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Sob o chapéu

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A história de Amelio Robles, coronel trans da Revolução Mexicana. Por Carolina Menegatti

Zapatistas ou Soldados mexicanos (1932). Debaixo dos sombreros de Alfredo Ramos Martínez (1875-1946), não há espaço para dúvidas: todxs são soldadxs.

Zapatistas ou Soldados mexicanos (1932). Debaixo dos sombreros de Alfredo Ramos Martínez (1875-1946), não há espaço para dúvidas: todxs são soldadxs

O contexto político mexicano no início do século 20 provavelmente lembrará outros momentos similares pré-revolucionários em diferentes partes do mundo. Assim como no Brasil, a independência não trouxe grandes mudanças ao México. Havia a democracia maquiada de Porfirio Díaz, que governou o país por mais de 30 anos à base de eleições fraudulentas e relação próxima com as elites – o que quer dizer que o Estado provia e legitimava maneiras de manter uma parcela muito pequena da população com vantagens políticas e econômicas – e, mesmo com o começo da industrialização e da extração de petróleo, o México ainda era um país essencialmente agrário, em que a existência de latifúndios (assim como hoje) tornava-se um atestado de pobreza e desigualdade enraizadas. Uma considerável parte da população camponesa de origem indígena era desprovida de terras próprias ou tivera suas propriedades tomadas ao longo dos anos pela Igreja e pelo Estado.

 

A Revolução Mexicana toma corpo quando Francisco Madero, opositor de Díaz, chega à presidência levantando bandeiras de mudanças sociais. De posição reformista (também muito conhecida nossa, que apenas flerta com ideais de profundas transformações sociais, nunca chegando ao ponto em que rompe com as estruturas que mantêm um organismo político excludente), Madero não agrada a conservadores e muito menos a revolucionários.

 

Há duas frentes importantes de organização camponesa e de pequenos proprietários de terra: a do sul, representada por Emiliano Zapata, e a do norte, tendo à frente Pancho Villa. Ambas as frentes defendiam, entre outras coisas, a valorização das tradições indígenas (que são simplesmente enterradas quando há uma cruzada de “modernização’’ em um país), a nacionalização de empresas estrangeiras e a eternamente temida reforma agrária.

 

Assombrosamente, em meio ao estado de inconstância, Madero foi assassinado por forças militares comandadas por Victoriano Huerta, que, com apoio estadunidense, instaurou uma ditadura no país em 1913.

 

O contexto da morte de Madero talvez nos pareça muito próximo do de hoje. Durante um momento de descontentamento contra um Estado reformista, por um instante (desculpem a simplificação) conservadores e revolucionários gritaram palavras de ordem similares, mas apontavam armas e ideais em direções definitivamente opostas. Enquanto uma parte preocupava-se em preencher de forma oportunista, e muito bem amparada, uma lacuna contra mínimas reformas sociais, a outra parte irritava-se com os passos lentos, estratégicos e retrógrados do governo. (Fiquemos de olho, amigxs!!! Não acreditemos em cartazes de gigantes globais!!!)

 

¡Viva la Revolución!

 

Esse breve e impreciso comentário sobre a Revolução Mexicana é o cenário de nosso revolucionário, segundo perfil da Geni, o coronel Amelio Robles.

 

Será que a revista está inclinando-se às nostalgias de guerra, dedicando páginas a militares falecidos? Não exatamente. Amelio Robles é uma figura muito interessante na revolução por tratar-se de um homem trans – ao nascer, foi registrado como Amelia; durante a guerra, consolidou a figura de coronel.

 

O artigo “Amélio Robles, andar de soldado velho: fotografia e masculinidade na Revolução Mexicana”, de Gabriela Cano, publicado nos Cadernos Pagu em 2004, foca nas maneiras como essa “masculinização’’ foi feita em um contexto em que intervenções hormonais ou cirúrgicas não eram uma opção. E, sim, foi com o gestual e as imagens deixadas por Robles por onde passava, ou seja, pela via da performance.

 

Mas essa palavra jogada tem um efeito perigoso. Quando dizemos performance, não estamos pensando em uma simulação superficial de gestos, apenas, mas sim em um caráter de papéis a que nos dispomos e, ao mesmo tempo, somos obrigadxs a emular numa sociedade que teima em determinar nossa atuação, os espaços que construímos, a intensidade de nossas ações, até onde nossa fala alcança. E o ele/ela é um desses papéis.

 

Em alguns textos de internet, há uma constância em relembrar sua inclinação desde jovem a assuntos considerados masculinos, como montar cavalos e manejar armas (fazendo deste mais um clichê quando se trata de papéis de gênero). Pensando de forma bem cotidiana, que segurar um brinquedo de um formato diferente do outro determine seu destino social é algo ridículo, não? Pois bem, Amelio talvez tenha descoberto desde cedo que, naquele contexto social, para ele não cabia o reino do ela.

 

O melhor dos machos

 

Como portar-se, se muitas vezes esses dois mundos são colocados como incomunicáveis e (muitas pessoas ainda ousam dizer) inimigos? Como o melhor dos machos. O mais viril, agressivo, com o charuto na boca e a arma no cinto. Mulherengo, beberrão, o melhor atirador, o soldado exemplar. Uma tarefa árdua e combativa de uma vida inteira.

