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PEGA NO MEU POWER | A mulher preta e a universidade

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Ser negro e entrar pra um curso superior é se preparar todos os dias para ouvir que ali não é o seu lugar. Por Sueli Felizani

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Há coisas na vida que não se esquece. Uma madrugada quente de janeiro. A notícia dada por telefone por uma amiga, de que eu havia passado na universidade, para fazer o curso dos meus sonhos.

O caminho foi longo. 2001, maio, aos cinco meses de gestação, fui condenada a repouso total pela obstetra, sob risco de aborto espontâneo. Com a mobilidade reduzida, tempo livre e material doado por amigos, reuni a concentração para começar a estudar a sério para o vestibular.

Como o pequeno nasceu no finalzinho do ano, resolvi deixar pra prestar a prova no ano seguinte. E o fiz, com isenção de taxa e muita, mas muita ansiedade. 2003, era caloura de letras na Universidade de São Paulo.

Ao dar a notícia para os amigos, ouvi muitas felicitações. Entre elas, a frase: “É uma maravilha que agora tenhamos cotas para negros”.

A USP não tinha, e até hoje não tem, regime de cotas raciais ou sociais de nenhuma espécie. Eu tinha ralado meu cu na ostra por aquela vaga e alguém já sugeria que eu havia sido “beneficiada” pela minha cor. Como se uma ação reparatória que tenta aumentar a representação ínfima do meu povo já tão discriminado no ensino superior fosse alguma forma de presente, e não uma obrigação moral da sociedade por 358 anos de exploração do trabalho e da vida dos meus ancestrais. Esse foi o primeiro sinal de que eu havia entrado em um lugar que não entendia a presença de negros.

A página 2

Estava prestes a descobrir que para nós, negros nascidos em comunidades pobres, entrar na universidade é apenas o primeiro passo de uma série de desafios. A necessidade de manter uma renda fixa diminui as oportunidades de estágios em áreas não remuneradas ou com ajuda de custo baixa. Diminui o tempo disponível para dedicação à pesquisa ou cursos extracurriculares. Transporte e alimentação são preocupações constantes.

Manter a carga de leitura suicida em dia é quase impossível, e o tempo passa a ser valioso demais para dormir oito horas por dia. Para a mulher negra, somam-se a o combate ao machismo, que faz com que os trabalhos domésticos, as responsabilidades da maternidade, a compra, o processamento e o preparo de alimentos, o gerenciamento das finanças e os trabalhos de limpeza e manutenção sejam responsabilidade única feminina.

Passados a comemoração da família, o trote e a empolgação, a alegria só durou até a página 2. Intimidado pela nova realidade, atormentado por crises de ciúmes pelo tempo que eu passava fora, e por não entender a jornada de estudos e a importância de notas altas para o ranqueamento, o pai do meu bebê nos deixou em junho do ano seguinte.

Minha rotina nesse momento se reduzia a acordar muito cedo, deixar o pequeno na creche, correr para a aula, de lá para o estágio de revisora de traduções, para voltar no início da tarde correndo a tempo de pegá-lo e estar em casa para fazer o jantar. Eu o levava para a aula comigo nos dias de recesso. Ele adormeceu várias vezes no meu colo na biblioteca. E eu demorei quase oito anos pra terminar a graduação. Pegando grades de aulas reduzidas para dar conta da leitura e de manter as notas em alta, e possivelmente tentar uma bolsa de mestrado ao fim do curso.

Como eu, muitas mulheres pretas contam com sacrifícios pessoais e familiares para ingressar no curso superior – e para permanecer nele – mantendo os padrões de qualidade e excelência exigidos pelas instituições.

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Eu era a única aluna negra da minha turma de espanhol até o terceiro ano. Passei muito tempo ouvindo histórias de viagens, cursos fora e muitas oportunidades de colegas – o que, dentro da minha realidade, eu nunca pude sequer vislumbrar. Durante o curso, morei na favela ao lado da universidade por dois anos e dependi da bolsa alimentação para comer no bandejão todos os dias até o fim da graduação.

Ser negro e entrar pra um curso superior é se preparar todos os dias para ouvir que ali não é o seu lugar. O debate da questão racial e do tratamento dispensado aos alunos afrodescendentes ainda é incipiente. As instituições não apoiam seus alunos negros, bolsistas ou não, em suas jornadas no ensino superior. A manutenção do curso é prejudicada pelas dificuldades inerentes à condição social, ao assédio e à conjuntura racista do próprio ambiente.

