Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Uma travesti latino-americana

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Conversamos com Marlene Wayar, diretora do primeiro periódico travesti latino-americano, El Teje, que existe desde 2007 e que é uma aposta política cujo principal campo de batalha é a linguagem. Por Aline Gatto Boueri (texto) e Giovana Bonamim (fotos)

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Meu primeiro contato com Marlene Wayar foi há um ano, durante a apuração para uma matéria sobre um projeto de lei para o incentivo a publicações independentes no país. Marlene era o contato de assessoria de imprensa da Associação de Revistas Culturais Independentes da Argentina (Arecia), que elaborou o projeto que no fim de maio chegou ao Congresso argentino.

Marlene estava lá porque é diretora de El Teje “o primeiro periódico travesti latino-americano” –, que existe desde 2007 e é um tabloide gigante, de cores fortes e contrastantes. Rosa, negro e amarelo fluorescente, com capas e contracapas ousadas e fortes, firmes em seu propósito de não ocultar(-se), de estalar aos olhos de quem se senta em frente ao leitor no metrô ou de quem olha curioso a foto de uma travesti mãe de santo vestida de negro, olhar fixo à câmera e dois gatos nos braços, um negro e um amarelo com negro.

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Teje é a palavra coringa. Pode ser a carteira, o volume do cara, pode ser um aviso – ‘ajeita o teje’, que pode ser o seu próprio volume ou os seus peitos.” Marlene explica e aponta para a boca: “Pode ser que você tenha um pedaço de cenoura nos dentes, pode ser a droga que o cara tem ou que o cara pode querer droga, também pode ser que ele tenha muito dinheiro e tenha que pagar mais caro”.

El Teje nasce com essa necessidade de falar um idioma próprio, mas, além disso, também quer que esse idioma se derrame, penetre, impregne o castellano rioplatense que o portenho arrasta pelos cafés de Buenos Aires com ironia e um olho que pisca ao final de uma frase. “É essa discussão entre a ‘comunidade’ e o ‘todos’. O ‘todos’ tem que aprender, tem que entender que, quando eu chamo uma travesti de 70 anos de mamãe, porque ela me abraçou quando eu era jovem, me protegeu, disse ‘pode parar aqui e diz que é minha filha que ninguém vai fazer nada com você’, estamos explorando a linguagem, estamos estalando a linguagem”, se orgulha.

Nosso encontro para a revista Geni foi no bar do Centro Cultural Ricardo Rojas, da Universidade de Buenos Aires (UBA), no centro da capital argentina. Marlene chegou, presença imponente com seu metro e muitos centímetros de altura (sou terrível para dimensionar pessoas, mas a partir da minha perspectiva de alguém de 1,60 metro, Marlene ocupava todo o hall de entrada).

Cumprimenta a mim e a Giovana Bonamim, que fotografou a entrevista, e pede um sanduíche. Vem do Ministério do Trabalho, onde começou há pouco tempo e integra a equipe de um projeto de capacitação para o trabalho e incentivo à autogestão. Marlene também apresenta o ciclo de filmes Gênero identidade: a diversidade no cinema, no canal Encuentro, do Ministério de Educação da Argentina.

Marlene é militante também. Faz duras críticas à Lei de Identidade de Gênero, sancionada em maio de 2012 na Argentina, porque reflete uma concepção binária do gênero, porque não pode colocar a letra T em seu documento. “A identidade hoje é antes de tudo política. Eu sou travesti latino-americana”, afirma, enquanto, com os olhos cheios d’água, tira da carteira o Documento Nacional de Identidade (DNI), com o nome masculino. “Antes pediam que nos comportássemos, que cortássemos o cabelo. Hoje nos dizem: ‘Seja, mas seja mulher’. E esse ‘seja mulher’ significa ‘se acomode a outro molde, passe de um arquivo pro outro, mas não fique no meio do caminho’.”

Pela primeira vez em português, Marlene Wayar, em entrevista exclusiva para a revista Geni.

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Geni: Vocês inventaram tudo… El Teje é o primeiro periódico travesti latino-americano. É feito por pessoas trans e tem uma linguagem própria, mas que não é inacessível para quem não é entendidx do universo travesti. Como nasceu a revista?

