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TUTTOMONDO | Passeio

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A polícia na fronteira e eu chegando na sua casa. Por Marcos Visnadi

Publicado em 15/07/2015

Pro Luiz

 

 

Desde que a carga viral zerou, parece que não tem mais vírus, morte, sarcoma de repente, porra radiativa. Se corto o dedo na cozinha, lavando louça, descascando abacaxi, não vejo com tanto espanto o sangue, mesmo que ele seja ainda estrangeiro, pegue um barco, pule o muro, forme imensas filas na entrada da realidade. O Ministério do Dia a Dia não deixa ele invadir a vida, tirar meu emprego, minha casa, meu chão: põe um esparadrapo e espera que o perigo coagule.

 

 

 

01

 

 

 

02

 

Mas o Ministério da Saúde me acorda a cada cinco ou seis meses pra fazer o controle de migração. Um pontapé me tira da cama, uma baioneta me empurra do quarto, do banheiro, jejum de 12 horas, um trem lotado. Sem café e sem comida, eu pego uma senha, entro na fila, a cabeça quebrando e o estômago torcido, esperando um carimbo, um número, o código de barras tatuado no braço, os corredores móveis, uma catraca intransponível e o sorriso da mulher de branco enquanto sete frascos a vácuo guardam pedaços daquela parte do meu corpo que garante: viver é uma concessão. Algodão álcool esparadrapo, feito o controle de carga, minhas células vão ser medidas confinadas, torturadas analisadas e enfim mortas, pra que eu agora possa sair do prédio, os portões se fecham às minhas costas, o guarda já não pergunta mais nada e eu compro um salgado na esquina.

 

 

*

 

setenta

 

meus ossos são gelo
de uma tempestade aqui

minhas memórias estão frias
de solidão cortante

cada pelo do meu corpo
virou neve

minha mãe nunca falou sobre isso

ela morreu aos quarenta e quatro
me deixando perguntando

quem ganha, quem perde

 

(Lucille Clifton, tradução minha)

 

 

*

 

Mas eu chego na casa do Cícero e aos poucos a baioneta e a agulha se tornam memória, depois esquecimento. Ele faz bolo, damos risada enquanto falamos do Grindr, da crise de abastecimento de água, das baionetas disfarçadas de gente que circulam nas ruas todo dia, e como o disfarce é tão bom, a máscara pregada à cara se torna quem as baionetas são de fato: pessoas, cada uma cheia de líquidos que vazam e que são sequestrados, e a pele mole e números que se colam nela. A dor de cabeça vai se dissipando, o estômago se encontra nele mesmo, um abraço e outra vez estou na rua, ainda com os pés e o pescoço e todo o resto, mas desta vez podendo, eu acho, ir pra qualquer lugar: percorrer sem rumo o espaço entre os porões, herói invisível para os médicos e os seguranças terceirizados e os técnicos de laboratório e os engravatados do ministério. Combater o crime e as concessões.

 

 

Mas eu chego na sua casa. As portas que se fecham são uma pata de gato tapando o mundo. No meio dos cobertores, a língua tocando o perigo, uma muralha de sangue vai se erguendo contra a claridade fluorescente que tremula no teto dessa grande clínica que é o planeta. Escondidos e molhados, a gente dorme no buraco do colo um do outro. E eu sonho com urina, parentes mortos, passeio na praia.

 

Fotos: Bruno O.

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