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resenha

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Não é uma revolta. É uma revolução!

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A presença do corpo trans e o mais recente filme de Xavier Dolan. Por Ítalo Damasceno

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As pessoas numa rua encaram algo que está passando. Para quem vê o filme, a sensação é que elas olham com desconfiança para o espectador. Logo em seguida, vê-se uma mulher andando e os olhares são mais inquisitivos e de gracejos. Algumas chegam a desviar o olhar. Na primeira cena do filme Laurence Anyways (2012), Xavier Dolan nos coloca na incômoda situação de sermos alguém que causa estranhamento ao passar. O que vem em seguida, ao longo das duas horas e 48 minutos de película, é o processo até a completa transformação de umx transexual.

Laurence é o terceiro trabalho da carreira do prodigioso cineasta canadense de apenas 24 anos. Dolan já foi premiado em Cannes por seus dois filmes anteriores – Eu matei minha mãe (2009) e Amores imaginários (2010), ambos também focados nos conflitos da sexualidade, entre mãe e filho, no primeiro, e entre dois amigos, no segundo –, dos quais ele foi roteirista, diretor e ator principal. Seu novo filme é um desafio, pois é o primeiro em que o protagonista não tem a idade do cineasta.

Laurence Alia é um professor de literatura de 35 anos, no ano de 1989, e, apesar de ser casado com uma mulher, dá sinais de que gostaria de estar num outro corpo. Um corpo feminino.

Ao iniciar o processo, sua esposa, Fred, entra em completo choque; contudo, decide ficar ao seu lado, pois o ama e acredita que ele corresponde a esse amor. Laurence ainda precisa enfrentar a total falta de noção da reação de seus pais e da escola onde trabalha – esta, sem dúvida, uma das mais duras e irremediáveis. Desde a primeira vez em que Laurence vai trabalhar de vestido, até a reunião da direção sobre como proceder em relação a ele, tudo tem uma aura de constrangimento. Um forte sentimento de que o que estaria acontecendo com Laurence diz respeito apenas a ele e que, por isso, não seria necessário que ele dividisse isso com ninguém (logo, que era preferível que ele se retirasse).

Essa situação reflete a forma como muitxs transexuais, travestis e transgêneros (pessoas que causam maior desconforto perante os olhos da sociedade por ter questões sexuais que se manifestam na sua aparência física) são tratadxs em seu ambiente de trabalho. Quando possível, elxs são designadxs a fazer serviços nos quais não é necessário lidar com o público, pois há grande possibilidade de conflito com alguém que não compreende o processo ou a nova condição em que se encontram. No caso de Laurence, seu refúgio é a literatura. No entanto, mesmo tendo a capacidade de realizar as tarefas que antes já executavam, por conta de uma questão inteiramente pessoal, essas pessoas são obrigadas a viver fora das vistas dos demais e, principalmente, das crianças, para que estas não sofram uma “influência maléfica” – como se fosse possível alguém fazer de outra pessoa uma trans ou qualquer outra das categorias LGBT.

Um fato bem comum é elxs serem aceitxs em trabalhos “típicos”, como maquiadorxs, cabeleireirxs, bailarinxs, ou outras áreas em que a sociedade preconceituosa ache que elxs se “enquadram” melhor. A condição sexual jamais poderia determinar o seu talento profissional ou sua capacidade para esta ou aquela área do conhecimento.

Na contramão dessa história, em maio deste ano, a transexual Laysa Carolina Machado foi reeleita diretora de uma escola estadual no Paraná. E quer uma notícia melhor? Ela foi reeleita pelo voto democrático de pais, funcionários, professores e alunos. Esse é o fato inegável de que a sexualidade de alguém não pode ser entrave ao seu desenvolvimento pessoal e profissional.

A palavra final sobre o que vai acontecer daqui por diante com essas pessoas é dx próprix Laurence, que, ao final do filme, às vésperas da chegada dos anos 2000, em uma entrevista, ao lhe perguntarem: “Está confiante com a próxima década?”; com a sabedoria de quem passou por um longo processo para, finalmente, estar bem consigo mesmx, não titubeia em dizer: “Confiante não. Determinada”.

Laurence_Anyways_cartaz

 

Ítalo Damasceno é advogado. Tem 29 anos,
é piauiense de nascimento, mora em Brasília e
tem conto publicado no livro
Loveless, da editora Escândalo. 

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Ben Oliveira – 2 de julho de 2013 - 16:40

Ítalo, adorei o seu texto sobre o filme. Fiquei com muita vontade de assistir. Já vi Os Amores Imaginários e Eu Matei a Minha Mãe, ambos filmes são fantásticos! Apesar de adorar esses filmes culturais, preciso confessar que nem todos (para não dizer nenhum) chegam até a minha cidade.
Parabéns pela colaboração!
Abraço

Ìtalo Damasceno – 3 de julho de 2013 - 0:44

Ben, eu também venho de uma cidade que esses filmes não chegavam. Mas com a internet todo mundo tem a chance de vê-los. É só ter vontade de procurar (como você fez).

Valeu pelo comentário.

Abraço pra ti

Tales – 5 de julho de 2013 - 10:26

Ítalo, fiquei com vontade de ler mais. Essa relação que tu traz no final com a Laysa dá um contraponto mais do que necessário ao aparente pessimismo do filme. Preciso colocar “Amores imaginários” e “Laurence anyways” urgentemente na minha lista de filmes a assistir. Aliás, “Eu matei minha mãe” deve voltar a ela.

Bem legal =)

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