Marlene Wayar: El Teje é uma sala de aula, é um projeto cultural dentro do Centro Cultural Ricardo Rojas, que depende da UBA, que para eles tem o objetivo de se responsabilizar pela democratização da educação. Há pessoas que não tiveram acesso à educação, especialmente as travestis, por terem sido muitas vezes excluídas de suas próprias casas, sido expulsas da educação formal, e eles têm que se responsabilizar por isso.

Primeiro pensamos, junto com a Paula Viturro, que é da equipe de tecnologia de gênero e é feminista, ativista e uma grande amiga, em fazer uma clínica de linguagens expressivas. Pensamos primeiro em estimular isso que elas fazem bem, que dancem, que cantem, que atuem, que façam performances… todas essas linguagens expressivas misturadas. Armamos tudo, mas tivemos problemas para armar o ano letivo e, junto com Maria Moreno, que nesse momento estava na área de comunicação do centro cultural, pensamos em fazer a mesma coisa, mas com crônicas jornalísticas.

E vocês convocaram travestis para escrever a revista, muitas delas em situação de prostituição. Como foi a conformação dessa equipe, garantir que a noite anterior não atrapalhasse a produção do dia seguinte?

Para mim, a primeira barreira a derrubar foi tentar convocar as meninas e dizer: “Tem gente que vai te ler se você escrever”. Elas se perguntavam o que tinham para contar, e elas têm, além da própria experiência, as histórias familiares. Nós temos a possibilidade de inventar, criar e relatar histórias como ninguém, então qualquer relato pode ser apreciado por outras pessoas e, por trás disso, há uma proposta política. Quando nós afirmamos “sou travesti, não sou homem, não sou mulher” – e inclusive se dissermos “sou mulher” –, construímos uma realidade. A partir da palavra, nós construímos a realidade para transformar outros sonhos em realidade. A realidade travesti só pode ser sustentada pela cultura, pela palavra. Esse é o nosso campo de batalha.

Quando nós afirmamos “sou travesti, não sou homem, não sou mulher” – e inclusive se dissermos “sou mulher” –, construímos uma realidade. A partir da palavra, nós construímos a realidade para transformar outros sonhos em realidade. A realidade travesti só pode ser sustentada pela cultura, pela palavra. Esse é o nosso campo de batalha.

Se os operários e operárias pudessem dizer “vocês não são nossos patrões porque não somos operários”, essas barreiras seriam derrubadas, e poderíamos arrebatar os meios de produção e a terra daqueles que a detêm com um anseio de propriedade que não existe.

E qual é o impulso para a criação de El Teje?

Um dos objetivos do projeto é desestigmatizar a identidade travesti, desassociá-la da prostituição. Se o Estado oferece igualdade de oportunidades para o desenvolvimento de potencialidades de todos e todas, e a sociedade acompanha isso sendo equitativa, podemos contribuir com o melhor de todas nós. Aqui demonstramos que somos produtoras de conhecimento, mas também podemos ser produtoras de trabalho, de serviços.

Queria que você explicasse o que significa el teje.

Durante os anos 20 e 30, surgiu aqui uma linguagem, uma gíria de rua e de cadeia, que era o lunfardo. Nessa época, paralelamente, as maricas começaram a construir uma linguagem própria também, que é o carrilche. Era importante conversar sem que a polícia, o cliente ou o ladrão entendessem. Era para que somente nós pudéssemos entender. Cadulcri é a peruca, cilcri é o dinheiro, dolcri, a bebida alcoólica.

Teje é a palavra coringa. Pode ser a carteira, o volume do cara, pode ser um aviso – “ajeita o teje”, que pode ser o seu próprio volume ou os seus peitos. [Aponta para a boca] Pode ser que você tenha um pedaço de cenoura nos dentes, pode ser a droga que o cara tem ou que o cara quer droga, também pode ser que ele tenha muito dinheiro e tenha que pagar mais caro. “El teje, marica…” pode ser “a polícia está vindo”, e aí você se faz de menininha e tenta se esconder para eles não te levarem.

Essa linguagem nós fomos perdendo, suspeito que porque começamos a sentir vergonha da nossa própria linguagem, da mesma maneira que começamos a sentir vergonha de ser afrodescendentes ou de ter ancestrais de povos originários; por ser incultas, pobres. Perdemos muitas palavras, mas outras se impregnaram e hoje você liga a TV e escuta chongo [gíria para um affair, um caso]. Chongo é do nosso carrilche.

