Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Entre a euforia e o cansaço

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Dois momentos do movimento homossexual nas páginas de uma revista masculina. Por Pedro “Pepa” Silva

EUFORIA E CANSAÇO

Recentemente, o boato de que a revista Playboy chegaria ao fim movimentou comentários nas redes sociais. Ícone de uma ideia de homem heterossexual, a revista teve uma evidente sobrevida em tempos de cultura pornográfica gratuita na internet. Em que pese o fato de estar muito distante da linha editorial que foi responsável pelo seu sucesso, Playboy é hoje o retrato da banalidade da imagem da mulher-objeto. Não soube ir além. Não teve assunto que ultrapassasse o corpo e a beleza efêmera das mais diferentes “celebridades” que conhecemos nos últimos anos.

Na história das revistas masculinas no Brasil, pode-se dizer que Playboy reinou, mas não esteve sozinha. Durante um bom tempo conviveu com publicações que tentaram, cada uma a seu modo, atingir o “moderno” heterossexual urbano – uma figura que sobrevive no imaginário como um padrão de comportamento masculino e que merecia ser pensada e questionada. A década de 1970 foi o período de convivência dessas publicações, entre as quais se podem destacar Ele Ela (surgida em fins dos anos 1960 e editada pela Bloch) e Status (da editora Três).

Lançada em 1974, Status constitui um caso bastante interessante no mercado de revistas masculinas. Nascida no momento em que vigorava forte censura à imprensa (em especial à erótica), um dos méritos da revista foi trazer para suas páginas a literatura, inclusive com a criação de prêmios para contos eróticos. Por lá passaram escritores consagrados como Antônio Callado, Autran Dourado, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Caio Fernando Abreu, entre muitos outros. Status passou por diferentes fases entre o lançamento e o seu fim, em 1987.*

Até 1980, a revista convivia com as limitações estabelecidas pela Divisão de Censura da Polícia Federal. A mais conhecida era a proibição ao nu frontal, que só terminaria em 1980. Mas, além dessa, era comum que a Censura enviasse às editoras algumas diretrizes para as publicações. Uma delas era o impedimento de se falar de relações homossexuais. Por isso mesmo, é curioso que uma edição de 1979 de Status fale da década de 1970 como um momento da “escalada gay no Brasil”.

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Trata-se da edição nº 65, de dezembro de 1979. O texto “A década da revolução gay no Brasil”, assinado por Marco Antônio de Lacerda, faz uma retrospectiva dos anos 1970, fixando algumas das figuras que se tornariam ícones culturais gays – os Dzi Croquettes e Ney Matogrosso, por exemplo. Aliás, a própria palavra gay era uma grande novidade:

Como quem se prepara para entrar de roupa nova na década que se aproxima, os homossexuais brasileiros importaram uma nova palavra para designar-se: gay. Para quem já foi chamado até de anormal e invertido sexual, a palavra caiu do céu, isto é, dos Estados Unidos. Mas, por enquanto, gay parece estar sendo usada apenas pela camada privilegiada da comunidade homossexual brasileira. Pelo menos é o que indica a surpresa de um rapaz saído da Vila Carrão, bairro afastado de São Paulo, para conhecer a sauna For Friends, frequentada pela fina flor do público gay paulista:

Então isso é que é gay!? Lá no meu bairro é bicha mesmo.”

A matéria evidencia o aspecto político que acompanhava a maior visibilidade gay, sem se esquecer da rentabilidade que a comunidade passava a representar:

Um fenômeno tão rentável como este jamais seria malvisto num país de capitalismo selvagem. Nem mesmo uma sauna gay na Vila Matilde, remoto subúrbio a 20 quilômetros de São Paulo, onde, nos fins de semana, cerca de 200 operários pagam Cr$ 100,00 para se divertir entre si e com rapazes vindos da cidade. Como chamar de anormal uma discoteca como o Medieval, de São Paulo, cujo faturamento nos fins de semana pode alcançar até 1 milhão de cruzeiros? E a Flower’s (Porto Alegre), o Zig-Zag (do Rio) a Brullet (de Belo Horizonte), o Holmes (de Salvador), cujos lucros atingem números parecidos?”.

Sem esquecer a posição da ciência e da Igreja (uma clássica oposição e quase lugar-comum do jornalismo voltado ao tema), a matéria fixa um momento da comunidade gay no quadro da situação política, econômica e cultural brasileira naquele fim dos anos 70. 

(Clique nas imagens para ampliar.)

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Contrastando diretamente com esse primeiro momento de euforia gay, a mesma Status, anos depois, devotou uma matéria de capa ao que chamou de “dilema gay”: “Casar ou caçar” era o título estampado na edição de fevereiro de 1986. Na capa, a fotomontagem de Álvaro Póvoa cai na clássica oposição masculino e feminino, tão cara ao discurso jornalístico sobre os homossexuais. 

