetam de tal forma ao olhar do outro, especificamente ao masculino, que passem a utilizar o que há de pior nele para oprimir outra mulher? Que sua relação com mulheres seja marcada por rivalidade e intriga? Que sua insegurança seja tamanha que ela só seja capaz de tomar o lado de uma mulher se a outra não for considerada uma ameaça sexual? E, o pior: que essas atitudes não sejam questionadas, mas vistas como usuais, como naturais? Quantas vezes já ouvimos o famigerado “mulher é assim mesmo”? Como se estivessem inscritas em nossa carga genética a insídia e a competição patológica…

Quando criança, certa vez fui brincar no play usando o uniforme do coral da escola: camiseta e calças brancas. Uma das meninas me acusou de estar vestida de branco com o intuito de deixar transparecer a minha calcinha. Eu tinha 9 anos. Ela, 10. Lembro-me de ficar constrangida, de me justificar: “Vim direto da escola, este é o uniforme”. No dia seguinte, um grupo de meninas cochichava contra mim. Ali, fui provavelmente chamada de vagabunda pela primeira vez. Pergunto-me: de onde vem isso? Como meninas de 9, 10 anos conseguem identificar e punir vagabundas? Com quem aprenderam este comportamento? Com as mães? Com as irmãs mais velhas? Com as amigas? É possível que esse comportamento passe da mãe à filha, que, mesmo ainda sem saber direito o que é sexo, intuitivamente reconheça suas potenciais rivais e passe a vida repetindo e solidificando essa conduta.

O que ninguém parece perceber é que esse comportamento é cultural e, como fruto de uma cultura, pode ser transformado. Nós podemos ser melhores do que isso. Podemos deixar de ser reféns de impulsos mesquinhos e retrógrados, deixar de ser coniventes e participantes de uma sociedade que ainda – inacreditavelmente – pune as mulheres por serem senhoras de si mesmas. Que nega o machismo enquanto o dissemina de forma difusa e sub-reptícia. Que considera o feminismo algo fora de moda e desnecessário. Mas, para isso, cada mulher deve olhar não só as outras, mas a si própria de forma diferente. Perguntar-se “de que tenho medo? Por que tenho ódio? Por que não (a) suporto?” é um dos primeiros passos.

Pensem nas adolescentes que ainda sofrem bullying das colegas de escola por serem tachadas de galinhas, putas ou coisa similar. Nos Estados Unidos – em 2013, pelo amor de Deus! – meninas têm se suicidado por esse motivo. Esta semana, li sobre a terceira adolescente estadunidense que se mata num período de seis meses. Em todas as três histórias, algo em comum: elas lutavam contra o estigma de sluts, foram ostracizadas pelos amigos (amigas!), perseguidas e humilhadas pelxs colegas, e finalmente resolveram colocar um ponto final na história por meio do suicídio.

Uma delas, antes de morrer, fez o vídeo abaixo:

 

É triste que nós, mulheres, abracemos voluntariamente o papel de carrascos para solidificar ainda mais uma visão de mundo que nos oprime e nos divide, contra a qual tantas mulheres (e homens!) lutaram historicamente, e que beneficia somente a instituição patriarcal. Como feitores negros que açoitavam e puniam suas/seus compatriotas escravxs, voltamo-nos contra xs nossxs para agradar quem nos quer enjauladas. É preciso que mudemos, e que esse ranço machista não se transmita às novas gerações, para que nem mais uma única mulher seja vilipendiada por usar o seu corpo – aquele que Deus lhe deu – como bem quiser e entender.

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Anker – 1 de junho de 2013 - 16:48

Reblogged this on Anker and commented:
A sociedade molda e remolda.
Você é abusada psicologica- e sexualmente. A puta da história é você. Pois quem mandou vestir um decote?
No momento em que senti olhares de acusação, desgosto e até nojo, senti na pele o que é ser alvo de julgamento de uma sociedade. É uma consciência em comum; os seus desejos são a velocidade tangencial de um círculo, e a aceleração centrípeta, são os muros que a sociedade determina para a possibilidade de se manter no círculo. E ai de você se pensar diferente: vai sair da rodinha, e pra voltar, não vai ser fácil.
Por um ano inteiro me revoltei com a quadradisse do pensamento social. Por um ano, fiz sexo por fazer. Declarei que fazia porque gostava, assim como qualquer homem diria. Não, eu não gostava tanto assim, mas a rebeldia gritava dentro de mim. Foi uma experiência desastrosa. Perdi amigos, e até a minha família sentia nojo da minha pessoa. Eu não tinha nome, tinha fama… e tudo isso, toda essa experiência, toda essa revolta por causa de um abuso em que no fim a culpa fora minha também. Vivemos no século XXI, e no meio de toda a tecnologia surreal, ainda predomina o pensamento medieval e antiquado que a Igreja Católica estabelecera. Enquanto um grande grupo de mulheres em busca da igualdade e aceitação social não se unirem, ninguém se manifestará.
Não consegui me manter rebelde. Desde o começo do ano tenho me comportado como uma “”””””mocinha”””””””.