Fomos silenciadas quando a heterossexualidade começou a construir cultura, então nós fazemos em El Teje um necessário exercício de memória, que é a primeira gravura que estamos fazendo na caverna.

Essa aposta na linguagem como campo de batalha constrói um público específico para a revista? Qualquer pessoa pode ler?

É essa discussão entre a “comunidade” e o “todos”. O “todos” tem que aprender, tem que entender que, quando eu chamo uma travesti de 70 anos de mamãe, porque ela me abraçou quando eu era jovem, me protegeu, disse “pode parar aqui e diz que é minha filha que ninguém vai fazer nada com você”, estamos explorando a linguagem, estamos estalando a linguagem. Estamos construindo uma realidade que esse “todos” deveria considerar, e não questionar.

O “todos” deveria aprender que, quando levamos uma iniciativa a uma escola para que aceitem uma criança trans, não fazemos isso para beneficiar essa pessoa. Estamos plenamente conscientes de que estamos beneficiando toda essa escola, todas essas famílias que levam os filhos a essa escola, porque todos e todas estão aprendendo a não discriminar, a se aceitar, a ter coragem de imaginar como querem o mundo e transformar seus próprios sonhos em realidade.

 

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Em 2007, o editorial de El Teje dizia que a única diferença entre a travesti e a dona Rosa (a dona de casa média) é a roupa interior, porque as travestis são domesticadas. Por que essa afirmação?

Olha, eu uso o conceito de Donald Winnicott, de mãe suficientemente boa, que é aquela capaz de sustentar a ilusão do bebê de que ele e a mãe são uma pessoa só e que, depois disso, é capaz de acompanhar a criança nessa ilusão à medida em que vão se separando, e daí vem o objeto transicional, que vai me ajudar com a ideia de que sempre estou com mamãe, ainda que ela esteja longe, de que sempre estou nesse lugar seguro.

A mãe suficientemente boa não precisa ser inteligente, só precisa ser amorosa. Eu sou consciente de que fui acompanhada assim, sou plenamente consciente do amor com que fui criada. Então me encontro com as minhas companheiras e, por meio delas, com um mundo completamente desprovido desse amor. E, quando há pais e mães que criam filhos sem isso, também há desamores entre essas pessoas.

Eu tenho uma relação muito amorosa com a minha família de sangue, mas isso não implica que, se eu morrer hoje, a minha família de sangue seja mais herdeira minha do que as minhas companheiras travestis. Honestamente, minha família não precisa, e a minha produção intelectual pertence ao meu coletivo, porque foi com ele que eu aprendi, com a experiência da prostituição, com as minhas companheiras pobres, com as perguntas que eu fazia a elas e que elas faziam a mim. Cada uma de nós aprendeu assim tudo de bom e muito do mau, e é nisso que estamos, desatando essas questões do mau.

Por que reproduzimos a misoginia? Por que reproduzimos a xenofobia? Por que, se um policial argentino me persegue, eu vou submeter à violência uma menina vinda do Peru, que está mais próxima a mim porque é travesti, porque tem a minha fome, a minha necessidade de habitação, e somos as únicas que realmente podemos ser irmãs e ter um sentido e um objetivo em comum?

Quando eu percebo o pouco amor-próprio que existia em minhas amigas travestis, ou o amor-próprio que existia, apesar de tantos desamores que pesam sobre essas pessoas, vejo que é aí que vestimos essas roupas. Somos a dona Rosa, somos filhas, queremos responder a isso. Falamos mal de como uma se veste ou da forma como a outra fala. Por isso é tão difícil instalar a ideia de por que nós acompanhamos a reivindicação feminista do direito ao próprio corpo – nós, de construí-lo; elas, de decidirem sobre ele.

Desde o lançamento de El Teje, a Argentina aprovou a lei de casamento igualitário e de identidade de gênero. Mudou alguma coisa?

