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resenha

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Melting Away: quando a dura realidade da morte torna-nos todxs iguais

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A 6ª Mostra Audiovisual Israelense, que aconteceu em São Paulo nos dias 3 a 9 de junho de 2013, trouxe uma agradável surpresa em termos de temática para o mundo LGBT. Um dos grandes destaques foi o filme Melting Away, escrito por Billy Ben-Moshe e dirigido por Doron Eran. Por Márcio Aparecido da Silva de Deus

Melting Away chegou às telas israelenses em 12 de janeiro de 2012 e é o primeiro filme na história do cinema israelense que trata de pais tendo de lidar com umx filhx transgênerx. O enredo foi concebido após um atirador disparar contra jovens no Centro de Juventude LGBT de Tel Aviv em 2009 – e o choque que Doron Eran, diretor, e Billy Ben-Moshe, roteirista, tiveram ao ouvir que vários pais se recusaram a visitar xs filhxs no hospital.

 

O filme começa com uma discussão entre Shlomo, um pai rígido e conservador judeu, e Assaf, seu filho adolescente, que ama as artes plásticas e a vida noturna com os amigos. Shlomo discorda do estilo de vida que Assaf vem levando. Na visão do pai, ele deveria trabalhar numa empresa, esquecer as artes plásticas, arranjar uma namorada e ter mais responsabilidade.

 

Num dos rompantes do pai, Assaf sai com seus amigos e o pai começa a quebrar algumas das pinturas feitas pelo filho, até se deparar com vestimentas femininas que ele deduz serem do filho – o que o deixa furioso. A fim de dar uma lição no adolescente e forçá-lo a viver da forma que Shlomo achava correto, ele troca todas as fechaduras de casa, deixando o Assaf à sua própria sorte nas ruas de Tel Aviv. Não estando de acordo, mas não fazendo nada para impedir, Galia, a mãe, se anula diante da decisão do marido.

 

Anos depois, a única notícia que elxs têm de Assaf é que um dos melhores amigos dele diz que ele foi procurar trabalho na Austrália. Por um infortúnio do destino, Shlomo é acometido por um câncer, o que lhe deixa pouco tempo de vida. Galia, no intuito de reaproximar pai e filho, contrata Eytan, um detetive, para encontrar Assaf, mas, para surpresa do detetive, ele não encontra o filho pródigo, mas a linda e talentosa cantora Anna, que faz shows numa casa noturna gay.

 

A marcação de gênero chama atenção nesse encontro do detetive com Anna. Eytan insiste em tratá-la com adjetivos e pronomes masculinos, e ela o corrige o tempo todo. No fim, ela é informada de que o pai está enfermo, em estado terminal, mas isso não a demove (pelo menos aparentemente) de não querer vê-lo. Quando Eytan vai prestar contas para Galia, ele diz que encontrou Assaf, mas que ele se recusava a ter qualquer contato. O detetive, entretanto, omite a informação de que Assaf era agora Anna.

 

Alguns dias depois, Anna se apresenta no hospital como enfermeira indicada pelo plano de saúde para cuidar de Shlomo. Por meio dessa mentira, ela começa uma reaproximação com o pai, que se torna bem atribulada, pois Itzik, seu tio, irmão mais jovem de Shlomo, interessa-se por ela e não perde uma oportunidade de dar em cima da moça, o que a deixa desconfortável e numa situação bem complicada.

 

Conforme o envolvimento de Anna com seu paciente especial vai se estreitando, sua dificuldade para manter seu passado oculto torna-se cada vez mais difícil. Porém, parece que ela se dispõe a enfrentar todas essas adversidades para estar ao lado do pai em seus últimos dias.

 

Até que chega o momento de Anna deparar-se com sua mãe, que a reconhece de imediato e acaba contando tudo para Itzik. Ele, sem pensar duas vezes, vai até o apartamento de Anna. Após algumas agressões verbais, ele parte para a violência física e atira a sobrinha no chão num ímpeto de espancá-la, dizendo que havia tratamento para a “doença psicológica” que ela sofria e que era para ela nunca mais chegar perto do seu irmão. Anna refuta dizendo para Itzik observar quem deles dois (Anna ou Itzik) é que precisa de tratamento. Ele vai embora com essa pergunta na mente. No dia seguinte, ao vê-la no hospital, ele a trata de maneira mais cordial, pois parece que se dá conta de que a presença dela fazia bem ao seu irmão. Num outro momento, Galia pergunta para Itzik o que ele achava de toda aquela situação. Ele diz: “Você deu a vida ao Assaf. Você a deu a ele! Agora essa vida é dele, ele faz dela o que quiser”.

 

O filme traz à tona discussões como gênero, homossexualidade, aceitação, família, dinheiro e inserção social numa sociedade israelense conservadora – mas por que não pensarmos também no nosso contexto brasileiro?

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Alguns pontos baixos do filme são os recursos emotivos, como música sentimental que sublinha as partes mais chorosas do filme, como a briga do pai com o filho; o fato de a música que Anna canta ser sempre triste e não ter nada de sexo, diferente das trans mais antigas, talvez para promover a identificação; e a escolha de uma mulher cisgênero para fazer o papel da trans, o que deixa várias perguntas no ar: não haveria uma atriz trans que pudesse dar vida à personagem na tela? Ou será que isso tem a ver com uma aclimatação midiática – uma mulher cis fazendo esse papel seria mais palatável ao público conservador heteronormativo? É preciso lembrar que a atriz Hen Yanni foi premiada pela performance. Será que no universo israelense uma atriz trans também receberia tal premiação?

 

O universo gay também é pouco explorado. Há dois amigos da moça que formam um casal. Numa das cenas, vemos pela TV que a Parada LGBT de Tel Aviv está acontecendo. À mesa estão Anna, seu melhor amigo e o namorado dele, a mãe do melhor amigo está servindo comida, mas nenhum/a delxs entra numa discussão sobre o evento para não desagradar a mãe do amigo de Anna. De certo modo, isso também representa como a população israelense trata o público gay em Tel Aviv, fingindo que xs homossexuais não existem. Poderíamos entender que isso é uma crítica, mas também que é uma estratégia para tornar a obra mais vendável.

 

Alguns pontos altos do filme são o uso das ações em vez das falas: por meio da representação, o filme evidencia que as atitudes que o ser humano tem para com o seu semelhante dizem mais que mil palavras. Também se destacam a trilha sonora, que inclui clássicos como “Danny Boy”; as atuações; a delicadeza com que cada tema é tratado; e a pergunta que fica para o público: será que temos de esperar momentos críticos, como um estado terminal num hospital, para percebermos que somos todos seres humanos e merecemos respeito independente das nossas escolhas e orientação sexual?

 

Para saber mais:

http://www.imdb.com/title/tt1820531/

http://www.culturajudaica.org.br/2087/6%C2%AA-mostra-audiovisual-israelense

http://www.youtube.com/watch?v=nAvpGONcZig

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