Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Homofobia eleitoral

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Como políticxs que são contrários a direitos humanos dizem defendê-los – na Venezuela

No começo de 2013, em meio às campanhas eleitorais para a presidência da Venezuela, o então candidato e agora presidente eleito Nicolás Maduro usou, como forma de ataque ao seu oponente, Henrique Capriles, a insinuação de que este seria gay. “Eu, sim, tenho mulher, escutaram? Eu gosto de mulheres”, afirmou Maduro em um comício em Caracas, e em seguida beijou sua esposa à vista de todxs.

Capriles, que não é casado, reagiu dizendo: “Quero enviar uma palavra de rechaço às declarações homofóbicas de Maduro. Não é a primeira vez. Creio numa sociedade sem exclusão, na qual ninguém se sinta excluído por sua forma de pensar, seu credo, sua orientação sexual”.

Esse é um acontecimento emblemático no atual cenário político. Capriles, candidato da direita, defensor de uma política conservadora e excludente, acusa Maduro, herdeiro político de Hugo Chávez e defensor de uma política inclusiva, de homofóbico. E tem razão.

O caso foi usado de maneira também exemplar pela direita reacionária brasileira. Em reunião a portas fechadas, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, já sob a infeliz presidência do homofóbico deputado Marco Feliciano (PSC-SP), aprovou uma moção que repudiava o “comportamento homofóbico” de Maduro. O requerimento da moção foi feito pelo deputado João Campos (PSDB-GO), o mesmo que propôs o projeto de “cura gay” aprovado no dia 18 de junho pela CDHM (o Projeto de Decreto Legislativo nº 234/2011 busca anular resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe psicólogxs de promoverem a “cura gay”).

Mas não é só por isso que esta carta interessa ao Brasil. Nas eleições municipais de 2008, em São Paulo, Marta Suplicy (PT) atacou o candidato Gilberto Kassab (DEM), insinuando que ele não era casado nem tinha filhos. Considerando que a candidata e seu partido foram por muito tempo aliadxs das lutas LGBT, o fato é tão repugnante quanto a declaração da presidenta Dilma Rousseff (dada em 2011, na ocasião do veto a materiais do programa Escola sem Homofobia) de que seu governo não faria “propaganda de opções sexuais”.

Para dar outra visão sobre o acontecido na Venezuela e tentar entender, lá como aqui, os meandros da homofobia política, Geni apresenta a carta aberta escrita pelo coletivo Alianza Sexo-Género Diversa Revolucionaria, partidário de Maduro, publicada em meio à acirrada disputa eleitoral venezuelana.

HOMOFOBIA ELEITORAL

Carta aberta

Resposta a Capriles e orientação a Maduro ante comentário homofóbico

Nós, da Alianza Sexo-Género Diversa Revolucionaria, rejeitamos o cinismo do candidato da direita, que, em sua tentativa desesperada de se aproveitar do caos, levou duas noites desrespeitando nosso luto, ferindo nossos corações patriotas. Fazemos um apelo a nosso presidente interino e próximo presidente eleito, o companheiro Nicolás Maduro, a reativar os três Rs: Revisão, Retificação e Reimpulso, legado do nosso comandante Hugo Chávez, diante dos comentários que foram entendidos como homofóbicos.

Capriles está pouco ou nada interessado na inclusão da diversidade sexual, e ainda menos em romper com o machismo tradicional caribenho. Fiel à sua origem burguesa, considera que tudo pode ser comprado, e que as pessoas valem segundo o que possuem.

“Você quer ser tolerado, quer exercer seu direito a uma sexualidade livre? Então venha, pague minha academia exclusiva de homossexuais e depois volte a me pagar para mostrar seu corpo num cruzeiro exclusivo para homossexuais. Ah, e na volta lembre-se de me pagar novamente no bar. Sim, bar exclusivo para homossexuais, se é que você quer beijar alguém que você gosta. E não se preocupe porque não se misturará com malandros, com loiros falsos, com chavistas violentos. Nossos preços são muito altos para que somente poucos, como você, possam pagar.”

Essa é a ideia de “inclusão” da direita venezuelana. Uma tolerância crua em função de um interesse capitalista. Não é uma questão de exclusão e opressão herdadas da invasão europeia que instaurou o machismo como forma de controle social. Não é um assunto que tenha conexão com a emancipação dos povos nossoamericanos. Sequer é uma reclamação por direitos humanos. É, única e exclusivamente, uma questão que organizará o mercado. O mesmo mercado que nos trouxe 40 anos de democracia de papel e 30 anos de uma ditadura gomecista [referente a Juan Vicente Gómez, ditador da Venezuela de 1908 a 1935] para o controle do petróleo pelas transnacionais.

Pouco importa se Capriles é ou não é homossexual, porque, se fosse, teria dinheiro de sobra para pagar quantos cruzeiros e festas necessitasse para viver no armário. E, se não é, provavelmente o assunto somente lhe interessará quando um de seus amigos proponha algum negócio. De qualquer maneira, nem em suas campanhas para ser prefeito de Batura, governador de Miranda, nem nessas duas derrotas presidenciais fez alguma proposta para combater a homofobia que efetivamente tortura o cotidiano de companheiras e companheiros homo, trans e bissexuais. O único momento em que a palavra homossexual saiu de sua boca foi para atacar o governo. Porque isso é Capriles, uma voz do nada, que somente critica, desdenha, desqualifica, mas não propõe, não contribui, não constrói. E é por isso que está em crise. O Comandante foi à eternidade, e Capriles ficou sem referências para uma identidade, um pensamento, um algo, o que quer que seja.

Em contrapartida, esta Revolução bolivariana, humilde como a planejou Hugo Chávez, segundo as ideias de Simón Rodríguez e Paulo Freire, está plena de educação, de debate político, de poder popular. Plena para discutir, refletir e avançar rumo à felicidade social, que é o Socialismo do século 21. Houve e seguirá havendo erros. Nesta oportunidade, erros de Nicolás, mas antes foram de outrxs. E de todxs, incluindo o próprio Comandante. Mas não importa, porque como bem explicou [Chávez] na sua ultima entrevista, feita por José Vicente Rangel, parafraseando Nietzsche, “a verdade está no erro”.

Esta Revolução tem todas as condições para melhorar a partir dos erros e aprendizagens e avançar, avançar e avançar. Ou por acaso não foi um erro permitir à direita nos levar ao golpe de Estado de 2002? E aqui estamos, onze anos depois, como povo invicto, e com seu líder e pai invicto, imortal.

Basta de cinismos Capris. Basta de insultos. Este povo digno deve ser respeitado, e isso será demonstrado, outra vez mais, dia 14 de abril [dia da votação].

Somente juntxs somos Chávez. Hasta la victoria siempre

VIVEREMOS E VENCEREMOS!

12 de março de 2013

Tradução: Giovana Bonamim

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