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Seu humor, porém, não dialoga nem um pouco com o tom da matéria redigida por Wagner Carelli e que sentencia:

Há exatamente dez anos o movimento gay ganhava a rua e pedia passagem. Hoje é cada um por si e todos divididos entre o recolhimento e a danação”.

Aquele era um novo momento para a revista: a nudez feminina deixara de ser o foco. Em editorial da edição de outubro de 1985 (que trouxe na capa o então candidato à eleição para prefeitura de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso), Carelli diz que a revista “ousou pensar” e explica a mudança: “Não, nada contra mulheres peladas […] Mas acabou-se o mistério, o fascínio, a sutileza que chegaram a torná-las audaciosas. A nudez é hoje um mercado delimitado por leis rígidas, um jogo em que o encanto não tem cacife”.

Falando deste distante 2013, num momento em que se percebe uma cisão cada vez maior nas questões de gênero e sexualidade (sim, pois o que explica uma página do Facebook dedicada, por exemplo, ao “Orgulho de ser hétero”?), eleger a condição homossexual para a capa de uma revista de tradição heterossexual parece uma grande subversão.

A longa matéria de 1986 acompanha figuras já mencionadas na edição de 1979 da revista e encontra Celso Curi, Darcy Penteado, Luiz Mott, Aguinaldo Silva e outros militantes em um momento marcado pela pulverização dos discursos políticos, bem como de espanto diante da Aids (aqui vista como “o segundo divisor no movimento e na atitude homossexuais no Brasil”). O resultado é o evidente cansaço de carregar bandeiras numa sociedade constantemente perdida entre tradições e modernidades, como destaca a fala de Celso Curi:

Nestes últimos dez anos, o gay brasileiro se assumiu fisiologicamente, transou com desenvoltura e deixou de ter grilos práticos […] Mas emocionalmente continua o mesmo: está impregnado pelo catolicismo e pela moral familiar. É católico na alma e conservador na cuca”.

A condição homossexual é vista na linha dicotômica entre modernidade e arcaísmo, avanço e retrocesso:

O homossexual, admite-se, venceu. Mas nem tudo mudou, nem suas vitórias têm a garantia da perenidade. Para contrapor-se à franca simpatia da maioria dos políticos há sempre um Jânio Quadros, que promete limpar, com poderes de prefeito, a cidade que mais concentra homossexuais no país – e, como prova de fé, ameaça levar para o trabalho o ex-delegado Wilson Richetti, que em 1980 comandou ferozes blitz contra os homossexuais em São Paulo. Na Bahia dos poderosos gegebetes vocifera em assembleia o inconformado deputado-coronel Sidney Palácios, balançando seus cabelos acaju-dourados com suas correntes de ouro a cada imprecação contra os homossexuais em tribuna; o jornal A Tarde pede em editoriais caudalosos o extermínio puro e simples das bichas; seis gays foram assassinados no ano passado em Salvador, sem que os culpados fossem capturados”.

 

Não é de se estranhar que um trecho como esse continue valendo neste nosso 2013… Basta trocarmos alguns dos nomes e veremos uma situação ainda muito familiar, infelizmente. Por outro lado, quando se considera o lugar desses discursos sobre os homossexuais (as páginas de uma revista voltada essencialmente a um homem heterossexual), percebe-se como as questões de gênero e sexualidade ficaram compartimentadas. Hoje predomina um pragmatismo que tende a simplificar qualquer discussão: afinal, por que falar de gay para um público hétero e por que falar de hétero para um público gay?

Nesse sentido, recuperar momentos como os da revista Status significa não só historicizar rupturas e continuidades nos caminhos tomados pelas questões de gênero e sexualidade no Brasil. Trata-se de uma maneira de repensar o pragmatismo simplista: afinal, por que não tratar das questões de gênero e sexualidade para além dos famigerados rótulos? Por que não dar a discussão pra qualquer um/a?

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*Em 2011, Status voltou a ser publicada, em linha editorial distinta, sob o comando de Nirlando Beirão. Dado o objetivo desta coluna, tratamos apenas da primeira Status, finalizada em 1987.

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João Pedro – 1 de julho de 2013 - 23:55

Ótima escrita Pedro, belo recorte do tempo para a ilustração do tema. Além de tudo que foi colocado ao longo do tempo, dando ênfase ao capital, como sendo os homossexuais um grupo “rentável”. Creio que a evolução do pensamento crítico das pessoas, o aumento da cultura, o fim do regime militar….Contribui muito para a humanização das pessoas, “olhando” para os homossexuais de forma diferente.

Copacabana vadia | Óperas de Sabão – 4 de outubro de 2013 - 12:04

[…] um pouco da noite no point que reunia a boemia, a diversidade sexual e alguns artistas da época. A Galeria Alaska devia horrorizar a família carioca com seus shows e público gay. Ao que parece, […]

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