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DAMA DE ESPADA | Sobre atos, R$ 0,20, vandalismo e opressões!

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Convido a todxs a saírem do armário e virem se assumir “vândalxs”. Seja você umx vândalx também. Por Janaina Lima

Em meio a protestos que vêm acontecendo pelo Brasil afora, seja pelo motivo que for, tenho visto milhares de pessoas dizerem que isso é apenas um movimento de vândalos.

Diante dessa constatação feita pela “população”, resolvi escrever sobre esse “vandalismo” pelo qual o Brasil tem passado. Não há como esquecer também de outra palavra, semelhante: “bárbaros”. Os romanos usaram esse adjetivo para designar todos aqueles que habitavam fora das fronteiras do império e que não falavam a língua oficial (o latim). Por conta das diferenças sociais, contudo, eles passaram a usar de sua força para reivindicar o que lhes era negado, o que culminou com a queda do próprio Império Romano.

Podemos perceber, portanto, que já naquela época eles haviam dado, para os descontentes que não aceitavam ser tratados como inferiores nos direitos, o título de “bárbaros”.

À época da ditadura militar, as travestis, pelo simples fato de quererem ser o que eram, acabavam presas sem motivos aparentes. Eu mesma, quando me assumi, não podia ver uma viatura que era obrigada a correr, pois, quando éramos pegas, acabávamos sendo colocadas em camburões e levadas a lugares diversos – que poderiam ser desde um bar cheio de pessoas, para sermos expostas como animais presos, a um lugar deserto onde éramos torturadas fisicamente e recebíamos o título de “pessoas vagabundas”. Logo, não é de se admirar que hoje estar nas ruas protestando seja sinônimo de “vandalismo”.

Estive acompanhando as manifestações na cidade de São Paulo como ativista, ora inalando gás, ora correndo das balas de borracha, ora gritando palavras de ordem, e às vezes fazendo tudo ao mesmo tempo, mas algumas vezes observando as atitudes daqueles que compunham a manifestação. Em outros estados, pude acompanhar apenas pela mídia virtual, e não há como não tecer comentários sobre todo o ocorrido.

As pessoas vão às ruas porque estão descontentes, seja por R$ 0,20 (que parecia ser pouco até sair a decisão de revogar o aumento e vir à tona o que já sabíamos: de roleta em roleta, esse pequeno valor se tornou um montante, já avisado por nossos governantes, que será repassado como “prejuízo” para outras contas), seja pelo atual panorama político (que, podemos perceber, não tem agradado nem a gregos nem a troianos, imagine a brasileirxs), seja para pedir a “cura gay” (mas a quem interessa se os próprios gays não a querem? Olha que curioso, né?), seja para festejar, ou até meramente para bagunçar o coreto, o que não deixa ser totalmente legítimo também.

Mas o que mais me chama a atenção é como as pessoas buscam seus direitos, e a pergunta que não quer calar é: como posso exigir ter direitos, esquecendo dos direitos das outras pessoas também discriminadas?

COLUNA JANAÍNA

Nessas semanas de protestos e manifestações, me deparei com diversas formas de opressão, vindo justamente daqueles que têm exigido direitos, como, por exemplo: cartazes machistas, que dizem que o Brasil está ruim por termos uma mulher na presidência; de intolerância partidária, apenas por achar que o governo X é do partido Z e, portanto, a culpa é do povo que ergue a bandeira; de intolerância religiosa, porque os cristãos são culpados de todas as mazelas do mundo por serem cegos por suas convicções religiosas, e por aí vai. Diversos exemplos que nada mais são do que falta de conhecimento do que leva cada umx a defender aquilo em que acredita.

Teve um fato bem interessante, que pode ilustrar o quanto as pessoas sequer sabem o que estão criticando: Ronaldo, atual comentarista de jogos e ex-jogador de futebol, teve um vídeo publicado em 2011 defendendo a Copa, do qual transcrevo sua fala: “Está se gastando dinheiro com segurança, saúde, mas sem estádio não se faz Copa. Não se faz Copa com hospital. Tenho certeza que o governo está dividindo investimentos”. Qual não é minha surpresa quando vejo pessoas, militantes de causas sociais, dizerem que Ronaldo é contra hospitais porque ele “curte travestis”, e pessoas travestis não precisam de hospitais, pois não podem gerar filhxs! Fala sério! Hospital foi feito apenas para as questões de maternidade?

