Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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ESCULACHO | Corpo e sangue: outras histórias da negrinha da casa das putas

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Não cansaram ainda dessas histórias? Então tome! Quem está segura? Algumas formas de mirada. Por Alciana Paulino

Publicado em 12/07/2015

 

 

Prelúdio: o caminho

Estava com uma dor estranha na barriga. Carregando uma mala grande e outra menor (minha irmã Bolinha), estava muito mais preocupada em como cruzar a Zona Leste de São Paulo sem que nos ferissem. No ônibus lotado as coisas eram mais estranhas, passa mala, passa criança, paga e passa a catraca. Segura criança, segura mala e junta tudo isso num banco apertado. Depois de duas horas chegamos em casa sãs e salvas, a mala, a malinha (S2) e eu.

 

Sangue

Desespero. Entro no banheiro para o sagrado xixi. Sangue na calcinha. Poxa, minha mãe tinha menstruado com 14 anos, minha avó com 17. Por que eu seria a azarada de menstruar com 11? Podia ter a sorte de ter algum problema no rim e o sangue vir dali. Chamei minha mãe.

– Não, Alciana, eu não quero ver o seu cocô.

– Não é isso, mãe. É sangue.

 

Mocinha

– Ai, não acredito! A minha filha é mocinha!

 

Festa

Mal esperou eu sair do banheiro e foi contar para quem aparecesse na frente. Parecia sentir-se mais mulher porque sua filha sangrava. Contou para todo mundo.

Ooooh glória! Naquela época não tinha Facebook.

 

Presentes

Festa que é festa tem presente. Ganhei absorvente, sutiã (agora podia/precisava usar), umas calcinhas e uma surpreendente camisinha.

– Agora você pode engravidar.

 

Felicitações

O espaço público virou um inferno ainda maior. Já não era fácil para a garota introvertida e medrosa que eu tinha me tornado. Agora tinha o risco de manchar a roupa. E vou dizer. Manchava.

Ao sair do prédio, ouvimos:

– Parabéns, Maciel! Soubemos que a Alciana ficou mocinha.

Ficamos constrangidos, meu padrasto e eu.

– A sua mãe é uma boca aberta, né?

 

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O risco

A gravidez. Qualquer relação com o outro gênero deveria ser evitada.

“O que você estava falando com aquele moleque, sua vagabunda?!”

 

As pancadas

Qualquer interação com o gênero masculino deveria ser evitada a qualquer custo.

“Vou bater mesmo, mas você é uma estúpida, nem apanhando aprende.”

 

O pior de ter um corpo

Quando ele é invadido e/ou se deteriora.

“Te bato em casa pra não apanhar na rua.”

 

O pior de ter um corpo

Ele nasce, cresce e pode morrer.

“Qualquer dia desses eu te mato!”

 

O pior de ter um corpo

Quando ele não é capaz de te defender.

“Tira essa mão da frente, se não conseguir acertar onde eu quero eu te bato duas vezes.”

 

O pior de ter um corpo

Quando ele oferece formas que chamam atenção dos outros e isso passa a ser um risco.

“Eu vi aquele bando olhando pra você.”

 

O pior de ter um corpo

Poucas vezes pode sair dele.

“Deus, me ajuda! Por que eu tenho que passar por isso?”

 

O pior de ter um corpo

Quando ele não expressa o que você gostaria.

“…”

 

O pior de ter um corpo

Quando ele está cheio de hematomas e você tem que esconder.

“Acho que é melhor não ir pra escola hoje.”

 

O pior de ter um corpo

Lidar com as suas limitações.

“Iemanjá, me ajuda! Já pedi pra Deus, mas ele é homem, sabe como é…”

 

O pior de ter um corpo

Quando ele passa a ser o espaço para a manifestação do seu ódio do mundo.

“Eu quero morrer…”

 

O pior de ser um corpo

Você nasce, cresce e pode morrer.

Tudo o que for feito a ele é feito a você.

Quando ninguém, nenhuma instituição, Estado ou sei lá que porra te ajuda a se proteger.

 

O melhor de ser um corpo

O que não mata engorda e faz crescer.

 

O melhor de ser um corpo

Quando encontra outro corpo numa relação de afeto e/ou prazer.

“Mamãe eu quero, mamãe eu quero!”

 

O melhor de ser um corpo

Quando assume seu destino.

 

O melhor de ser um corpo

Quando entende que ele é político.

“Bota tudo no sol, querida. Aceita, mulher, você é potente!”

 

O melhor de ser um corpo

Você nasce, cresce, se diverte pacas e morre depois.

 

Sobre algumas memórias

Preferia esquecer. Me disseram que não posso. Concordo?

 

Agradecimentos: Marcos Visnadi, João da Mata, Mônica Maciel e Ana Lúcia Piazza.

 Leia outros textos de Alciana Paulino e da coluna Esculacho.

Ilustração: Renata Torres

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