Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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SAPAPOP | Produçããão!

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Quem é a responsável pelo sucesso de Weeds e OITNB? Por Lígia Xavier


Publicado em 15/06/2015

 

 

Outro dia parei para pensar nas produtoras de séries de que gosto. Não falo de empresas, mas sim de mulheres mesmo. E só me vieram 3 nomes na cabeça, com muita dificuldade surgiu um 4o nome.

Você já ficou curiosx para saber quem criou e/ou produziu a série de que você tanto gosta?  Eu já! E, infelizmente, a grande maioria são homens.

O androcentrismo apontado pela Lia Urbini em seu ótimo texto da edição passada, Androcentrismo e Ficção Científica, não se restringe à ficção científica no cinema.

Ele é majoritário em toda indústria das artes e entretenimento, desde as artes plásticas (O Valor da Mulher: O Preço de Ser uma Artista é um artigo que mostra muito bem isso) aos meus tão amados seriados e jogos de videogame (recomendo ver alguns vídeos do Feminist Frequency).

Interlúdio: Já comentei aqui sobre o teste de Bechdel: caso ainda não saiba do que se trata, recomendo a leitura de Hollywood só para homens, de Clara Lobo.

 

Primeiramente, qual o papel de quem produz? Qual a importância dessa pessoa?

 

Muito grosseiramente: eu diria que x produtorx está para o filme/seriado como x editorx está para o livro.

A produção de um filme ou seriado envolve o trabalho de “vender a ideia” — própria ou de outra pessoa — captar recursos e realizá-la.

Escolher x diretorx, elenco, estratégia de marketing, (dependendo da pessoa) se envolver durante as filmagens e “dar pitaco”, definir orçamentos e cronogramas, negociar sets de filmagem, estúdios, locações físicas e de equipamentos … tudo isso e muito mais também fazem parte do trabalho de produzir.

Enfim, uma boa produção influencia muito na qualidade final. Se uma ideia original sai diferente do planejado, há grandes chances da “culpa” ser de quem está encarregado de produzir.

Há vários tipos de produtores: executivos, consultivos, co-produtores, associadxs, etc. Embora, em teoria, cada cargo tenha algumas funções bem definidas (por exemplo, de praxe, em Hollywood, quando um filme ou série é baseado em uma história real, deve-se creditar a pessoa “dona” da história real como produtorx consultivx), a conclusão a que chego é que cada caso é um caso.

Mas pode-se dizer que x produtorx executivx é o cargo mais ligado ao cotidiano de uma série/filme. Afinal de contas, é, em teoria, a pessoa que executa a série/filme, faz a coisa acontecer.

Já reparou que é muito comum a atriz ou o ator principal de um seriado, após uma ou algumas temporadas de sucesso, serem creditados como produtorx executivx?

Isso é muito comum em séries. Às vezes de fato a pessoa se envolve no processo de execução, mas também pode acontecer apenas por questões pró-forma: para receber mais (assim tem remuneração pela atuação e pela produção), para começar a ter um nome como produtorx, etc.

De todas as produtoras de que gosto, tem uma que muito admiro:

 

JENJI KOHAN

 

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Acredito que ela foi a primeira criadora e showrunner (ou produtora executiva) cujas criações me cativaram e me fizeram permanecer horas fazendo maratona, vendo e revendo episódios.

Adorei Weeds, sua primeira criação de sucesso, desde o primeiro episódio! A protagonista poderia ser mais uma mãe de família lutando para mantê-la. Sabe como é, né? Fez faculdade, mas logo que engravidou tornou-se dona de casa, ficou afastada por anos do mercado de trabalho; aí, de repente, o marido morre. E agora? Como sustentar a família? Ainda mais uma família de um rico e fictício subúrbio estadunidense…

Solução: vender maconha!

