Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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FARÓIS ACESOS | Os meus faróis te guiam

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Tô nervosa, tô revoltada, tô quase pegando meu sutiã e indo queimar tudo na frente do Palácio dos Bandeirantes. E tô de olho em vocês. Por Neusa Sueli

NEUSA SUELI

… e Deus criou a mulher. Depois o homem. Depois o creme para pentear. E depois eu, NEUSA SUELI, muito prazer. Aliás, para vocês é “dona Neusa”, porque eu não gosto de muita intimidade e nem de gente entrona. Só para deixar claro.

E o Todo-Poderoso, em seguida, disse: “Vai, Neusa: desce e ARRASA!”.

Achei excessivo e desnecessário para uma divindade, sabe. Perdi o respeito.

Desci.

Primeiro, tentei fazer carreira no mercado do sexo. Era (MUITO) bom, mas parei. Dessa época, só guardo dois arrependimentos: não ter comprado uma chapa grill do George Foreman e não ter pagado o carnê do INPS (vai demorar mais para eu me aposentar). De resto, foi lindo – e gostoso [risos abafados].

Depois fui para o teatro. Continuei não pagando a previdência, mas o pessoal dizia na época que a arte enaltecia o ser humano, resolvi tentar. Me matriculei na Escola de Atores Wolf Maya para buscar formação (sou perfeccionista, gosto de interagir – li Bourriaud – sou culta, sou humilde, sou esforçada). Pensei em ser designer e fazer ilustrações, mas acabei virando personagem de dramaturgo maldito, autor marginal, que tratava do mundo-cão em suas obras: se era para fazer arte, tinha que ser “arte de raiz”.

Mostrei peito, entrei na (e depois saí da) personagem, fiz de um tudo (sorry, sou intensa – eu e a Regina Duarte). Olha, minha gente, só digo uma coisa: não aconselho. Toda noite eu tinha que tomar porrada de um ogro e escutar um cafetão escroto me ofender, me chamar de velha e enrugada. Depois de quase uma hora e meia de choro e ranger de dentes, um monte de zé ruela (eles ficavam sentados me vendo apanhar) ainda aplaudia – alguns até emocionados. Te contar, viu. Massagear meus mamilos ninguém quer, né? Não curti. Esse negócio de que “um tapinha não dói” não é comigo. Sou nervosa e comigo é assim: toma lá, dá cá – já aviso.

Por isso estou migrando para a imprensa militante. Sou séria. Eu não vim ao mundo para colocarem só a cabecinha, não. Pus um CD da Marrom, fiz uma balaiagem, dei um tapa nos cantinhos e desci (toda nua) – só de plataforma de acrílico. Porque eu sou assim: eu brilho, chéri.1 Se você não tem luz, se aproxima, vem cá: a minha claridade é tão forte e resplandecente que nem esse seu perispírito trevoso me ofusca. Pode vir, meu bem: os meus faróis te guiam.

Faróis acesos

Tô nervosa, tô revoltada, tô quase pegando meu sutiã (decote Y com bojo de espuma da Valisère) e indo queimar tudo na frente do Palácio dos Bandeirantes (já avisei que sou intensa – eu e a Glória Maria). E tô de olho em vocês.

Que o ser humano não deu certo é algo que qualquer um que vá à feira, faça pilates, gouinage ou pegue ônibus em São Paulo sabe. Mas vocês exageram, né população nacional? A falta de noção aqui é tão grande que tem horas que juro que dá vontade de voltar, de pedir um estágio no inferno para o demônio, porque a humanidade não dá uma bola dentro. Mas, enfim, como para mim o chão não é o limite (sempre tem um subsolo), vamos lá.

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Depilando Bolsonaro

Há alguns dias, uma alma caridosa (dessas de que o mundo e a rua Vieira de Carvalho aqui em São Paulo estão cheios) me mandou uma matéria que dizia que um tal de “Jair Boçalanal”, deputado2 federal, foi convidado pela organização de um festival de diversidade sexual, um tal de Mixê Brasil, para um debate. Li a matéria. Duas vezes, aliás, para ter certeza de que era aquilo mesmo que estava escrito. Sabe gente, fiquei me perguntando se ter levado tanto tempo para ser alfabetizada realmente valeu a pena, porque não foi para ler esse tipo de asneira que eu vim ao mundo.