Não bastando as dificuldades que a realidade material histórica nos impõe, o aumento do número de negros nas universidades levou a um aumento significativo nas denúncias de racismo por parte das instituições e de sua comunidade.

Casos como o de Mônica Gonçalves, aluna da FMUSP – um dos cursos mais concorridos da melhor universidade do estado –, impedida de entrar no prédio onde estuda, são cada vez mais comuns. Mônica ouviu o que todo preto ouve, de forma direta ou indireta, assim que põe os pés no reino da hegemonia branca: “Você não tem cara de quem estuda aqui”. Porque a imagem veiculada do negro brasileiro está no futebol, no carnaval, na música, na putaria, mas nunca na sala da universidade.

Na PUC Campinas, a única bolsista negra mulher do curso de arquitetura e urbanismo, Stephanie Ribeiro, sofreu episódios de racismo por parte da instituição, dos colegas e professores. A aluna apresenta hoje sinais de estresse e depressão, e pensa em abandonar o curso. Após uma denúncia publicada pela revista Fórum, os diretores da faculdade de Stephanie, ao invés de investigar os casos de agressão sofridos pela jovem, a ameaçam com uma sindicância para avaliar as reclamações de alunos e pais, indignados por terem sido expostos por seus atos elitistas, racistas e discriminatórios.

Lugar de gente preta

Quando se rompe a linha imaginária que separa socialmente brancos de negros em locais historicamente excludentes como é o caso das universidades, tem-se que estar pronto para o backlash inevitável da instituição. Quando se é mulher e negra, além do backlash social, o assédio machista, o trote racista, as questões relacionadas à divisão de trabalho e a ausência de representatividade são ainda mais gritantes.

O ambiente acadêmico precisa abrir urgentemente a discussão sobre o tratamento dispensado a seus alunos afrodescendentes, principalmente as mulheres. Porque as implicações do acesso sem respaldo, respeito ou apoio já são visíveis em cursos de todas as áreas. A barreira para o acesso do negro à universidade é fruto de um modelo de educação baseado em uma meritocracia míope. A meritocracia se apoia na realidade torpe de que só quem tem tempo e dinheiro durante a formação escolar para a preparação para o vestibular são as classes ricas. E é essa mesma meritocracia míope que invisibiliza o esforço despendido pelo aluno negro para superar a ausência dessa preparação prévia e confortável para ingressar e se manter no ensino superior.

Cotas são criticadas como presentes ou vias de acesso fácil a seres humanos menos inteligentes ou preparados. A questão da falta óbvia de preparação comparável à classe branca só realça a desigualdade educacional entre as etnias. A imagem de incompetência do aluno negro que a crítica meritocrática traz às cotas, mantém o negro na posição de ser subdesenvolvido intelectualmente, não abrangendo o aspecto crítico social do abismo existente entre os dois backgrounds de educação, anteriores ao ingresso no ensino superior.

O negro pleiteando seu lugar no ensino superior coloca um holofote sobre aspecto do racismo brasileiro que é invisibilizado: a enorme diferença de oportunidades entre brancos e negros em termos de educação. Quando se cruza a linha imaginária, todo o privilégio da condição do aluno branco e rico é colocado em discussão.

Está na hora da sociedade aceitar que a universidade é lugar de todos. E que lugar de preta não é mais na senzala ou no famoso quartinho de empregada. Negros não são mais os porteiros, jardineiros, motoristas que vocês cumprimentam de passagem. A preta não é mais a cozinheira e a arrumadeira. Ela não está mais invisível, trabalhadora terceirizada que limpa a sujeira que você deixou pelo corredor. Ela está na sala de aula, sentada do seu lado. Ela vai fazer a mesma prova que você. E, se possível, tirar uma nota maior do que a sua.

Desculpa, brancos, mas, vocês querendo ou não, a gente vai invadir sua sala, a gente vai pegar nosso diploma. Num dia, não muito distante, vocês vão estar morando nos prédios que nós desenhamos, sendo atendidos pelos médicos pretos que tanto desgostam, e seus filhos serão ensinados por professoras negras. E o que vamos ensinar, já avisamos de antemão, é que lugar de gente preta é onde ela quiser.

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Leia outros textos de Sueli Feliziani e da coluna Pega no meu Power.

Ilustração: Emilia Santos.

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Alice Ramos de Oliveira – 9 de junho de 2014 - 16:26

Coisa linda de se ler, gratidão era tudo que precisava ler nesse instante, por que sofro a mesma coisa ainda com pressão da família,que é míope tb. Mas seguirei enfrente ainda mais com esse texto.

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