 A série era comédia. Já a hiprocrisia da sociedade, a liberdade da mullher sobre seu próprio corpo, a questão de quais drogas devem ser legalizadas, como pequenos empresários ou grandes empresas irão lucrar com essa legalização; machismo, empreendedorismo e maternidade — todos temas sempre presentes na série — são tópicos bem sérios.

 Há várias coisas que podem ser criticadas em Weeds, mas eu sempre fico surpresa e feliz quando há uma personagem feminina que não segue a moral sexual imposta pela sociedade e, quando alguém lhe fala alguma abobrinha, ela taca um foda-se. Nancy Botwin (Mary-Louise Parker), a protagonista, era assim!

 Jenji começou a carreira escrevendo para a série Um Maluco no Pedaço (The Fresh Prince of Bel Air) e já escreveu para várias comédias dos anos 1990/2000 – inclusive Will & Grace, que há quem diga que foi a série de maior sucesso com protagonista homossexual de sua época. Pudera! Durou oito anos!

 Mas sua mais famosa criação/produção é aquela cuja 3a temporada espero que você já tenha começado a assistir ou terminado de assistir. Assista ao vídeo e entre no clima carcerário:

 

Orange_is_the_new_Black

 Fonte:http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Orange_is_the_new_Black.png

 

A série é baseada no livro Orange Is The New Black: My Year in a Women’s Prison (Laranja é o novo preto: meu ano em uma prisão feminina — tradução nossa) da autora Piper Kerman.

Jenji leu o livro, gostou da ideia, foi atrás das questões burocráticas de direitos autorais e afins e apresentou sua série para 3 empresas: HBO, Showtime e Netflix.

Ela escolheu a Netflix pois a empresa encomendou 13 episódios na lata. Algo muito incomum no mercado de séries estadunidenses onde, geralmente, paga-se apenas pelo episódio piloto e, só depois que ele fica pronto e é testado, encomenda-se o resto da temporada.

A protagonista da série, Piper Chapman, é uma mulher branca, com ensino superior em uma boa universidade, bem de vida, noiva (de um homem branco classe média judeu)… enfim, a vida “normal” de uma porcentagem da população que é retratada na televisão com bastante frequência.

Mas alguns anos atrás ela tinha outra vida, vivia viajando o mundo, tinha um lance (ou um romance?) com uma mulher ligada a uma rede de tráfico de drogas. Isso estaria no passado e, talvez, esquecido: se não fosse o motivo de sua prisão repentina. A ex foi pega e teve que delatá-la.

Piper, então, tem que lidar com uma realidade totalmente distinta da sua. A premissa seria muito chata se ficasse só nos choques de realidade dela e, ainda bem, a série não trata só da protagonista. Há as histórias de suas outras colegas de prisão: negras, latinas, pobres, idosas viciadas em drogas, sapatões, fanchas, bis, trans.. cada uma com sua história particular.

E as coadjuvantes tornam-se protagonistas: o que deixa a série BEM mais divertida e envolvente.

Jenji comenta em uma entrevista:

 

“Piper, de diversas formas, foi meu Cavalo de Troia. Você não chega numa rede de televisão e vende uma série sobre histórias fascinantes de mulheres negras, mulheres latinas ou mulheres velhas e criminosas. Mas se você pega essa garota branca, esse tipo de peixe fora d’água, e você a segue, você pode expandir seu mundo e contar todas essas outras histórias. Mas é uma venda difícil chegar e tentar vender essas histórias [de negras, latinas, velhas e criminosas] inicialmente. A garota ao lado, a loira da hora, é um ponto de acesso fácil, e com que diversos públicos  e diversas redes buscando por demografia se identificam. Isso é útil.”¹

 

Imaginemos um plano de negócio da série. Jenji o articulou muito bem! Não é à toa que a série é um sucesso.

 

 bola dentro da produtora: estratégia de venda

 

Quantos seriados têm protagonistas mulheres? Desses, quantas são negras, latinas ou tem mais de 50 anos? Quantas são lésbicas? Quantas são gordas? Há poucas séries com protagonistas assim, né?