Alexandre Stuk – 27 de junho de 2013 - 21:29

Eu não me conformo com o lance do peito ter de ser tapado. :(
Mutilação descarada na crendice das paredes.

Rodrigo Lima Batista – 29 de junho de 2013 - 7:37

No popular, sempre digo aos meus amigos que, o nosso passatempo favorito é falar mal da vida alheia. Sou sarcástico por natureza, mas não hipócrita. Esses problemas que permeiam a sociedade de hoje é fruto do moralismo cristão imposto pela Igreja na idade média, conforme a resposta de Anker, logo acima. Não nego meu lado macho em querer ter todas as mulheres e apreciar todas suas curvas, isso é fato. Contudo, o problema está na moralização falsa que está dentro dessa sociedade que se diz moderna, que abafa seus instintos por considerar algo retrógrado. Tanto mulheres como homens tem desejos e anseiam por se satisfazerem mas o passado condena. Foi dito que era errado e que temos que acatar o moralismo pregado por Cristo (não sei aonde ele disse isso na Bíblia, e eu procurei). O correto é a via unica que preza a pureza pois somos superiores a outros animais. Eis o resultado: a sociedade apenas modernizou o método Puritano de ser, que ao invés de queimar as tais “bruxas” na fogueira, difama a vítima até que ela mude de cidade, país, de vida ou, se suicide. A semente ainda está dentro da sociedade e ela está longe de acabar…. temos hipócritas demais ditando as regras do jogo. E, ao meu ver, ser feliz hoje em dia…. não está nessa Terra.

TEREZINHA GONZAGA – 1 de julho de 2013 - 5:21

Porque Deus fez meu corpo, porque não as Deusas? eu como sou ateia não acredito que tenha tido um Deus, e acho que monoteísmo – e masculino – é a consolidação do ato de tirar a autonomia das e dos seres humanas\os. Porque tudo está nas mãos de Deus, “graças a Deus” é a sentença que eu mais ouço. E estou cansada pois acho um impeditivo para a autonomia, pq se ele decide tudo pela vida das pessoas tira qualquer possibilidade de autonomia. E principalmente das mulheres que foram vilipendiadas em todos os momentos dos registros pós Cristo…é triste….até a prostituta é perdoada porque consideram que é pecadora por causa do sexo.
Então fica muito difícil qualquer avanço sem mexer nestas questões estruturais que no meu entendimento é básica para podermos mexer com as consequências.

Camila – 8 de julho de 2013 - 11:17

E nós somos suposta uma sociedade moderna …. Lastimável….

claudio fernandes – 13 de setembro de 2013 - 11:49

Alguma mudança começa a acontecer quando a sexualidade deixar de ser tratada de forma imbecil (amadurecimento que não superou a infância) e passar a ser encarada como direito pessoal que não interessa a ninguém a não ser a si própria(o). Porém, enquanto a imbecilização do desejo sexual estiver associada ao consumismo machista, não há condição de amadurecimento, e nem sequer de desenvolvimento da liberdade pessoal e do aprofundamento do princípio do prazer.

Renato Martins – 7 de março de 2015 - 17:16

Combater o preconceito e o estigma é trabalho de formiguinha: veja-se o caso das trabalhadoras sexuais, “párias entre as párias”: a experiência delas tem tudo a ver com o que o artigo descreve. Peço sua permissão para republicá-lo em http://www.mundoinvisivel.org.

[…] Clara Lobo escreve para a Revista Geni. […]

Isabela Gomes – 8 de março de 2015 - 14:16

Que jeito gostoso de escrever, ótimo texto e triste tema. Sim, ainda estamos sujeitas a sofrer com o machismo e muitas vezes vem de nossas companheiras mulheres. Precisamos unir a todos na luta e não ficar criando intriga entre nós mesmas. Continuemos a lutar. E parabéns pelo texto!

Charles – 9 de março de 2015 - 14:39

Texto manero, mas pelo amor de deus para de botar “x” entre as palavras com genêro, isto é tão imbecil!

[…] coluna O Cérvix da Questão da revista Geni número zero, Clara Lobo faz uma pergunta: “Como meninas de nove, dez anos conseguem identificar e punir […]

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