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SAPAPOP | Cantoras pop não podem ser velhas

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Aos 39 anos, Sia já é velha para a indústria fonográfica. Por Lígia Xavier

Publicado em 14/07/2015

 

O que as músicas Diamonds (Rihanna), Cannonball (Lea Michele), Let Me Love You (Untill You Love Yourself) (Ne-Yo), Perfume (Britney Spears), Radioactive (Rita Ora), Pretty Hurts (Beyoncé) e a péssima We Are One (Ole Ola) cantada por Pitbull, Jennifer Lopez e Claudia Leitte  (sim, a música oficial da Copa de 2014, que fez menos sucesso como oficial que uma regravação da colombiana Shakira) têm em comum?

 

a. todas são cantadas por intérpretes famosos da música pop;

b. a maioria é interpretada por mulheres;

c. todas estouraram em várias paradas pelo mundo;

d. todas são de (co-)autoria de Sia;

e. todas as alternativas anteriores.

 

Resposta correta: alternativa e.

 

Mas quem é Sia?

Como vive? Do que se alimenta? Iremos descobrir hoje, aqui na Geni!

 

Atualmente ela é mais famosa pelo hit Chandelier, mas, digamos, que estourou mundialmente em 2011, quando foi a intérprete de Titanium, de David Guetta. Só que raramente intérpretes de músicas de balada têm um nome, normalmente quem se destaca é quem produz ou o/a DJ (normal e infelizmente, o DJ).

 

Embora Chandelier ainda esteja em várias paradas e seja de 2014, seu mais recente sucesso é uma música de 2013, Elastic Heart, cujo clipe, lançado em 2015, gerou uma polêmica sobre apologia à pedofilia e tornou a música mais popularmente conhecida.

 

Mas Sia já é bem rodada. A australiana de 39 anos mudou-se para a Inglaterra e cantou em várias bandas, como o grupo inglês Zero 7; já lançou seis álbuns solo (sim, SEIS!!!); perdeu um namorado; entrou em uma deprê fudida (durante a qual, segundo ela mesma, praticamente ficou drogada e bêbada por seis anos); namorou uma das integrantes do Le Tigre; quase se matou em 2010, então decidiu só se dedicar à composição e, aí, foi “obrigada” a lançar seu último álbum 1,000 Forms of Fear, pois tinha previsto em seu contrato com a gravadora lançar um álbum como cantora. Ah, ano passado ela se casou com o documentarista Erik Anders Lang… E o Google pode oferecer muito mais informações. Mas o que achei estranho foi encontrar poucas coisas sobre a recente (pelo que me parece, desde o começo de 2015) forma como Sia tem se apresentado: se escondendo, estática e com uma “mini-Sia” de doze anos que, ao meu ver, faz uma performance de dança contemporânea.

 

E isso só me fez concluir que Sia, agora que é mundialmente famosa (não mais coautora de músicas de Christina Aguilera ou Flo Rida, não mais uma vocalista de uma banda indie inglesa, não mais vocal de apoio do Jamiroquai…) não pode ser “velha”.

 

Ela não é velha de fato, claro! Só tem 39 anos. Mas, para a indústria fonográfica, ela é velha.

Pense:

1) que cantora pop estourou recentemente, ou nos últimos 15 anos, que tem 30 anos ou mais?

2) que cantora pop não dança, rebola, expõe seu corpo?

 

Recorte simples: Top 20 da Billboard, na primeira semana de março de 2015, 2010 e 2005:

 

estatistica

 

2015: Taylor Swift (25 anos), Meghan Trainor (21), Rihanna (27), Ella Henderson (19), Ellie Goulding (28) e Ariana Grande (21).

 

2010: Ke$ha (21), Lady Gaga (22), Orianthi (25).

 

2005: Kelly Clarkson (21), Ciara (18), Gwen Stefani (34), Mariah Carey (34).

 

Não é o melhor recorte que poderia ter sido feito, mas foi o que me ocorreu na hora. Do total de quatorze cantoras, apenas duas com mais de trinta anos estiveram nesses top 20, Gwen Stefani e Mariah Carey, mas elas estouraram muito antes de terem 34 anos.

 

TODAS essas cantoras rebolam e dançam. Faz parte da fórmula! Lady Gaga começou a se destacar quando começou a tocar pelada em barzinhos de Nova Iorque.