Crianças do meu bem-querer: cabe lembrar que travesti tem um aparelho reprodutor em perfeito funcionamento, e se quiser engravidar alguém ela pode, sim, pois, para xs mais desavisadxs, existem travestis com filhxs por opção própria. E, além disso, nós travestis não lutamos apenas por silicone, clientes, “necas” e “edis”: nossa luta ultrapassa as barreiras impostas por essa sociedade machista. Sim, estamos na rua também para compor esse novo movimento que nasce ou renasce das cinzas como uma fênix, por uma sociedade mais tolerante, a todas as causas, de uma maneira que possamos circular por esse Brasil maravilhoso, sem cercear o direito dx outrx.

Mesmo que uma grande maioria de pessoas chame a grande maioria de “vândalos”, podemos pensar nesses atos de vandalismo contra essa política, machista, maquiada, que tem cooptado grandes líderes de diversos movimentos para calar o povo. Ou seja, estamos, sim, vandalizando as imposições sociais enfiadas goela abaixo daquelxs que discordam deste sistema. Não é de se admirar, portanto, que as pessoas se revoltem com o panorama da política brasileira e assumam as ruas como forma de protestar e, por que não, no calor da bala de borracha que queima sua pele, pelo simples fato de exigir que nossa Constituição seja respeitada. Alguns/mas mais afoitxs (ou seriam mesmo revoltadxs), vale ressaltar, acabam por depredar as coisas que encontram pela frente, para aliviar a dor e a revolta de serem recusadxs como brasileirxs e consideradxs simplesmente “vândalxs”.

Assim sendo, minhas/meus carxs: se ir às ruas para reivindicar direitos, se não aceitar um Estado que impõe medidas a seu povo é ser “vândalx”, por que não vandalizar? Convido a todxs a saírem do armário e virem se assumir “vândalxs”. Seja você umx vândalx também. Mas não podemos nos esquecer de nossos princípios – e, se não aceito ser desrespeitada, logo não posso faltar com respeito para com as outras pessoas.

O que queremos de fato é vandalizar, bagunçar, quebrar a ordem de nossos governistas que só têm beneficiado os “senhores feudais”. Fica aqui o pedido: eu vandalizo, tu vandalizas, nós vandalizamos, mas sem oprimir o nosso próximo.

 

 

 

Ilustração: Cecília Silveira

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Rodrigo Rosa – 2 de julho de 2013 - 19:08

Arrassoooooooouuuuu! Amei o texto, Jana!!! Fiquei pensando que tb tenho ouvido muita gente dizer que é falta de respeito com o que é público e com a propriedade privada, quebrar prefeituras, pontos de ônibus e saquear lojas. Eu tenho lá minhas dúvidas. Primeiro que o que é público tem sido apropriado privadamente por quem faz os contratos com as empresas de ônibus ou por quem ocupa os cargos eletivos e de confiança em muitas dessas prefeituras depredadas. POis se é assim, quando se quebra um ponto de busão, estamos dizendo que aquilo não tem sido muito nosso. Depois que eu tb acho que tem diferença entre quebrar um banco e uma lojinha de centro. O banco, instituição da qual não posso me desvencilhar neeessa merda de arranjo societário em que vivemos, me rouba todos os dias, Gosto de vê-los agredidos. Pena é saber que tais agressões não fazem nem cócegas, que suas próprias, seguradoras cobrem tudo no dia seguinte e o dinheiro não sai da rodinha deles. ainda assim, não consegui jogar nem uma pedra. Sou um vândalo de meia tigela. Mas tenho esperança de que me vandalizando um pouquinho a cada dia, chegarei lá! Beijo grande!

Paulo Tavares Mariante – 11 de julho de 2013 - 21:42

Excelente artigo, Jana, que me fez recordar da poesia sempre atual de Bertold Brecht: “Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens desse rio”. Violentos são o capital e o estado burguês, que negam todos os dias os nossos direitos e nos oprimem de todas as maneiras.

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