Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Por que me afano do meu país

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As fardas e os fardos do Brasil. Por Marcos Visnadi

“Bandeira do Brasil
Ninguém te manchará
Teu povo varonil
Isso não consentirá
Bandeira idolatrada”

– Canção Fibra de Herói do Exército Brasileiro

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O terror dos meninos de 18 anos, ao menos o meu, o de muitos: sua vida será interrompida, sequestrada, submetida a inúmeras horas de trabalhos forçados, serviço forçado a uma instituição (a várias, que são uma só) na qual você não acredita: a pátria, a guerra, a farda, a virilidade.

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A história na família é que meu pai fez questão de servir o Exército, meu avô era amigo de um general ou o que o valha e podia tê-lo livrado. Mas meu pai bateu o pé, calçou a bota e serviu porque quis. Nunca cheguei a saber o porquê dessa opção. Eu e ele pouco conversávamos. Entre as poucas histórias que conheço do meu pai, estão a obrigação de beber sangue de galinha durante um treinamento e as várias prisões por insubordinação, beberagem, vadiagem, o que o valha, que ele teve durante o serviço militar. Também há uma foto em preto e branco: meu pai sorrindo e sem barba, novinho, com um amigo agarrando-o por trás, também sorrindo, segurando um canivete contra o seu pescoço.

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A vitória da Prússia contra a França em 1871 fez o modelo prussiano de alistamento obrigatório ser adotado por vários países, sinônimo de sucesso. Além de inflar as frentes de bois de piranha, o sequestro de todos os homens jovens, independentemente de origem social e região, criava uma impressão de unidade nacional. Mesmo em tempos de paz entre países, todo homem é um soldado em repouso. Pronto pra erguer uma arma dura, um cano longo e explosivo, ferir quem se opuser.

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Outra fórmula bem-sucedida: os bois de piranha são geralmente recrutados entre a população mais pobre. No documentário Farenheit 9/11, Michael Moore mostra que jovens negros pobres sem sonho de futuro se alistam como esperança, enquanto os congressistas brancos engravatados se recusam a enviar seus filhos para a guerra. Isso explica também a face da Polícia Militar brasileira.

Diz o deputado estadual Major Olímpio (PDT-SP), em entrevista à Ponte: “Os salários que são pagos à polícia não são suficientes para atrair indivíduos que tenham oportunidade diferenciada de formação ou a possibilidade de ganhos. São salários miseráveis. Então, ouço [queixas] de todos os cantos do estado, de todas as modalidades do serviço policial. Nas periferias, o policial sente mais o abandono. O que era orgulho virou a angústia do pai e da mãe. Eles não veem a hora de o filho passar no serviço público e sair da polícia. É desesperador”.

No último concurso aberto para soldado da PM em São Paulo, em abril deste ano, o salário inicial prometido era de R$ 2.706,10. No mesmo mês, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) calculou que o salário mínimo necessário, para que uma família pudesse viver na capital do estado, deveria ser de R$ 3.019,07.

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Em junho de 2012, a Polícia Militar do estado de São Paulo contava com 93.918 policiais (aproximadamente 20% do total de PMs do país), o que dá, mais ou menos, um PM para cada 500 habitantes.

Essa distribuição, no entanto, assim como a distribuição de renda brasileira, é bem desigual. No primeiro protesto paulistano de 2014 contra a Copa, em 22 de fevereiro, estima-se que cerca de 1.500 manifestantes tenham sido reprimidos por 2.300 PMs. Quase dois policiais por habitante.

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Massacres de revoltas populares são simbolizados por pelo menos três das 18 estrelas do brasão da PM de São Paulo (Canudos, a Revolta da Chibata, a Greve de 1917). A 18ª estrela simboliza a “Revolução de Março”, também conhecida como o golpe de Estado de 1º de abril de 1964.

O brasão da PM do Rio de Janeiro possui a sigla G. R. P., “Guarda Real da Polícia”, sob a coroa do rei. O Brasil não tem realeza desde 1889.

O brasão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro é a famosa, ameaçadora e caricata faca na caveira.

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A manutenção da ordem só é possível para quem acredita que há ordem. A obediência inconteste é das principais características do bom soldado. Para o êxito do exército, é fundamental o “adestramento [sic] capaz de transformar homem, tropa e comando – desde os escalões elementares – num conjunto harmônico, operativo e determinado no cumprimento de qualquer missão”.