Embora já na pista há anos, Sia só estourou mundialmente (sendo reconhecida como Sia) aos 38 anos, com Chandelier. Detalhe: ela não rebola, ela não dança. É no clipe dessa música que aparece pela primeira vez a “mini-Sia” Maddie Ziegler, de 12 anos e que é considerada uma criança-prodígio que dança e atua.

 

Interlúdio: quando penso em crianças-prodígios, penso na Maísa, do SBT, sabem? E tenho muito medo!

 

Uma escolha que acho meio estranha.

 

A letra de Chandelier fala de uma party girl (“garota festeira”, na tradução do Vagalume [http://www.vagalume.com.br/sia/chandelier-traducao.html]), de beber sem parar, ter ressaca moral no dia seguinte, estar mal e beber pra esquecer dos problemas da vida…

 

O que esperar de um clipe de uma música assim?

 

Eu imaginava o clichê: uma mina numa festa, se divertindo, bêbada, depois vomitando, passando carão, toda acabada na manhã seguinte.

 

Mas aí no clipe aparece uma criança, pendurada no batente da porta, de collant cor de pele, que começa a dançar algo que não é balé, não é jazz, nem dança de salão, nem dança popular (dança contemporânea, ao meu ver) por um apartamento, dançando em cima da cama, na frente da janela, na sala, na cozinha… Muitas vezes, o efeito da luz, combinado à cor do collant, faz com que que a “mini-Sia” pareça nua.

 

Já tinha visto essa menina em uma foto de divulgação do Grammy deste ano:

 

Quando vi a foto pensei:

 

“Isso deve ser uma estratégia da gravadora. A Sia é ‘velha’, então optaram por não a mostrarem de fato e colocaram uma xóvem parecida com ela.”

 

Vi o clipe de Chandelier e pensei:

 

“De novo essa estratégia?! Talvez a Sia não dance com tanta energia assim, então melhor usar um proxy (alguém que faça a intermediação entre público e artista): a mini-Sia.”

 

A menina também aparece na apresentação no Saturday Night Live:

 

 

E na apresentação do Grammy de 2015:

 

 

E, no polêmico clipe de Elastic Heart, quem está lá? Maddie, de novo, com o mesmo collant (gente, lava essa roupa!), dançando/lutando em uma jaula com o ator Shia LaBeouf.

 

O clipe levou Sia a se desculpar publicamente, pois foi acusado de promover a pedofilia:


tweet

“Peço desculpas àqueles que se sentiram ofendidos por #ElasticHeart. Minha intenção era criar algum conteúdo emocional, não ofender qualquer pessoa.” [versão nossa]

 

Essa acusação também aconteceu com o videoclipe de Chandelier, na verdade.

 

E, no clipe do single Big Girls Cry, de abril desse ano, mais uma vez Maddie está lá.

 

Cara, como não pensar nisso?! Não sejamos ingênuos! Você coloca uma criança dançando com roupas cor de pele, parecendo nua em alguns momentos… depois coloca ela dançando em uma jaula com um homem adulto, padrão de beleza, em uma relação de igualdade.

 

O nisso do parágrafo anterior se refere à erotização infantil e sua associação à pedofilia.

 

Não é à toa que, em seu pedido de desculpas, Sia usa o particípio triggered, que pode ser traduzido como “atiçado, engatilhado” e, no contexto, “ofendido”. Mas não é qualquer ofendido.

Quem questionou o vídeo nas redes sociais, em sua maioria, foram pessoas que sofreram abuso na infância. As que não sofreram, nem notaram essa conotação ou possível interpretação do vídeo.

 

O que achei mais bizarro é que há quem não perceba, especificamente no clipe de Elastic Heart, que é uma criança que está fazendo a performance. Como isso pode passar batido? As modelos mulheres são tão associadas assim ao infantil em seus ensaios e capas de revista de forma que alguém não diferencie uma criança de uma adulta?

 

Como lidamos socialmente com corpo feminino infantil? Se fosse um garotinho-prodígio na jaula, fazendo exatamente a mesma coreografia, a reação das pessoas seria a mesma?

