Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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“Nessa rua só tem viado”

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Uma rua pode ser gay? Os limiares da rua Frei Caneca, em São Paulo. Por Bruno Puccinelli

ACADEMICOS

“Nessa rua só tem viado.” Nem sempre é isso que se ouve na rua Frei Caneca, região da avenida Paulista, próxima ao centro da cidade de São Paulo, mas algumas dessas falas marcaram a pesquisa que realizei durante o mestrado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A premissa era: como o contexto de atribuição de uma identidade sexual a um espaço na cidade (a rua Frei Caneca) seria percebido e articulado pelas pessoas que lá estavam – a passeio, de passagem, para diversão, para beber, para paquerar, para ir à danceteria A Lôca? Como essas pessoas se identificavam? De onde vinham e que cidade articulavam para concordar, ou não, com a atribuição da alcunha de “rua gay” da Frei Caneca?

A pesquisa rendeu frutos que escaparam a essa premissa e indicam uma cidade móvel e relacional. Mais do que fixar a tal identidade gay em sujeitos e espaços, o trabalho de campo mostrou como esse mesmo espaço – tido como fixado, concreto – se move e muda. Muda também em mapas de guias dirigidos a um público homossexual masculino de poder aquisitivo médio (autoidentificado como gay) e em mapeamentos de localização de novos e grandes edifícios, residenciais em sua maioria. Qual rua de lá surgia? Que cidade aparecia?

É sexo e é cidade. É sexualidade produzindo cidade e a cidade (os espaços urbanos) produzindo sexualidades liminares. Mas isso não está (e nunca esteve) isento de conflitos, desde a proposta da Associação GLS Casarão Brasil de tornar a rua “oficialmente gay” (em 2008), o que mobilizou uma série de atores a afirmar discursos legítimos ou não sobre a rua: quem poderia afirmar se a rua Frei Caneca era homossexual ou não? Quem poderia ser autorizado ou não a circular na rua caso ela se tornasse “oficial” e sexualmente identificada? Mais do que a conformação de um espaço exclusivo para gays ou outras pessoas identificadas como homossexuais, o que se tornou patente foi a intenção de promover um incremento empresarial na região.

O curioso é pensar que esse incremento ocorre já há pelos menos uma década, com ou sem “rua gay” e se apropriando dessa ideia generalizada da presença maciça homossexual. Um marco disso é a apropriação do Shopping Frei Caneca por um público assim identificado, o qual também não está – e nunca esteve – isento de conflitos nesse espaço de compras, como a expulsão de dois homens que trocavam afeto das dependências do shopping em 2003. De lá para cá, o número de bares, casas noturnas, lojas e clubes de sexo só aumentou na região.

Há de se esclarecer um detalhe: quando me refiro à rua Frei Caneca como ponto da pesquisa não a separo das ligações e contextos que a conectam com outros espaços da cidade, como a avenida Paulista e a rua Augusta. Essa última, principalmente, oferece um amplo espectro do que ocorre na Frei Caneca, mas não a define nem a engloba. A dinâmica ocorrida e observada possui detalhes que a expandem para além dessa mesma região. Um exemplo mais patente e concreto é dinâmica noturna na esquina com a rua Peixoto Gomide, onde está localizado o “Bar d’A Lôca” (oficialmente To-Ze).

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Feias, pobres e cagadas”

Cheia nas noites de fim de semana, a movimentação do bar se contrapõe à ocupação da rua Peixoto Gomide (que fica cheia de “moleques”, segundo a opinião de um frequentador do Bar d’A Lôca) e à ocupação de outros bares na esquina oposta (em que, segundo outros frequentadores, a presença é em sua maioria de pessoas “feias, pobres e cagadas”, “viados e bichas” que não se encaixam na categoria “gay”).

“Sapatão quase não tem aqui”, diz Cássio, morador da rua Paim, a alguns metros do Bar d’A Lôca, “mas eu sou gay”. O bar é gay então? “Nessa rua só tem viado”, fala Mateus, companheiro de apartamento de Cássio. Segundo informações de sites e outros meios de comunicação direcionados a gays, de fato, a presença gay é patente. “É só olhar na rua, não precisa nem perguntar”, afirma categoricamente um empresário local. Mas a fala de Cássio, mais acima, já mostra que essa ideia mais generalizada de (homo)sexualidade permitida não é permissiva: se sou “gay” estou aqui, neste bar, e não naquele outro a alguns metros, onde só tem “viado”. E se essa mesma pessoa estivesse nesse outro “bar viado”, a identificação mudava?

Numa outra situação, numa conversa num bar mais próximo ao shopping (o Frey), a situação muda. A presença de alguém ali conferia-lhe automaticamente a identificação como gay, enquanto os outros seriam os tais viados, bichas e “cagadinhos”. O Bar d’A Lôca, mesmo tido como um “bar gay”, não era o mesmo bar gay que o Frey. Lá estavam aquelas pessoas que os frequentadores do Frey consideravam indesejáveis, desinteressantes, desiguais. E, nesse movimento de categorizar a si em contraposição a um outro suposto e distante, aparece também o periférico, visto como a apropriação de um outro espaço da cidade, caracterizado pela presença de pessoas identificadas de diferentes formas como homossexuais: a região da República-Arouche. Mais próxima ao centro de São Paulo, essa região é historicamente (re)conhecida pela grande quantidade de bares e outros serviços dirigidos ao público LGBT, além de também ser conhecida por ter um perfil de público mais popular, de poder aquisitivo mais baixo e morador de bairros distantes dos bairros de classes média e alta paulistanas.

A própria rua Frei Caneca se torna, assim, aproximada e distante de uma “rua gay”, aproximada e distante de sexualidades legítimas. A depender da localidade de quem fala, é centro, está no centro, faz parte do centro; no caso oposto, se distancia desse mesmo centro e, ainda assim, não se aproxima de seu bairro oficial. A Frei Caneca é relacional e relacionada e, tal como identidade à deriva, se multiplica e divide categorizações no que tange à definição do desejo de quem fala. Desejo esse que perpassa o que se quer ser, o que se pensa ser e o que se quer que outros sejam. Nessa rua não tem só viado. Mas ela também está longe de ser uma “rua gay”.

Bruno Puccinelli é mestre em ciências sociais pela Unifesp e
doutorando em ciências sociais pela Unicamp. Contato: monobruno@hotmail.com.

A seção Acadêmicxs publica relatos de pesquisas acadêmicas sobre gênero e sexualidade. Quer contar a sua pesquisa também? Escreve pra gente em geni.revista@gmail.com.

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Sergio Rodrigues – 1 de julho de 2013 - 18:42

Muito bom. Gostei o texto

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