A página do Exército Brasileiro também cita, na Síntese dos Deveres, Valores e da Ética do Exército: “Patriotismo – amar à Pátria – História, Símbolos, Tradições e Nação – sublimando a determinação de defender seus interesses vitais com o sacrifício da própria vida.”

Que adestramento é esse, capaz de fazer com que alguém sublime a defesa de sua própria vida?

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“Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão”

– Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores”

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O exército é o braço armado do Estado contra quem vem de fora. A polícia é o braço armado contra quem vem de dentro.

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Segundo levantamento (pouco confiável, já que os dados públicos escamoteiam a violência estatal) do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2012, cinco pessoas foram assassinadas diariamente pelas polícias civis e militares do Brasil.

Segundo reportagem da Ponte, só a PM de São Paulo matou mais de 10 mil pessoas entre julho de 1995 e abril de 2014. Para dimensionar o fato, aponta-se que, de 2008 a 2012, a PM paulista assassinou 9,5 vezes mais do que todas as polícias dos Estados Unidos juntas no mesmo período.

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Os Estados Unidos possuem a maior população carcerária do mundo. O Brasil fica em quarto lugar.

Nos últimos 20 anos, a população brasileira cresceu 36%. O número de pessoas presas aumentou 403,5%.

Em 2012, 93,8% dos presos brasileiros eram homens.

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As mulheres só passaram a ser admitidas nas instituições de segurança pública, gradualmente, a partir da década de 1950. Em 2000, Roraima foi o último estado a permitir que mulheres fizessem parte de sua Polícia Militar (criada em 1975).

Trechos de depoimentos recolhidos do estudo “Mulheres nas instituições de segurança pública” (2013), do Ministério da Justiça:

“O meio militar é um meio de natureza masculina mesmo, a gente sente uma certa dificuldade dentro da corporação (…), sempre nos colocaram na parte administrativa, no telefone, porque achavam que a mulher só servia para isso.”

“No meu estado (GO) a polícia sequer tem coletes balísticos para todos os policiais civis, imagina se teria coletes específicos para mulheres.”

“Há um costume entre os policiais homens de fazerem comentários maliciosos de cunho sexual, tanto em referência a mulheres que frequentam a delegacia quanto às mulheres que aqui trabalham.”

“A gente pediu [pra ficar na mesma turma] mas escutou ‘não, duas mulheres são dois [homens] a menos…’. Caramba, são dois a menos! Como assim!?”

“Palavras de um superior hierárquico: ‘Mulher policial, ou é piranha ou é sapatão’.”

“As minhas experiências dentro da polícia são desagradabilíssimas com relação a ser mulher, como policial nem tanto, mas como mulher eu posso discorrer sobre várias histórias tanto minhas quanto de minhas amigas.”

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O documentário The Invisible War estima que pelo menos 30% das mulheres que servem o Exército dos Estados Unidos tenham sido, estejam sendo, estupradas.

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Nomes de algumas páginas no Facebook, mapeadas em pesquisa sobre admiradores de Polícias Militares feita pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura:

Somos esposas de policiais

Sangue militar

Sobre guerra

É faca na caveira

Quem não gosta de polícia é bandido

Fardados e armados

Eu odeio criminoso raça do caralho

Eu sou caveira

Anjos guardiões

Eu oro pela PMESP

Polícia unida jamais será vencida

PMs de Cristo

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O documentário Jesus Camp mostra um acampamento religioso nos Estados Unidos que, com uma retórica militar, educa crianças como soldados. Nessas comunidades, acredita-se que o país esteja em guerra civil entre cristãos e o resto da população.

No sermão “Guerra espiritual: como vencê-la”, o pastor Silas Malafaia diz que Satanás está em guerra contra cada habitante da Terra. Um dos níveis dessa guerra é o nacional: “Pornografia, corrupção, adultério, homossexualidade, satanismo, todo tipo de mazela social, miséria, desgraça, assassinato, tráfico de drogas. Satanás trava uma batalha contra as nações”.

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“Como se identifica um exército?

A caracterização de um exército segue normas rígidas de obediência incondicional, disciplina, ordem, respeito, hierarquia e submissão.

Num exército, todos têm de submeter-se às suas regras, do maior ao menor, sem exceção.

Se no exército de um país exige-se rigorosa disciplina, imagine no exército do Senhor dos Exércitos!