Achariam normal o garoto dançando de collant? Associariam à erotização infantil? Ou achariam um decalque daquelas campanhas publicitárias em que pegam uma foto de uma modelo objetificada e substituiem por um modelo homem, com as mesmas roupas e nas mesmas posições?

 

Nessas horas também me vem à mente o quanto isso é uma ideia da artista mesmo ou o quanto isso vem de pressão da gravadora, essa necessidade de que as pessoas associem a artista à juventude, através de uma criança, usando um corpo jovem como proxy do corpo “velho” de Sia.

 

O quanto os poderosos chefões (sim, sua maioria são homens) estão com medo de mostrar pro público que a artista adorada está com quase (ou mais de) quarenta anos e não fica pulando e dançando (e caindo) como Ariana Grande, Madonna, Lady Gaga, Britney Spears ou J-Lo?

 

Interlúdio: Assim começa a reportagem da Folha sobre a mudança da dubladora da Smurfette no novo filme dos Smurfs: “A cultura pop sofreu algumas mudanças ao longo dos anos, mas uma coisa parece se perpetuar: ela não perdoa o avanço da idade.”

 

Também me pergunto, o quanto isso ocorre por Sia ser uma mulher do mundo pop. A grande maioria dos clipes de música pop mostram as artistas mulheres ora seminuas, ora com roupas bem justas, o corpo feminino (jovem) sendo exibido a todo momento (vejam Anaconda, de Nicki Minaj). J-Lo está na casa dos cinquenta, mas quando leio comentários sobre seu corpo, é de como ele é “jovem” para sua idade.

 

Como seria mostrar um corpo feminino velho?

 

Claro que há artistas pop “velhas” que têm corpos que “ainda servem”: a própria J-Lo, Gwen Stefani, Madonna… Vamos relembrar de como elas performavam no começo de suas carreiras, quando ainda eram “jovens” e, no caso de algumas, não eram mães?

 

Entretanto, Sia é uma ex-drogadita, com veias bem aparentes em suas mãos e braços que denunciam sua idade, totalmente o oposto do ideal almejado no mundo pop. Lembremos que, em 2011, durante o Billboard Awards, Michele Obama relata o quanto Beyoncé é um modelo para as mulheres e garotas no mundo. Há alguma história dela com drogas divulgada na mídia?

Já Amy Winehouse, que nem sempre teve sua música classificada como pop nas premiações, sempre foi muito escrutinada pelo seu uso de drogas ou apresentar-se perceptivelmente bêbada.

 

Toda minha admiração inicial de “que legal, ela é ‘velha’ e tá bombando” foi indo por água abaixo depois de ir aprofundando minha pesquisa e perceber essa imagem mais recente criada para a cantora – imagem desnecessária enquanto ela era indie, mas necessária quando se tornou pop, dentro de uma perspectiva da indústria.

 

Ao procurar imagens ou vídeos dela anteriores a seu último álbum, é possível ver seu rosto, saber quem ela é. Ela parece uma cantora um pouco tímida, mas nada que a impedisse de interagir diretamente com seu público, mesmo ao vivo. Cheguei a achar uma reportagem que falava que ela era avessa ao público. Mas será que é mesmo? Ou tornou-se, depois da tentativa de suicídio em 2010?

 

Para mim, a capa de seu último álbum já denuncia a estratégia escolhida desde seu lançamento:

 

capa

 

Capa de 1,000 Forms of Fear (1.000 formas de medo), sexto álbum da cantora

 

Apenas um cabelo, uma peruca loira, sem face.

 

Muito diferente desta foto de divulgação de 2011:

 

Esse culto da juventude é tão invisibilizador! É como se quem fosse velho não tivesse sexualidade, não servisse pra mais nada no mercado de trabalho (exceto recepcionar na Pizza Hut e ensacar produtos no mercado), não se divertisse na balada, ou pior, nem devesse ir pra balada. Cantar músicas que fazem todas e todos dançarem? Não, não pode!

 

Considerar alguém velho, é relativo. Mas é perceptível como essa cultura da juventude influencia essa percepção. Lembro-me de que quando eu era mais jovem eu era bem mais intolerante – achava velhas as pessoas de 27 anos ou mais. Aos dezoito anos, ir na balada (na boate) e me encontrar com alguma amiga de quarenta e poucos anos, dançando, curtindo, fazia eu me sentir envergonhada.

