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TUTTOMONDO | Ela rasteja

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Agora ela é parte do seu corpo. Se a retiramos, você não sobrevive.” Por Marcos Visnadi

ELA RASTEJA

 

Ninguém jamais acariciou a cabeça de uma galinha. Mas há os que se encantem por serpentes. Muita gente cria serpentes em casa, as tem de estima. Dão nomes, humores, carícias.

Eu não escolhi a minha serpente. Se escolhesse, preferiria uma galinha. Talvez fosse pior. Eu posso escolher não ter nada? Ser minha própria estimação, levar-me a passeio, me alimentar e fazer festinhas, veterinário periodicamente, não, é como disse: eu não escolhi. E, já que não foi minha escolha, me apresso a dizer, também: não tenho culpa. Ainda que ninguém tenha me acusado de nada. Eu me acuso.

A serpente mora dentro de mim. Eu a sinto rastejando entre os músculos, no intestino, no coração. Não chega aos dedos dos pés porque neles seu corpo roliço não cabe. Mas às vezes ela descansa na minha batata da perna, seu rabo fino repousando no dedão, encaixado entre ossos e carne, sob a unha grossa.

“Senhor Marcos de Campos.”

O médico me diz que essa é uma doença rara. “Muito comum na África”, mas no Brasil temos poucos casos. “A cobra não faz mal nenhum enquanto for bem alimentada.” “Mas o que ela come?” O médico me passa uma lista de alimentos indispensáveis: ratos e pequenos anfíbios. “Vivos?” Claro que não. “Mas é bom você fazer exercícios físicos regularmente. Assim se movimenta, e a cobra pensa que a presa está viva.” Eventualmente, ele diz, ela pode ficar muito grande. Nesse caso, é necessário uma intervenção cirúrgica. Retiramos uma parte dela. “Não dá pra extrair ela inteira?”

“Agora ela é parte do seu corpo. Se a retiramos, você não sobrevive.”

Me explica que várias funções biológicas minhas foram transferidas para o corpo da cobra. Ela é como um feto ao contrário. Está em mim e me alimenta. Está em mim e se alimenta. “Se não for bem cuidada, ela pode ficar arisca. Há casos de pacientes que morrem envenenados com uma picada no fígado.” No limite, ele me explica, ela abocanhará o meu cérebro inteiro. E ficará digerindo enquanto meu corpo se decompõe sob a terra. Então ela morre.

Saí do consultório e fui direto à loja de animais. “Dois casais de ratinhos brancos, por favor. E uma gaiola bem grande.” O atendente me olha e já sabe que eu tenho a cobra. Bobagem, não tem como ele saber. Pago, saio com as compras bem escondidas num pacote. Com certeza ele desconfia.

*

“Tem camisinha?”

Tenho. Ele veste rápido, gel e continuamos. Sinto a cobra acordando e ficando inquieta. “Espera um pouco.” Acaricio-a sobre a pele. “Tudo bem?” “Tudo.” Calma. “Vem.”

Guardo os ratos na área de serviço, meio escondidos. O cheiro é forte, então tenho que deixar a janela aberta. Eles se reproduzem muito rápido, tenho que ficar atento. Como alguns por dia. Quando são mais do que eu preciso, mais do que eu aguento, deixo eles sem comida por um tempo. Então eles se comem uns aos outros e a população diminui. Não digo isso a ninguém. Às terças e quintas como patas de rã no restaurante aqui do lado.

Agora já faz cinco anos que descobri que tenho a cobra. Ela aumentou um pouco de tamanho. “Está ótima!”, o médico diz. Quer dizer que ainda não preciso operar.

Quando esqueço de fazer ginástica, ou quero morrer e por isso a ginástica não faz sentido, e eu não faço, sinto uma pontada no fígado, fico com dor de cabeça. Pode ser só paranoia minha. Mas, como não vejo a cobra, não tem como saber. Tenho medo, espera.

Outro dia conheci um cara. Enquanto a gente se beijava, ele sentiu o movimento na minha nuca. Tirou a mão e se afastou assustado. Sorri sem graça. “Que foi?” Ele me olhou desconfiado, sem saber o que esperar. É que, veja, eu não sou a cobra. Ele procurou escamas no meu rosto, narina ofídia, língua bipartida. Veneno. Minha cara gorda é a mesma que eu tinha antes de a cobra em mim, com o acréscimo de alguns anos de idade. Ele foi embora. Eu fui para a cozinha e matei um rato, comi. “Você estava com fome, né?” Ela foi abrindo espaço nas minhas costas, enrodilhada no longe da coluna até o cóccix, bunda, descanso da perna. “Por que você não dá um nome pra ela?”, alguém sugeriu. “Você nomeia o frango que come?” São situações completamente diferentes, eu sei. Mas respondi tão bravo que a pessoa ficou sem graça, falou um “não” com desculpas, não se tocou mais nesse assunto.

Se eu pudesse escolher, não teria essa cobra. E não gostaria de ter, pensando bem, uma galinha morando em mim, também. Menos ainda. Bichos geográficos, tênias finas como papel, vermes na cabeça. Vasta fauna, nosso corpo fosse uma floresta. Você esperava a civilização dos prédios, homens e mulheres bem vestidos? Eu sim. Mas não é essa a condição.

Vejo minha gaiola de ratos e penso que não tenho muito que reclamar. A cada um seu bicho próprio. A mim, a cobra. Sinto cócegas no estômago, nas axilas. Ela se mexe. De vez em quando, à noite, sacode seu chocalho. Acordo assustado.

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