“Não sou chegado em rabo cabeludo” [sic], afirma o dito-cujo – e o fofo do jornalista ainda escreve e põe na internet para todo mundo ver (mamãe deve estar orgulhosa, certeza). Uma salva de palmas para o Boçalanal, Brasil [insira aqui sua efusividade]. Não só porque ele usou a palavra “rabo” com propriedade – superelegante e adequada para um representante político, aliás –, mas também porque ele certamente deve ter uma clínica de depilação ou ser adepto da Brazilian wax.3 Ou seja: você, ursa amiga, que tem cabelos até nos ouvidos, ou você, amiga que não se depila (porque acha isso uma violência), não tem vez com esse “pedaço de mau caminho” (quem duvida?) que é nosso querido deputado. Veja que triste (a realidade machuca às vezes – força aí!).4

Organizadores, vamos refletir: um debate (corrijam-me se eu estiver errada) pressupõe um diálogo (diálogo = duas pessoas que falam a mesma língua e que se propõem a conversar). Grosso modo, temos duas partes, muitas vezes com perspectivas opostas ou antagônicas, que estão dispostas a discutir sobre um determinado assunto. Mas TEM QUE HAVER DIÁLOGO. Pois bem: como é que vai haver diálogo aí no debate proposto por um festival (de cinema, inclusive) LGBT se uma das partes afirma taxativamente que “não vai assistir a nenhum filme gay”?

Não ficou claro? Então peraí que #neusasueliexplica: imaginem que vai haver um ciclo de projeções de filmes de dança folclórica ídiche. Imaginou? Agora imaginem que a direção desse ciclo resolve fazer um debate e convida para a mesa o Adolf Hitler [momento para vocês refletirem]. Vocês achariam engraçado, inteligente? Eu também não, mas olha o que o pessoal do festival argumenta: “Se abominamos o preconceito, a intolerância e a discriminação de qualquer gênero, o Mixê Brasil não pode reservar-se ao direito de ser preconceituoso, intolerante e discriminador com o senhor”.

[Neusa Sueli respira fundo]

Só uma coisinha a dizer: ISSO É UM FESTIVAL DE CINEMA SOBRE DIVERSIDADE, NÃO A IGREJA DEUS É AMOR. Existe amor em São Paulo, mas existem limites na vida – e essa piadinha de vocês foi de extremo mau gosto. Não se trata, vejam bem, de preconceito o fato de não chamá-lo para um festival de cinema que busca, na sociedade, abrir espaço para a discussão e o respeito de um tema tão crucial como o da diversidade sexual. Preconceito seria se a gente não curtisse o fato de ele ser peludo e saísse com cera quente na rua para depilá-lo à força. Francamente: cadê a noção que mamãe passou junto com o colostro, senhores organizadores? Vocês golfaram tudo, né?

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Navalhando o Estatuto do Nascituro

Depois, me mandaram uma reportagem sobre um tal de “Estatuto do Nascituro”, perguntando: “E aí, Neusinha [sic], o que você acha?”.

Primeiro: para vocês é “dona Neusa”, eu já disse. Vocês sabem ler, então usem essa técnica que vem se aperfeiçoando na história da humanidade há milênios, por favor.

Bem, voltando. Gente. Gente. GENTE! Tive que ler cinco vezes aquela merda porque não acreditava que fosse verdade – e só de lembrar já me dá palpitação. Depois que a gente fica nervosa, pega a navalha e sai por aí fazendo grafismo na cara das pessoas, somos “vândalas”, “intolerantes”, “incivilizadas”. Não bastasse todo o controle que a sociedade quer ter sobre minha perereca linda (QUE EU DOU PARA QUEM EU QUISER, BEIJOS), também tenho que ler que, caso seja violentada e fique grávida, ainda terei que ser obrigada a dar à luz. Vou dar é a minha mão na orelha de vocês. Onde já se viu?! Copia só a justificativa, sociedade: “Deus sabe o que faz. Deus escreve certo por linhas tortas”. Gostaria de dizer que acho lindo pessoas cujo maior gesto de altruísmo é dar a própria opinião sem ninguém pedir. Jesus Cristo ficaria orgulhoso. Mas não eu. Quem sabe o que faz com a minha xana sou eu, e torta vai ficar a cara desse povo a hora que eu conseguir juntar dinheiro para comprar a passagem na Socicam para ir para Brasília só para sentar a mão neles.

Quando eu era das ruas, vinham lá uns irmãos e umas irmãs querendo salvar a gente da perdição. Olha, eu sempre respeitei aqueles cabelos feios e secos com tranças, aquelas saias jeans ou de brim, e confesso que às vezes até fazia um agrado oral em alguns filhos de Deus de calça cáqui e camisa social da Dourinhos (sou generosa e amigável). Mas eu não ia à igreja deles professar o poder do meu anal giratório [risos tímidos] ou do meu boquete americano, nem tentar salvar aquele povo do cabelo com frizz. Se eles querem erguer a mão e dar glória a Deus, tudo bem, sem problema; agora eu, eu quero mais é que ergam a vara e deixem a glória por minha conta (sou esperta). Resumindo: vamos jogar o Jogo da Vida? Só tem uma regra e ela é bem simples: cada um cuida da sua e deixa a do outro em paz.

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Revolução do Vinagre: para vocês, minha catraca é livre!

