Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Vivências fanchas

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Cinco mulheres lésbicas relatam (e ilustram) suas vivências, corpos, desejos e afetos. Por Andressa Oliveira

Publicado em 15/07/2015

Como falar de corpos lésbicos se nossos corpos não existem para a sociedade? Se toda a nossa vivência é apagada e invisibilizada?

 

O corpo lésbico não é só o corpo de alguém que gosta de mulheres, é um corpo de resistência. Quando eu falo em resistência, é a resistência contra o patriarcado, contra a imposição do padrão de beleza, muitas vezes contra familares. Somos mulheres que nos levantamos contra uma heteronormatividade imposta e damos “a cara a tapa”, muitas vezes literalmente, para reafirmar nosso amor, desejo e afeto por outras mulheres.

 

Aqui estão reunidos algumas ilustrações e relatos feitos por mulheres que se identificam como lésbicas. Os relatos seguem em itálico e as imagens falam por si.

 

A reflexão sobre o que há em comum e de diferente entre os relatos e a ilustrações, deixo a cargo de quem lê.

 

Só posso dizer que fico muito feliz de ver como essas lésbicas se representaram e compartilharam um pouquinho de suas vivências e visões!

 

 

Porque somos fêmeas, esperam que gostemos de machos. Em algum poucos espaços, até podemos ser lésbicas, mas não muito lésbicas. Até podemos gostar de mulheres, mas não de uma mulher que não performe feminilidade. Nós mesmas devemos perfomá-la sempre. Caso contrário, ameaçaremos o homem.
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Essa sociedade heterocentrada nos trata de três maneiras: nos invisibilizando, nos violentando ou nos fetichizando.

 

 

GINECOLOGIA

É horrível, não existe atendimento específico e especializado para a gente, eles não respeitam nossa sexualidade. Com 26 anos eu só passei com uma ginecologista que me atendeu de acordo com a minha vivência, eu acompanhei minha ex uma vez e o ginecologista fez um exame desnecessário nela, de toque; a gente deixou de frequentar ginecologista há mais de três anos. Eu passei por apuros com um enfermeiro que queria me examinar a qualquer custo, eu tava sem camisa porque ia fazer um ultrassom dos seios. Uma enfermeira interveio e não deixou [ele me examinar].

 

 

MÃE LÉSBICA

Olha, eu penso também na questão da mulher lésbica mãe ser deslegitimada, né? Dentro do meio lésbico.. tipo: ‘um pinto’ entrou aí várias vezes’, ou o fato de que gente pode ter um nível mais alto de falofobia e isso bloquear nossas relações sexuais… bom, digo por mim também, que ainda tenho várias restrições no sexo, mesmo com mulheres, sabe… tipo, tenho pavor de penetração ou às vezes imagino que a mina tá sexualizando meu corpo, ou tá comigo por dó, sabe?

 

 

GORDA

A mim, cabe falar sobre a minha forma, sobre minha gordura, sobre padrões.  Lésbicas são mulheres que, no imaginário de muitas pessoas, possuem forma física pré-definida: é esperado que sejamos magras, mas não qualquer tipo de magra, temos que ser gostosas e sensuais.  Eu sou GORDA, redondamente fora de qualquer padrão. Eu me questiono todo dia se eu sou desejável para outra mulher. Se minha forma, de certa maneira, vai afastar ou repudiar outras lésbicas. Ser lésbica e gorda é como viver num limbo afetivo sexual. Ainda existe muita gordofobia na sociedade e no meio lésbico isso não mudou.
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MEDOS

Já tive arma apontada pra minha cara duas vezes, já jogaram bomba em mim, já conseguiram meu número de telefone pra me ameaçar de estupro, já picharam o muro da minha casa com símbolos neonazistas, médicos já se recusaram a me atender, enfermeiros já me machucaram de propósito, já me disseram que eu devia morrer, já me disseram que eu tinha que ser estuprada pra virar mulher.

 

Não deve faltar nesse texto, uma coisa que me preocupa muito e que é algo que eu vivo: quando estou voltando tarde para casa, coloco um casaco e faço de tudo para me parecer com um homem, pra me aproximar de um ser masculino, para que eu não sofra mais violência. Tem lugares [em que estou e] que eu realmente penso “vou colocar uma calça larga, uma blusa larga, porque eu estou menos exposta à violência se eu me parecer com o meu agressor, com meu abusador”. E isso é muito bizarro na verdade. Isso que a gente faz de se vestir, de se aproximar da estética de homens à noite para não sofrer retaliações é uma violência pra nós também, ao mesmo tempo que é uma autopreservação, é uma violência a que estamos nos expondo e vivendo, é muito louco pensar sobre isso.