[Emocionada, Marlene mostra o DNI com o nome masculino.] Se me disserem que eu posso colocar “travesti” no meu documento, eu vou correndo fazer um novo amanhã. Custou muito me construir, ser quem eu sou, sustentar isso, suportar a violência. Entendo que para o “todos” é um avanço, que o “todos” passou por uma transformação maravilhosa, que nos abraçam e com esse abraço nos amam, demonstram carinho. Antes pediam que nos comportássemos, que cortássemos o cabelo. Hoje nos dizem: “Seja, mas seja mulher”. E esse “seja mulher” significa “se acomode a outro molde, passe de um arquivo pro outro, mas não fique no meio do caminho. Não gere ruído, não demonstre seus anseios de liberdade, a sua construção anárquica”.

Antes pediam que nos comportássemos, que cortássemos o cabelo. Hoje nos dizem: “Seja, mas seja mulher”. E esse “seja mulher” significa “se acomode a outro molde, passe de um arquivo pro outro, mas não fique no meio do caminho. Não gere ruído, não demonstre seus anseios de liberdade, a sua construção anárquica”.

A minha identidade é tão complexa como a de todos e todas. A identidade hoje é antes de tudo política. Eu sou travesti latino-americana e não sei se vou continuar sustentando isso ou se vou continuar mudando. O que eu sei é o que não vai mudar, que é o que eu não sou. Eu não sou genocida, não sou ladra, não sou hipócrita, não sou de direita, não sou católica. É isso que importa na mesa de negociação entre duas pessoas: o que é que não somos?

E qual é a posição política que está por trás disso?

Eu não sou necessariamente nada, mas digamos que estou muito perto da anarquia. Tenho muitas críticas a ela, principalmente a de que causa muita solidão. Não há situação mais anárquica que a nossa, que ser uma adolescente de 12 anos jogada em uma praça de cidade, morta de fome, procurando alguém que dê de comer, e ter que negociar a essa idade com um mundo adulto. Então eu sou anárquica, mas vou escapar todas as vezes que quiserem me catalogar, salvo que me digam que eu sou travesti. E travesti não tem uma tradução linear, não se pode definir. Podemos resumir e dizer que é uma pessoa que nasce com uma genital e sai dos estereótipos do que significaria culturalmente ter essa genital.

Por isso propomos o trans não da maneira que se entende globalmente, como um leque travesti-transgênero-transexual, mas um leque onde todas possamos entrar. Nossa experiência é de solidão, porque o feminismo fecha portas porque não temos vagina, o marxismo fecha portas porque não somos operárias… Nos nutrimos do feminismo, do anarquismo, do marxismo, das teorias queer, mas também entendemos, sabemos, que tudo nasce, cresce, se desenvolve e morre. Estamos em uma época em que se deve matar simbolicamente esses pensamentos, e nós propomos a teoria trans latino-americana para dar conta de que estamos aqui, de que temos nossas experiências e de que aprendemos de nós mesmas. Não estamos mamando de forma condescendente da Europa, não queremos ser Gilles Deleuze, Foucault, Freud, Marx, Hegel.

Sabemos o que dizem, aprendemos deles, mas colocamos em crítica também. Bom, Freud disse isso e aquilo, mas a verdade é que, para mim, o Édipo deu diferente. Nietzsche dizia genialmente que o homem era uma corda tensionada entre a besta e o super-homem. Nós dizemos que a pessoa é uma corda tensionada entre a besta e a trans. Essa pessoa que o Che Guevara chamou de homem novo, nós temos que construir em nossas mentes para criar uma prática emancipadora e de ação.

Não é pensar a política de forma linear, mas que a política ecológica, os estudos culturais, linguísticos, artísticos, tudo isso seja posto em dança. Acredito que é preciso um movimento de pensamento diferente e acho que nós, travestis, somos um banco de pensamento dos mais interessantes de analisar, junto com as culturas originárias e o zapatismo. É aí onde eu mais encontro o oxigênio que não nos categoriza como homens, mulheres, lineares, básicos, empobrecidos. Somos mais complexos no encontro, no olhar, é aí que começamos a construir algo, que começamos a indagar. Queremos lugares de pesquisa cultural e de indagação onde em tudo, absolutamente em tudo, esteja a arte. Não acreditamos que possa existir nada positivo sem arte.

Como foi seu primeiro contato com o universo travesti?