A indústria de séries ou filmes é machista, androcêntrica, cheia de preconceitos raciais, de gênero, de orientação sexual, etc.

Então escolher uma protagonista branca, “hétero” e de classe média para poder vender a série foi, ao meu ver, uma boa estratégia. Foi uma venda casada: vocês levam história da loira, mas têm que comprar as histórias “coadjuvantes” de pessoas sobre as quais os chefões da indústria nem querem saber.

 O sucesso da série certamente servirá de argumento para que futuras séries não precisem de um “Cavalo de Troia”.

 

 bola dentro: a escolha do canal

 

HBO e Showtime poderiam ter sido ótimas opções, dado que nesses canais já passaram séries de sucesso com protagonistas homossexuais (era no Showtime que passavam The L Word e Queer as Folk, por exemplo). Mas, escolher o Netflix permitiu alcançar uma audiência maior e em escala mundial. Muitxs brasileirxs certamente assistiram as séries citadas na internet, pois elas não passaram na TV aberta e demoraram a passar na TV a cabo.

Além da questão de orçamento e garantia de que a série iria rolar mesmo: ter grana pra fazer a temporada inteira de uma vez.

 

 bola dentro: a escolha do elenco

 

Sempre tem gente que é chamada por ser famosa. Mas não é o caso de OITNB. O nome mais “famoso” da série é de Jason Biggs – que estrelou a série de filmes American Pie (quem tem 20 anos sabe que filmes são esses?).

A atriz “principal”, Taylor Schilling, tem apenas cinco filmes no currículo. De suas onze indicações a prêmios, 3 são anteriores a OITNB.

 Quem realmente brilha na série são as atrizes “coadjuvantes”.

Samira Wiley fazendo a queridíssima Poussey (quem não quer pegar essa personagem?); Danielle Brooks ahazando como a divertidíssima Taystee; Dascha Polanco interpretando a lindíssima, belíssima e gente boa até demais Daya; Laverne Cox, uma boa atriz trans fazendo uma personagem trans… posso listar quase todo o elenco.

 Mas, para mim, quem mais se destaca é Uzo Aduba, que interpreta a Susanne “Crazy Eyes”. Ela se transforma para fazer a personagem. Já viu as fotos dela? Quem não viu depois que ela, Samira e a Natasha Lyone, que faz a Nicky Nichols, vieram para a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo e foram pegar um sol no Rio de Janeiro?

 Uzo tem uma interpretação IN-CRÍ-VEL. Além de ser lindíssima. Seus pais são nigerianos, mas ela nasceu e cresceu nos EUA — algo notável na parada: seu incômodo com a proximidade corporal das pessoas é um traço cultural bem estadunidense.

 Esse vídeo do site Funny or Die mostra ela fazendo “testes” para várias personagens da série. Daria pra fazer a série inteira com ela! Ela podia estar no lugar da Tatiana Maslany em Orphan Black:

 

 bola dentro: uma boa trilha sonora

 

A trilha sonora faz diferença numa série. The OC e Gossip Girl, por exemplo. São quase uma versão estadunidense de uma novela mexicana sobre (dramas de adultos se fazendo passar por) adolescentes. Mas suas trilhas sonoras… meu.. eram incríveis, valia a pena assistir pra ouvir as músicas.

 OITNB já tem na abertura uma música muito boa, da artista russa Regina Spektor: You’ve Got Time. A cantora é muito querida por muitos e até ganhou um prêmio por essa canção.

NB: Não gosto da Regina, acho sua voz e seus arranjos muito parecidos com os da Feist e prefiro a Feist.

