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Ao invés de ser um corpo, a pessoa “tem” um corpo, o sonho proprietário do capitalismo primeiro. Por Alan Watts

Publicado em 15/07/2015

 

Ao ler “Na Cadeira com Satã” nas discussões da Geni deste mês,  me pareceu urgente traduzir um texto vi em um zine queer estadunidense, chamado Gentlewomen of California, que teve 12 edições de fotocópia entre 1987 e 1993 em Chicago.

 

Ao pesquisar as frases do texto, que não era assinado, descobri que era um mash-up das idéias presentes no livro A Joyous Cosmology do filósofo inglês Allan W. Watts, que também era teólogo e foi um dos grandes responsáveis pela introdução de conceitos orientais na cultura ocidental. É dele um dos primeiros best-sellers sobre budismo, O Caminho do Zen, de 1957. Watts também ficou conhecido pelo seus experimentos psicodélicos com mescalina, LSD e maconha, sobre os quais escrevia aberta e apaixonadamente. No zine, de maneira muito pertinente, o texto foi diagramado em forma de cruz. Na tradução, mantivemos em destaque as palavras destacadas pela publicação original.

Gui Mohallem

 

 

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Aos poucos vai ficando claro que uma das maiores superstições é a separação entre mente e corpo. Pois o corpo, tomado como algo separado da mente, é um cadáver animado. Mas ao menos a capacidade de descartar idéias de que uma coisa é mental e a outra é material pode ser vislumbrada. A noção de material vs mental é baseada na falsa analogia de que árvores são feitas de madeira, montanhas de pedra e mentes de espírito. O dualismo entre mente e corpo surgiu como um jeito tosco de descrever o poder de controle que um organismo inteligente pode ter sobre si mesmo: uma inteligência consciente que desce de um reino superior e toma posse de um veículo físico. E assim como a separação entre mente e corpo é uma ilusão, também é a submissão do corpo AOS esquemas independentes da mente. Essa ilusão é tão real como a ilusão de pessoas sob sugestão hipnótica. Ou seja, recebida e não questionada. O organismo humano está realmente se frustrando, impedido da autoparticipação por esse modelo entranhado, dicotômico e convencional. Ao invés de ser um corpo, a pessoa “tem” um corpo, o sonho proprietário do capitalismo primeiro.

Nos últimos dois séculos as culturas monoteístas se posicionaram fortemente e manejaram objetos com uma eficiência surpreendente. Nos anos mais recentes, nossa cultura se deu conta de um universo a ser descoberto: as regiões não mapeadas da consciência. Então aparece o que os primeiros defensores do LSD chamavam de quinta liberdade – a independência da mente instruída – para deixar para trás o conhecimento cultural artifactual. A consciência linear é apenas um tipo especial de consciência. Enquanto ela é destilada de si mesma, separada por uma peneira muito fina, existem outras formas potenciais de consciência completamente distintas. Nenhuma percepção de universo na sua totalidade pode ser definitiva se não levar em conta essas outras formas de consciência. Elas impossibilitam um fechamento prematuro de nossas contas com a realidade. O questão oculta é que não podemos funcionar de uma maneira verdadeiramente nova apenas alterando algo tão superficial como a ordem da mente dissociada. O que tem de mudar é o comportamento essencial do organismo.

 

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Nossa língua quase nos obriga a nos expressarmos da maneira errada – como se “nós”, que precisamos estar atentos ao organismo e responder a ele, fôssemos uma coisa separada dele. Infelizmente nossas formas de fala seguem o mesmo desenho da ficção social que separa a vontade consciente do resto do organismo, colocando-a como um agente independente que produz nossas ações. É aí que falhamos em reconhecer o que é esse agente. Não vemos que é uma convenção social, como os intervalos que um relógio produz, como distinto de uma entidade biológica ou mesmo psicológica. Pois a vontade consciente, trabalhando contra o impulso do instinto, é a interiorização das demandas sociais sobre o indivíduo, o eco interno da imagem de sua função ou identidade adquirida de seus pais, professorxs e primeirxs colaboradorxs. É uma ideia de si mesmo imaginária, fabricada socialmente, trabalhando contra o organismo, o eu que é biologicamente maduro.

 

À primeira vista, isso parece ser um dispositivo engenhoso para a manutenção de uma sociedade ordenada com base na obrigação individual. Na verdade, é uma asneira insensata que criou e está criando muito mais problemas do que dá conta de resolver. Na medida em que a sociedade ensina o indivíduo a se identificar com uma vontade controladora separada do seu organismo como um todo, ela simplesmente intensifica o sentimento de separação delx com os outros. A longo prazo, agrava o problema que deveria resolver, porque cria uma personalidade em que uma forte sensação de responsabilidade é acoplada a um intenso sentimento de alienação.

 

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A experiência psicodélica induzida nos possibilita estar tão absurdamente receptivos à lógica não linear que a personalidade começa imediatamente a ser vista como a fabricação que é. Uma riqueza de mundos possíveis segue o rastro dos químicos estimuladores do córtex. Mas o que quer que esteja acontecendo a nossa volta, nossa realidade ainda é um produto sinergético entre interno e externo. Você não “cria sua própria realidade” como alega o misticismo pop, mas você cria a maior parte dela. Sua liberdade é muito mais vasta do que você consegue imaginar. A lição primária a ser aprendida através do estado psicodélico precisa ser dita de formas das mais variadas, e redundantemente, porque a maioria das pessoas simplesmente não consegue entendê-la sem passar pela experiência de modulação cerebral rápida. Aqui está mais uma tentativa de dizê-la de forma simples e direta: nenhuma situação objetiva torna um estado mental inevitável.

 

Tradução de Gui Mohallem

Ilustração: Gunther Ishiyama

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