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Boca

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Nas grandes ocasiões, a vida humana ainda se concentra, bestialmente, na boca. Por Georges Bataille

Publicado em 15/07/2015

 

A boca é o começo ou, como se queira, a proa dos animais: nos casos mais característicos, ela é a parte mais vivaz, ou seja, a mais aterrorizante para os outros animais que a circundam. Mas o homem não possui uma arquitetura simples como a dos bichos, e nem é mesmo possível dizer por onde ele começa. A rigor, ele começa pela parte de cima do crânio, mas o alto do crânio é uma parte insignificante, incapaz de atrair a atenção, e são os olhos e a testa que fazem o papel de dar significado ao maxilar dos animais.

Entre os homens civilizados, a boca perdeu até a posição de relativa proeminência que ainda mantém entre os homens selvagens. Entretanto, o significado violento da boca é conservado em estado latente: ele volta à tona, de súbito, numa expressão literalmente canibal como boca de fogo, aplicada aos canhões, com a ajuda dos quais os homens se matam uns aos outros. E, nas grandes ocasiões, a vida humana ainda se concentra, bestialmente, na boca; a cólera que faz ranger os dentes, o terror e o sofrimento atroz que fazem da boca a porta-voz de gritos lancinantes. É fácil de observar, sobre este tema, que o indivíduo transtornado soergue a cabeça tencionando seu pescoço freneticamente, de forma que sua boca é colocada, tanto quanto o possível, no prolongamento da coluna vertebral, ou seja, na posição que ela normalmente ocupa na constituição animal. Como se os impulsos explosivos devessem jorrar diretamente do corpo pela boca, na forma de vociferações. Este fato evidencia tanto a importância da boca na fisiologia, ou mesmo também na psicologia, animal, como a importância geral da extremidade superior ou anterior do corpo, orifício de impulsos físicos profundos: simultaneamente, vemos que um homem pode liberar seus impulsos ao menos de duas maneiras diferentes, pelo cérebro e pela boca, mas assim que seus impulsos tornam-se violentos, ele é obrigado a recorrer ao modo bestial de liberá-los. Daí o caráter de constipação aguda de uma atitude estritamente humana, o aspecto magistral do rosto à boca fechada, belo como um cofre forte.

 

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Nota do tradutor

O texto acima foi publicado em 1930, em Paris, no número 5 da revista Documents, editada pelo próprio Georges Bataille entre 1929 e 1930. Com quinze edições ao todo, teve a colaboração de diversos intelectuais e artistas, muitos dos quais dissidentes do grupo surrealista reunido em torno de André Breton. Um deles, Michel Leiris, descreveu-a como “uma máquina de guerra contra ideias pré-concebidas”. Abarcando artes, etnografia, arqueologia, música de concerto, jazz, fotografia e cultura popular, contou também com a seção Dicionário, dentro da qual o verbete Boca veio a público. Bem de acordo com o espírito geral da publicação, este dicionário colocava em questão os lugares comuns do imaginário do homem erudito europeu de então, revelando a tibieza de ideias, conceitos e juízos tidos como base para a Cultura Ocidental (no caso, escrita, assim, em maiúsculas).

Uma vista sobre os títulos dos assuntos escolhidos para os verbetes (por exemplo: Olho, Poeira, Esteta, Absoluto, Museu) pode dar a impressão de haver aí alguma arbitrariedade. Muito pelo contrário, cada tópico parece estrategicamente visar um alvo preciso. No verbete Informe – em alguma medida paradigmático para os outros –, Bataille afirma que um dicionário começaria a partir do momento em que não desse mais “os significados, mas as tarefas das palavras”. Uma palavra, portanto, não deveria ser um conjunto de descrições para um determinado objeto, mas sim de operações que mobilizam imagens, ideias, outras palavras e conceitos, interferindo diretamente na compreensão do que se quer descrever e na maneira mesma pela qual uma coisa se apresenta diante de nós. Em última análise, isso quer dizer que estas operações é que circunscrevem o campo dentro do qual podemos ter contato com algo.

Parece-me que também ajuda a contextualizar o texto acima notar que, entre as representações mais questionadas ao longo das edições da revista, estão aquelas que atribuem a certos fenômenos culturais, políticos ou mesmo fisiológicos os lugares de alto e baixo. Entre estas encontramos a forma como costumamos pensar o corpo humano. Se em Boca o autor escreve que o corpo dos seres humanos não tem começo nem fim, em O Dedão do Pé, dirá que esta é a parte mais humana de nosso corpo, justamente por ser a que nos permite a posição ereta que coloca nossa cabeça, que tanto presamos, “elevada em direção ao céu e às coisas do céu”.  Por fim, neste e em outros escritos de Bataille, o leitor perceberá certa indistinção no trato dos aspectos biológicos e culturais do humano. Isto, porém, não se deve a uma redução de um aspecto ao outro, mas sim a um questionamento de supostas neutralidades nas construções discursivas sobre o corpo, bem como ao reconhecimento da opacidade inerente à relação que podemos ter com aquilo que é a matéria mesma de nossa própria existência. Nesta chave, dar sentido ao próprio corpo é sempre uma tarefa por fazer.

Tradução: Ruy Luduvice

Ilustração: Gustavo Inafuku

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