 

Já tive medo de expor em ambientes de trabalho minha lesbianidade, medo de ser recusada em empregos, já fui rejeitada em vagas por ser “muito sapatão”, sou olhada como inferior ou como ameaça.

 

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EXPECTATIVAS

Ao falar em dyke também há um estereótipo, uma  caricatura. Assim como existe uma caricatura de feminilidade, há uma caricatura da caminhoneira butch.

 

Cresci na igreja evangélica ouvindo o quanto era errado amar pessoas do mesmo sexo. Quando me dei conta de que passava por isso, passei por traumas que carrego até hoje em meu corpo e em minha alma. Passaram a querer me transformar em alguém que eu não podia ser e isso me matava aos poucos: e ninguém se dava conta, ou talvez não se importassem.

Quando eu tinha 16 ou 17 anos, passei por meses de “cura hétero” na igreja. Fui torturada psicologicamente para que pudesse ser alguém que eles aceitassem. E não conseguir cumprir isso, não ser o que Deus planejou era algo que eu não podia suportar. Passei então a mutilar meu corpo na esperança [de] que a dor física amenizasse a dor em minha alma por fracassar com Deus. Cada corte era pra mim um alívio, era como usar drogas. Na verdade, era bem melhor que qualquer droga, era quase um orgasmo. Demorei muito para conseguir largar a prática sozinha, mas consegui e há mais de um ano não tenho recaídas.

Eu nem sei quando passei a amar meu próprio corpo, mas sei que não faz tanto tempo assim. Eu ainda não estou pronta para muitas coisas, mas dei muitos passos em favor da minha liberdade sexual. Tenho uma boa relação com minhas cicatrizes, sei o que elas representam para mim. Elas fazem parte de uma luta pessoal em favor de quem sou eu. Hoje, já não restam dúvidas. Sou lésbica convicta e amar quem sou é a melhor parte de ser sapatão.

 

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AMAR e AMAR-SE

Posso falar sobre as minhas dores, sobre tantas maldades e isolamento, mas eu vou falar sobre uma coisa muito positiva sobre meu corpo. Eu aprendi, depois me me impor, de sofrer com mil questionamentos, a me amar!!! E não é um tipo de amor suave, é um amor guerreiro, quase brutal. Eu amo essa mulher que eu sou, eu amo o fato de eu ser apaixonada por outra mulher, de ser “socialmente rebelde”. Eu amo meu cheiro, meu gosto e meu sexo!!! Me amar quanto lésbica foi a melhor e mais profunda experimentação de amor que eu já tive.

 

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Ilustrações: Fran Junqueira, Mariana Caetano, Marina Moreira, Joyce Serpa, Jéssica Marroques, Rafaela Cavalcante, Agnes Cardoso.

Relatos: Mariane Lopes, Lucy Enare, Nahoma Bretas, Raíza Bianchi, Andressa Oliveira

e tantas outras que direta ou indiretamente passaram seus relatos.

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Tami – 15 de julho de 2015 - 13:44

Maravilhoso!
Primeira vez que leio a revista e estou encantada, mais do que isso, extasiada! Parabéns pelo trabalho! Fico feliz em encontrar conteúdo de qualidade e ainda uma seleção de ilustrações tão lindas.

Abs!

Mari – 22 de julho de 2015 - 13:19

Lindo, sensível, necessário! <3

Caê – 22 de julho de 2015 - 14:31

Arrepiante e emocionante! <3

Gabriela – 22 de julho de 2015 - 21:07

Adorei, obrigada por esse texto.

Adriana – 20 de agosto de 2015 - 20:13

Parabéns pelo texto e ilustrações! Uma realidade simplesmente vivida diariamente por muitas. 😉

Aline – 27 de agosto de 2015 - 15:50

Muito bom!!!!! :)

Rodrigo – 28 de agosto de 2015 - 2:24

Esse tipo de leitura é algo que deveria ser mais visto, não é só a questão “lésbica”, é a questão “modelo de mulher” que reprime tanto as que não o seguem.

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