 

O fato de Amelio Robles ser um homem trans não estava ligado à impossibilidade de as mulheres juntarem-se ao combate revolucionário, uma vez que o exército zapatista foi maciçamente constituído pela participação das soldaderas, cujas funções iam muito além daquelas consideradas femininas em uma guerra (alimentação e enfermaria). Afinal de contas, a emancipação política de mulheres era uma das reivindicações das soldaderas na Revolução Mexicana e, para isso também, elas contrabandeavam, saqueavam e iam a combate.

 

Esse reconhecimento de mulheres é uma oficialização posterior. Gabriela Cano cita em seu artigo que a homossexualidade não era bem-vista no exército zapatista. Ela inclusive escreve sobre o caso de Manuel Palafox, que, devido a pressões com relação a sua sexualidade, teve um afastamento praticamente compulsório do movimento (em uma das citações, por ser visto por seus companheiros como um “pobre diabo de sexo equivocado”). Essas acusações não caíram sobre Amelio Robles por ele travar relações políticas importantes no exército e por reiterar, disputa após disputa de campo, sua masculinidade e virilidade, características nobres e imprescindíveis nesse espaço.

Robles continuou na carreira militar mesmo após as mortes de Zapata e Villa. A “aceitação” de Robles, contudo, tem episódios ambíguos e violentos.

SOB O CHAPEU

As batalhas de um coronel

 

Em colunas sobre a vida de Robles, são frequentes os relatos de guerra, já que estamos nos referindo a um soldado que gostava dessa dinâmica. Talvez as mais emblemáticas tenham sido as batalhas de 1924, sob comando de Adrián Castrejón (anos depois, governador do estado de Guerrero), para conter rebeliões delahuertistas. Após esse período, Robles assume de vez a identidade de coronel e, por influência de Castrejón, integra o Partido Socialista de Guerrero e a Liga das Comunidades Agrárias. Também pela proximidade com outro governador de estado, Robles dá entrada nos papéis para sua condecoração como veterano da revolução.

 

Gabriela Cano indica que, da série de documentos que pediam para descrever minúcias de combate, Robles não é muito preciso: “[…] não dou detalhes de todas essas ações de guerra porque desejo que esteja de acordo com sua folha de serviços”. Além disso, sua certidão de nascimento tem uma “pequena” alteração com relação ao sexo dx nascidx. Ao final da vida, Amelio teve problemas para receber pensão militar por não ter uma “identidade militar reconhecida por este departamento’’.

 

Era conhecido por sacar a arma a quem o chamasse de coronela, provavelmente por tratar-se de chacota quando acontecia. Em um episódio de violência sexual, foi condenado à prisão de Chilpancingo, após ter assassinado dois homens que invadiram sua casa, em Iguala, atraídos pelos rumores que ouviram sobre o coronel.

 

Foi objeto também de matérias sensacionalistas, como a reportagem de Miguel Gil para El Universal e uma matéria para o Alerta!. Miguel Gil descreveu suas roupas, fala, andar e sorriso como inteiramente masculinos. A partir desse ponto, Gabriela Cano escreve sobre a visão de Gertrude Duby, uma suíça radicada no México, militante socialista contra o avanço fascista na Europa, que, conhecendo Amelio nos anos 40, escreveu sobre sua condição trans muito mais como uma estratégia de mulheres contra as limitações sociais a que são sujeitadas. Gertrude viu em Amelio feminilidade, ou melhor, diz que ele lutava para colocar suas melhores características (“honra”, “inteligência”, “laboriosidade”) no eixo feminino. Referia-se a Robles em seus escritos como ela, coronela.

 

Amelio ou Amelia foi, e talvez ainda seja, uma questão. Há uma escola primária, em Xochipala, com o nome “da coronela” e, em 1989, a Secretaria da Mulher do estado de Guerrero inaugurou a Casa-Museu Amelia Robles. Esses momentos fazem parte de um movimento de reivindicação da importância das mulheres no processo revolucionário mexicano e, numa visão geral, pela luta de mulheres como protagonistas históricas.

 

O que nos leva a dois nós quando pensamos em Amelio Robles. O primeiro é sua presença e seu grau de pertencimento ao exército zapatista, que desqualifica e desnaturaliza posições ortodoxas de papéis de gênero, ao mesmo tempo em que, para manter seu argumento, o coronel segue rigorosamente as exigências do ele. E o segundo nó, quando nos deparamos, pelo menos em Gertrude Duby, com o esforço de colocá-lo na chave do ela, mantendo o binarismo de gênero como instrumento de luta de emancipação feminina. Binarismo esse que se mostra válido em outros pontos. Se não fosse por essa posição, talvez a história das soldaderas na revolução fosse apagada. Mas colocar o coronel como ela vai num caminho contrário do que ele sempre se preocupou em passar.

 

Terminamos este perfil com um terceiro nó (ou quem sabe enigma). Amelio Robles em sua vida familiar, conhecido como tio, avô; nos campos de batalha, como soldado, coronel. E no túmulo em sua terral natal, Xochipala, o epitáfio o homenageia como uma coronela consagrada. Amelio pediu para ser enterrado vestido de mulher.

SAIBA MAIS

Era uma vez a Revolução (dir. Sergio Leone, 1971)

Las mujeres en la Revolución Mexicana

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