Todos têm de ter o mesmo Espírito, o mesmo Caráter da Justiça e da fé.

Que, conduzidos pelo Senhor dos Exércitos, avançam contra os exércitos da injustiça – o inferno.

Não há como ficar de fora dessa guerra;

Não há como se excluir dela.

Todos, sem exceção, estão de um lado ou de outro.

Quem não faz parte do exército do Senhor dos Exércitos, o faz do exército inimigo.

Ou é com o Senhor Deus dos Exércitos ou é contra Ele.”

– Do site do bispo Edir Macedo.

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(Lembro que, criança, eu tinha uma camiseta que dizia: Jesus, rei dos exércitos. Na igreja, nós cantávamos músicas que louvavam a guerra. “Nós somos jovens, jovens, jovens / Somos o exército / O exército de Deus.” Na escola, eu frequentemente me isolava das outras crianças, que eram católicas, na maioria. O mundo se dividia entre quem era de Deus – o que não incluía as crianças católicas – e quem era do mundo – o que não me incluía.)

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As retóricas autoritárias se juntam, se sobrepõem, se favorecem. Na última convenção do Partido Social Cristão, em 27 de junho, Dr. Rey, cirurgião plástico famoso na TV e que vive em Beverly Hills, recém-filiado ao partido, candidato a deputado federal por São Paulo, tirou uma selfie ao lado do pastor Marco Feliciano e do militar Jair Bolsonaro. Simbolizados na foto, em sua forma mais caricata e barulhenta, estão o culto ao corpo medicalizado financiado pelas corporações midiáticas, o fundamentalismo religioso, o autoritarismo militar.

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A última coisa que meu pai me disse antes de morrer foi um pedido de desculpas. Eu tinha 21 anos. A única vez que eu me lembro de ver meu pai chorar, acho que aos 8 anos, ele me perguntando por que eu não gostava dele. Não lembro o que respondi, se é que respondi alguma coisa. Talvez parte da resposta esteja neste texto. Na verdade, eu não o vi chorar, exatamente. Ele usou óculos escuros o tempo todo.

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“Por mercê de Deus

Ei-los que partem! Na paz, na guerra
Brasil Império, Brasil República
Seus passos deixam, fundo na terra
Rastro e raízes”

– Canção da PM de São Paulo

Leia mais textos de Marcos Visnadi e da seção Instrumental.

Ilustração: Bruno O.

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Jackie – 7 de julho de 2014 - 19:54

Muito foda.

Douglas – 8 de julho de 2014 - 11:03

A vida é um tanto dura com quem vive no entorno e dentro dos quartéis e parece militar por tornar mais dura ainda a vida de quem não é militar, parece impor a obrigatoriedade à submissão. Mas tem outro aspecto que senti falta, que é o mundo gay nos quarteis. Ao começar a ler pensei que você também tinha servido, pois ali é uma coisa muito interessante isso e há pensões em São Paulo e no Rio especializada nesse público que se esconde no meio desta instituição e vai ser amar por aí no escondido. E enquanto se escondem e amam, fazem esconder as outras pessoas. Convivi muito com gente nesse perfil e no entorno, o de amigos que amavam essa coisa escondida de amar um militar.

marcosvisnadi – 14 de julho de 2014 - 17:34

Ei, Douglas! Não servi não, graças aos céus e ao excesso de contingente. Nem jurei bandeira, acho que por confusão ou bondade da moça que fazia o cadastro. E nunca (infelizmente) fiquei com nenhum militar na ativa (qdz…), a única coisa que conheço desse mundo são reportagens e filmes que vejo por aí. Se você quiser – ou conhecer alguém que queira – escrever sobre isso, a Geni publica! (Rolou uma discussão no coletivo sobre aquele filme Tatuagem, sabe? Mas nenhum texto saiu da discussão.) Abraço!

matheus matheus – 23 de julho de 2014 - 1:58

Belo trabalho, Marcos. Para onde este país está caminhando, meu caro? Os PMs de Cristo é que devem ser os piores. Cruz no rabo deles! E que desfecho foda e inesperado para o texto. Lindo demais, fiquei até emocionado.

matheus matheus – 23 de julho de 2014 - 2:04

Quanto a amar militares no escondido, como disse Douglas, recomendo a leitura de Pompas Fúnebres, do Jean Genet.

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