Há várias e vários artistas não muito famosos, entre os famosos e mezzo famosos, eis alguns que tiveram algum som tocado: Velvet Underground & Nico, Nada Surf, Betty Davis, Nancy Cassidy, Pantera, Run DMC, Pentatonix, 50 Cent, Tom Waits, Deep Blue Something, Gwen Stefani, Sir Mix A Lot, Ike & Tina Turner, The Offspring, Kelis (Milkshake)…

 

 bola dentro: uma ótima abertura

 

As faces mostradas na abertura são de prisioneiras reais. A ideia inicial era mostrar o contraste da realidade anterior da protagonista com sua nova realidade na prisão.

Jenji pediu pra que isso mudasse. E o diretor do clipe, então, pediu que cada prisioneira filmada pensasse em três coisas: um lugar pacífico, alguém que te faz sorrir e algo que você deseja esquecer². Assim nasceu a abertura.

 

Alguma bola fora (?): a “realidade” da prisão

 

A prisão fictícia de Litchfield parece com a realidade de várias cooperativas de estudantes (moradia estudantil mais barata que os dormitórios das universidades) estadunidenses: cada membro deve trabalhar em alguma coisa X horas por semana, tem seu turno para limpar os banheiros e, se precisar de algo extra, é só comprar na lojinha a preços exorbitantes. Além de horários fixos para as refeições, feitas pelxs próprixs universitárixs.

Mas as personagens estão em uma prisão, não na faculdade!!

 Certa vez li uma crítica (não me lembro onde) de uma assistente social que trabalha com mulheres prisioneiras e ela ficava muito incomodada com essa questão na série: como é retratada a realidade do sistema carcerário.

 Uma das primeiras coisas que ela apontou: Sophia Burset dificilmente estaria em uma prisão feminina. O sistema carcerário não sabe lidar com pessoas trans e, assim como o sistema social em que vivemos, as envia para prisões de acordo com o que está em sua certidão de nascimento/carteira de identidade — não, não se considera a identidade social.

 Como a série é meio comédia, meio drama e, claro, é uma ficção, obviamente o universo dela é único. Mas, ao mesmo tempo, sua inspiração é uma história real que ocorreu em um presídio.

 Muitos dos dramas derivam do fato das mulheres estarem presas: não poderem ver seus filhos crescerem, não poderem compartilhar momentos com seus familiares, preferirem ficar na cadeia do que voltar para uma sociedade que as exclui.

 Mas tudo é tão “divertido” às vezes que é fácil esquecer que aquilo é uma cadeia. A falta de grades e celas também contribui com isso. E o quanto essa sensação não é provocada de fato em nós, público? Quando se está na cadeia, que artifícios são usados para lidar com essa realidade?

 Por outro lado, acho que a humanização das personagens é o mais bacana da série. Cada presidiária tem o seu porquê de ter cometido um crime, cada uma delas, antes de ser presidiária, é um ser humano.

 Assim como as presidiárias de qualquer sistema carcerário, em qualquer país.. quantas estão lá por terem “escolhido” o mundo do crime? O quanto nossas escolhas são realmente nossas e não construídas socialmente? Quantas leis temos que privilegiam determinadas classes sociais e excluem outras? As oportunidades e escolhas a se fazerem são sempre as mesmas para cada pessoa em nossa sociedade — independente de classe, gênero, orientação sexual, raça ou todos esses fatores interligados?

 Só tenho a agradecer a Jenji Kohan por me fazer refletir sobre tudo isso e me fazer rir e chorar com as mulheres ou,como o sr. Healy diria, detentas de Litchfield!

 

Referências

Jenji Kohan no IMDB

¹NPR News. ‘Orange’ Creator Jenji Kohan: “Piper was my Trojan Horse”.

²Huffington Post. ‘Orange Is The New Black’ Opening Credits Feature Real, Formerly Incarcerated Women (VIDEO)

tunefind. Music from Orange Is The New Black

Wikipedia:

Orange Is the New Black

Regina Spektor

Rolling Stone. Oito curiosidades sobre Orange Is the New Black, a série da Netflix que mostra jovem de classe média que passou um ano presa

Showtine. Queer as Folk.

 

Ilutração: Emilia Santos

 

 

 

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