Que a polícia aqui em São Paulo é um horror todo mundo sabe. Que eles são despreparados, agressivos, abusivos e desrespeitosos também. Mas o que se viu no mês passado por aqui foi algo da ordem do inominável. Eu normalmente sou nervosa (tomo floral, mas não adianta), e até admito que faço um esforço enorme para não deixar de acreditar no ser humano. Mas está cada vez mais difícil.

A gente tenta ser pacífica, fazer a Julia Roberts em Uma linda mulher, mas acaba saindo Vanessão – e ainda bem. A gente vai aceitando viver meio que numa letargia, até que viram para a gente e dizem: CHEGA. E quer saber? Chega mesmo! Não desci para este mundo para ficar calada enquanto me fodem (sem meu consentimento, que fique bem claro).

Agradeço profundamente aos manifestantes da dita Revolta do Vinagre – aliás, pegaria todxs vocês de graça, juro. Neste corpinho aqui, a catraca é livre, podem vir! Daria para todxs a noite inteira, sem lenço, sem documento (mas com preservativo – sou consciente).

Porque vocês são íntegrxs. Porque não recuam mediante a mediocridade dos discursos, que os acusam e chamam de vândalos, quando, na realidade, aqueles que os proferem é que praticam o maior vandalismo, a maior violência: eles aceitam. Sob o pretexto de proteger (o patrimônio público, a ordem, seus direitos), eles agridem, desvalorizam, desqualificam atos que reivindicam nada mais do que o que é justo: a dignidade. A mesma dignidade que desaparece quando entramos em ônibus e vagões de metrô hiperlotados, a mesma dignidade que perdemos quando pretendem transformar nossa cultura (nossa história) em shoppings ou estacionamentos, a mesma dignidade que perdemos quando a extrema direita ganha espaço no mundo, a mesma dignidade que perdemos quando apanhamos por estarmos lutando por um mundo menos desigual. Alguns de nós até morrem por isso, por nos negarmos a sermos indignos (fiquei emocionada – sou poética – eu, a Adélia Prado e a Simone de Beauvoir, scusi).

Vocês são eu. Em cada gesto, em cada grito. Em cada tapa ou ofensa que levam, e que eu recebo também (e não tenho a mínima intenção de dar a outra face). Cada faixa pendurada em qualquer manifestação que reivindique e exija o respeito à dignidade humana, me escreve, me descreve, sou eu. Isso não me representa: eu sou isso.

O pessoal da revista me deu uma senha para o Facebook, e já percebo que as redes sociais revelam que muitos ali até são “seres”, mas definitivamente ainda não aprenderam a ser humanos. Se algumas pessoas miraculosamente criassem vergonha na cara e tivessem noção (só um pouquinho – sou exigente, mas compreensiva), se se dessem conta daquilo que dizem à noite, deveriam ter vergonha de se levantar pela manhã. Que horror, minha gente: faz a Darwin e vê se EVOLUI! Ou então voltem a ser amebas e vão plainar placidamente no pântano imundo de onde saíram, seu bando de sem-noção!

Axs manifestantes: obrigado por vocês não deixarem (a duras penas) a nossa sociedade morrer. Vocês têm não apenas o meu total apoio, mas também o meu sincero respeito e, sobretudo, a minha maior admiração (vou sortear uma calcinha Valisère para vocês).

À polícia militar de São Paulo: se vier tacar bomba de gás lacrimogêneo, não tem problema, mas se prepare: a gente é durx na queda e tem navalha na calcinha e dentro do sutiã. E ninguém aqui veio ao mundo para passar necessidade!

E se preparem: agora eu fiquei nervosa e nós da Geni vamos começar a organizar a Marcha da Noção, porque está faltando noção no mundo. Se você tem um pouquinho que seja, vem com a gente!

Fiquem atentxs!

1 “Querido”, em francês, para você que não recebe o Espírito Santo e, por isso, não fala línguas.

2 Do latim, de putas ados, ou seja, filhos da puta. Etimologia ajuda bastante.

3 Para xs interessadxs, favor ver este vídeo: http://youtu.be/nD4teWhld1M. Está em inglês, usa o Google translator ou se matricula num curso, sorry.

4 Todas indo para a dermatologista agora para ver se dá para voltar a ser cabeluda!

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Carolina – 4 de julho de 2013 - 5:34

Neusa Sueli! Diva! Quero estar ao seu lado nesta cruzada por noção neste mundo (e pelo fim do frizz também). Sem concessões! Ah, eu levo o creme para pentear.

Betthy – 7 de julho de 2013 - 12:57

Neusa Sueli não me representa, leva-me. Só não leva o creme de pentear pq, senão, não sou nada, ninguém.

Gui – 4 de julho de 2013 - 5:52

HAHAHAHAHAH mto divertido…amei! Disse tudo o q penso! Merda pra geni! 😛

Jaqueline – 10 de dezembro de 2014 - 12:31

Diva. <3

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