Eu tinha 14 ou 15 anos. Tive uma autonomia prematura, mas não tanto, digamos. Quando iniciei o ensino médio, que nesse momento era aos 13 ou 14 anos, estudava para ser professora de cerâmica, e o curso era à noite. Então comecei a conhecer um pouco a noite, pegava ônibus sozinha. E, no curso, a pessoa que me seguia em idade tinha 25 anos, e depois tinha gente de 60. Era uma mistura e um ambiente muito feminino, eu passei a ser a caçulinha do curso e do turno da noite.

Depois, quando conheci as meninas, eu queria estar com elas, no jogo, queria trazê-las para minha casa, levá-las à minha escola.

E como você as conheceu?

Perto de onde os taxi boys [michês] trabalhavam. Para muitas, a primeira imagem é a masculina, então começavam como taxi boys, mariquitas e, depois, travestis. Mas a minha roupa interior era de mulher.

Eu esperava um príncipe. Minhas amigas estavam em prostituição, mas eu não me prostituía, apesar de sentir que precisava me prostituir para pertencer àquele grupo. Eu fazia de conta. Quando um carro me chamava eu inventava que algumas coisas eu não fazia, que eu era cara… e me dispensavam, mandavam eu buscar outra.

Eu era novinha, os novos sempre chamam atenção. Quem está acostumado com o mercado sempre presta atenção no produto novo. Particularmente, em situação de prostituição, o que é novo no mercado chama atenção por essa coisa que a gente perde e que não há cirurgia plástica que recupere: esse olhar de inocência, essa coisa da infância, da adolescência. Eu não me dava conta do perigo.

Disso se trata a adolescência também…

A primeira vez que vi a polícia vindo e todo mundo sair correndo, eu fiquei parada perguntando a mim mesma e ao policial: “Por que está todo mundo correndo?”. O policial não conseguia entender. Essa minha falta de consciência foi minha salvação muitas vezes. A polícia achava que eu só podia ser filha de alguém com muito poder para me comportar assim. Minha reação nunca era de medo, era de não compreender por que estavam me faltando com respeito.

Minha reação nunca era de medo, era de não compreender por que estavam me faltando com respeito.

Houve algum momento na história argentina em que as travestis puderam expressar sua sexualidade com mais liberdade ou algum momento em que foi crítico?

No processo de construção da identidade nacional, entre o começo e meados do século 20, havia a ideia de que os argentinos eram fruto das famílias patrícias, que tinham vindo da Espanha para conquistar a América, dos povos originários, que estavam marginalizados, excluídos, perseguidos, roubados, dos criollos [espanhóis nascidos na Argentina], e houve uma forte corrente de imigração de franceses, ingleses, galeses, espanhóis.

Essa anarquia precisava ser respondida com a instituição de uma identidade nacional, de símbolos pátrios que passavam por afirmar “somos todos europeus, descemos dos barcos” ou “não existem negros e não somos racistas”. Os povos originários eram vistos como povos que precisavam ser civilizados. Essa construção da identidade nacional tem foco na família nuclear, com uma moral específica. Essa moral, que era bastante frouxa, começa a ficar mais rígida. Antes havia uma circulação da sexualidade muito mais anarquista também, e sabemos disso pelos relatos de travestis mais velhas e pelos livros da época.

E como isso foi mudando?

Quando Perón volta do exílio e começa a governar [1973-1974], anos antes do golpe militar, começa a instalar-se a Triple A (Aliança Anticomunista Argentina), e se inaugura o que depois a ditadura vai transformar em letra de lei. A perseguição começa um pouco antes de o peronismo de esquerda perder o poder dentro do governo. O peronismo é uma das manifestações políticas mais amplas que existem; tem o peronismo de direita, o de esquerda, e, no meio, tudo.

A moral começa a ser imposta com os atos policiais, normas infrapenais, códigos contravencionais que erguem o delegado da área como juiz em primeira instância. Esses códigos vão cuidar principalmente da moral pública, dos espaços públicos e de como todos e todas deveríamos agir nesse espaço público. Isso avança sobre o âmbito privado também, sobretudo no que diz respeito às diferenças. Temos fotos das travas totalmente montadas nos anos 60 em clubes sociais. Com crianças em volta. Eram grupos de amigos e as travas estavam totalmente assimiladas.

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Quais são as consequências sociais disso?