 

Hoje me pergunto: por que sentia isso? Que bacana que ela tava lá, com suas amigas e amigos, dançando, curtindo o rolê… vivendo.

 

Parece que a sociedade nos diz o que devemos/podemos fazer de acordo com nossa faixa etária e nosso corpo:

 

  • corpo jovens, desde que magros, podem dançar, praticar esportes, estar em praticamente qualquer espaço;
  • corpos “velhos”, deficientes ou gordos devem restringir sua sociabilidade, limitar-se a alguns espaços, pois, afinal de contas, como já li em uma rede social “ninguém precisa ver isso”.

 

O Brasil ainda é um país demograficamente jovem, mas em pouco tempo as pessoas com mais de 30/40 anos serão maioria – já não somos, talvez? Em 2060, espera-se que quase um terço da população tenha 65 anos ou mais.

 

E como vamos lidar com isso? Envelhecer e ficar fazendo hidroginástica, jogando dominó? Ficar em casa assistindo tevê, como minha avó fazia umas dez horas por dia? Não podendo cantar ou dançar ou pior.. não podendo trepar?

 

Quantas vezes a família brasileira não se choca com a senhorinha ou o senhorzinho de setenta e poucos anos que ainda trabalham, seja por necessidade ou porque gostam de sua labuta? Com xs velhinhxs que namoram, se casam, se beijam em público? Com a vovó que consegue ir ao banheiro sozinha aos quase 80 anos?

 

Ou com a Susan Boyle (o que mais chamou a atenção do público: sua voz maravilhosa ou o fato de ela ter 48 anos quando foi “descoberta” e de ela ser gorda)?

 

De onde vem esse choque? Ele deveria existir? Ninguém se choca ou valoriza o trabalho da mocinha que empacota as compras no mercado ou da garota que se inscreve em algum desses programas de novos talentos da música. Só há a surpresa quando sua voz é incrível ou quando é negra E sua voz é incrível. Mas se for alguém mais velho.. a surpresa não advém sempre só do talento da pessoa, vem também do fato de a pessoa ter mais de X anos também.

 

Ter sessenta anos hoje em dia, é bem diferente de ter sessenta anos há vinte ou trinta anos atrás.

 

Algumas expectativas sociais são como definições gramaticais: foram criadas baseadas em realidades e usos muito antigos, normalmente do século passado e que atualmente não mais ocorrem, mas que ainda são considerados regras – e ai de quem quiser modificá-las!

 

PS: uma cantora que descobri recentemente totalmente fora do padrão socialmente imposto:

Marry Lambert. Suas letras falam de seu corpo gordo, do fato de ser lésbica e ter crescido em uma família religiosa e, principalmente, do fato de ser humana como qualquer outro ser (mas de uma sensibilidade que nem todas e todos temos).

 

 

*Critérios utilizados para a pesquisa:

 

  • Só foram computadas faixas de cantoras, não de grupos cujas vocalistas são mulheres – até porque não havia nenhuma banda nessa situação;
  • a cantora era a principal intérprete e não convidada;
  • caso a cantora tivesse mais de uma faixa, seria computada apenas uma.

 

Por esse motivo ficaram de fora:

Beyoncé (pela participação em Telephone, de Lady Gaga, quinto lugar em 2010);

Taylor Swift (pela participação em Two Is Better Than One, do grupo Boys Like Girls, sétimo lugar em 2010);

Alicia Keys (pela participação em Empire State of Mind, de Jay Z, vigésimo lugar em 2010).

Mas Rihanna entrou na lista de 2015, pois FourFiveSeconds é creditada a ela, com Kanye West e Paul McCartney como convidados.

 

Fonte:

Arquivo da Billboard (2010): http://www.billboard.com/charts/pop-songs/2010-03-06

Arquivo (2005): http://www.billboard.com/charts/pop-songs/2005-03-05

Glamour Magazine: http://www.glamourmagazine.co.uk/news/celebrity/2014/08/04/sia-furler-married-erik-anders-lang

Clevver Music, 7 Songs You Didn’t Know Were Written by Sia: https://www.youtube.com/watch?v=YV1HvG6ArOU

Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Sia_(musician)

SiaVevo: https://www.youtube.com/user/SiaVEVO

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