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O CÉRVIX DA QUESTÃO | O amor dos objetos

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Objectum Sexual é uma orientação sexual como qualquer outra. Por Clara Lobo

AMOR AOS OBJETOS (1)

“Eu sou uma mulher; esta é uma ponte. E, apesar de nossas vastas diferenças, estamos verdadeiramente apaixonadas uma pela outra.” Essas palavras abrem o documentário Married to the Eiffel Tower, que retrata a vida de três mulheres que se apaixonam e mantêm relações amorosas e sexuais com objetos.

Hoje em dia, menos de 50 pessoas no mundo se identificam como Objectum Sexuals. A maioria esmagadora é feminina. Há pelo menos três homens trans (nascidos mulher), uma pessoa de gênero neutro (nascidx mulher) e dois homens biológicos. Estes últimos fazem parte de um subgrupo chamado mechasexuals, pois se relacionam apenas com objetos motorizados. Xs Objectum Sexuals amam desde objetos pequenos, como uma espada ou um arco, a arranha-céus e outras grandes construções. Não se trata de parafilia ou fetichismo; trata-se, antes, de uma relação amorosa entre duas partes, como as que existem entre humanos, em que o encontro se dá bilateralmente: há a mútua atração, a corte, o apaixonamento, a relação.

Assistindo ao documentário, não pude deixar de me encantar por duas das personagens retratadas: Erika Naisho e Amy Wolfe. Naisho – que se casou com a Torre Eiffel – foi abandonada pelos pais e possui uma história de múltiplos abusos sexuais na infância e adolescência. Amy tem o diagnóstico de síndrome de Asperger, uma forma de autismo de alta funcionalidade, e também passou por dificuldades familiares. As duas expressam sua afeição pelos objetos-amantes de forma absolutamente comovente.

Naisho fala sobre o muro de Berlim: “Sinto que ele foi criado, construído e depois rejeitado pelas pessoas que o fizeram. Sinto o mesmo sobre minha própria vida. Não entendo como algumas pessoas podem trazer alguém ao mundo – como uma criança ou um objeto – e não o amar. Como alguém pôde me trazer ao mundo e não me amar?”. A mãe de Amy afirma: “Ela acredita ter nascido assim, mas estou convencida de que tudo o que aconteceu em sua vida a fez ficar assim. Ela sabe que esses objetos não a machucarão, não retrucarão, não a ameaçarão. Ela se sente segura com eles”.

É fácil psicologizar: essas duas mulheres que, de alguma maneira, foram tratadas de forma desumana, coisificadas, resgatam seu amor e dão vida a objetos que, algum dia, foram sua única companhia, sua única proteção. Seria prova da incrível capacidade humana de amar, cega para todo tipo de preconceito: o objeto pode ser feminino ou masculino, velho ou novo, feito de madeira ou de concreto, estático ou móvel. No entanto, por mais que a explicação psicológica seja atraente, o que Amy, Naisho e as outras Objectum Sexuals afirmam é outra coisa: elas possuem uma orientação sexual muito rara, que a maior parte das pessoas não é capaz de entender por não saber enxergar “energia” ou alma nos objetos. “Ser O.S. não é diferente de ser homossexual. É algo que está no circuito de nossa mente desde o dia em que nascemos. Não é uma escolha, nem é algo que possa mudar ou ser consertado”, lê-se no site oficial da comunidade.

AMOR AOS OBJETOS (2)

Orientação sexual ou não, é comovente ver como essas mulheres encontram o amor em locais onde nunca procuraríamos. Para se referirem a seus/suas amantes, elas usam pronomes femininos e masculinos, mesmo em inglês. Segundo Naisho, usar o it seria como negar-lhes sua atividade interna, sua alma; seria tratá-los como coisas, things.

Pode-se estimar que cerca de 30% a 40% das Objectum Sexuals possuam alguma forma de autismo e 20% tenham sofrido abusos sexuais na infância. Apesar de ser uma incidência muito alta quando comparada aos números da população em geral, a maior parte delas não se enquadra em nenhum dos dois casos. É importante notar também que, dentre as que foram molestadas, a maioria descreve a sua atração por objetos como anterior aos abusos sofridos.

Taxado de distúrbio psicológico e motivo de riso fácil, o amor dessas mulheres por suas/seus amantes é tão real quanto o seu, o meu, o nosso. Num mundo onde as relações humanas são tão complicadas e permeadas por tantas questões (e de tantas ordens!), confesso que invejo o sentimento profundo e puro de enlevo que essas relações trazem às Objectum Sexuals. E me faz pensar se não estamos perdendo alguma coisa no mundo, algo mágico e inefável, por não sabermos reconhecer o que essas mulheres acreditam ser óbvio: que objetos, longe de serem inanimados, são sujeitos, capazes também de amar.

Para maiores aprofundamentos, o site oficial da Objectum-Sexuality International: http://objectum-sexuality.org

Abaixo, o documentário no Youtube:

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