Depois começa a fase em que não só a polícia perseguia, mas em que também foi incutida nas pessoas a ideia de que elas têm que apontar à polícia quem deve ser perseguido, quais são os elementos sociais indesejáveis que a polícia tem que perseguir.

A polícia da cidade de Buenos Aires passa a ter um departamento de medicina pericial, conformado sobretudo por psiquiatras, que podiam ficar com esses sujeitos para pesquisa científica em vez de prendê-los. Quais eram os sujeitos privilegiados? Claro que os gays, algumas lésbicas que exacerbavam sua masculinidade, crianças que, em lugar de ir a instituições dedicadas à infância, iam parar ali porque prevaleceu a ideia jurídica do delito penal de autor. Você nasceu com uma falha e vai ser delinquente. Ainda lutamos contra isso, mas vai ganhando, ainda que seja por mera correção política, a noção de direitos humanos.

Nesse momento, uma igreja que a sociedade estava acostumada a somente fingir que ouvia começa a ganhar poder também. Agora os dogmas religiosos vão estar fundamentados nas ciências médica e jurídica. As pessoas não apenas ficam estigmatizadas, mas também penalizadas e patologizadas. E aí os primeiros a te denunciar, a exercer violência são os próprios núcleos familiares.

Aqui se dá uma característica radicalmente diferente das de outros grupos segregados, discriminados, perseguidos: uma criança afrodescendente pode sofrer maus-tratos na escola, na rua, não vai ter trabalho… Mas ela chega em casa e tem uma mãe negra, um pai negro, uma avó negra, que vão demonstrar carinho. As maricas, as travestis, as lésbicas chegam a suas casas e é onde o campo de batalha se abre com maior dureza. O lar se transforma num ninho de cobras onde vão tentar te conduzir a uma aparência heterossexual ou te excluir e te deixar jogado na rua ainda criança, em um mundo adulto onde não existe a possibilidade de subsistência que não seja por um ou outro roubo e, sistematicamente, pela prostituição. Nesse mundo adulto, a negociação para comer, beber, dormir se dá por meio do uso do seu corpo com benefícios sexuais.

Durante a última ditadura militar, muitas travestis se exilaram no Brasil e trouxeram à Argentina práticas religiosas que aqui não existiam. Como foi isso?

Havia alguns pontos por onde escapar dentro da Argentina, para quem não estava marcado com uma atividade política ou partidária concreta. Um dos mais fortes era o Tigre, que é como o final da nossa Mesopotâmia – [região que abrange as províncias de] Formosa, Corrientes, Entre Ríos. Pelo rio há certa circulação cultural, próxima ao Paraguai, ao Brasil, ao Uruguai.

Havia uma circulação muito fluida entre Argentina e Brasil – por turismo, por trabalho. E, quando chegou o momento do terror político, já havia vínculos formados para que o Brasil fosse um destino de exílio. Lá, começam a ter mais contato com o que aqui não existia, como a umbanda ou até mesmo a ayahuasca. Quando regressam, sobretudo as travestis, trazem isso com um sentimento muito forte de que eram manifestações populares. Além disso, as travestis não encontraram nenhum tipo de questionamento. Podiam ser líderes religiosas, ter uma casa de religião e construir a si mesmas sem nenhum tipo de objeção de líderes religiosos, e menos ainda por seguidores e seguidoras da religião. Na província de Buenos Aires essas práticas religiosas avançaram muito, a ponto tal que nenhuma das mães precisa recorrer à prostituição. Para além do fato de que têm um imperativo próprio da ética religiosa, elas não têm necessidade de se prostituir porque estão asseguradas por seus filhos, seus seguidores. Isso é tão forte na província de Buenos Aires e no interior do país que as casas de religião se sustentam mesmo quando não estão reconhecidas oficialmente, sequer como culto.

Para as meninas foi principalmente um lugar de tomada de poder e de sociabilização importante, por fora da prostituição, da rua, da penitenciária, da delegacia, dos prostíbulos. Elas saem da moldura, rompem e emergem em lugares transexuais como personagens paradigmáticas. E, nas estruturas verticais que ainda temos dentro da sociedade, elas estavam no topo, eram líderes religiosas.

 

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PARA SABER MAIS

As edições de El Teje em PDF estão disponíveis, em castelhano, para download no link: http://www.rojas.uba.ar/contenidos/revistas/index_revistas.php.

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