Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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FARÓIS ACESOS | Uma rodada de noção para a galera!

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Meu sonho é que as plantas e árvores da Amazônia, em vez de oxigênio, comecem a transformar gás carbônico em noção. Porque não tá dando para respirar, gente. Por Neusa Sueli

Depois da Copa, você deve estar pensando que finalmente a noção voltou, né? Ledo engano. O time da falta de bom senso não dorme nunca, é incrível. Vejam só.

Manuel Neuer: me add no Orkut

Segundo alguns sites brasileiros e internacionais (que me recuso a divulgar, sorry, mas basta fazer uma busca que vocês encontram rapidinho), o goleiro da seleção alemã, Manuel Neuer teria se declarado homossexual e dito que outros jogadores deveriam fazer o mesmo. Quando li isso, bati palmas (risos serelepes) e cogitei chamar ele para bater umas embaixadinhas lá em casa, conhecer meus apetrechos… (sou pau para toda obra, #Es tut mir leid), chamar ele para uma breja. Mas como sei que o povo da internet não tem bom senso nenhum, desconfiei e dei uma procurada e, pasmem (jura?), a notícia não era bem essa…

Em 2010, depois de uma série de declarações homofóbicas do presidente da Fifa, Joseph Blatter, Neuer deu uma entrevista para a revista alemã Bunte na qual encorajava os jogadores gays a “saírem do armário e não temerem a reação dos fãs”. Ele aparentemente não é gay. Tem milhões de fotos dele se atracando com uma amapô que é sua namorada (#chatiada #mágoa), mas até aí… eu também tô sempre com um olho no peixe e outro no gato… Mas o Neuer apoia os jogadores gays a se assumirem, afirmando que o que importa é o desempenho do jogador, não sua orientação sexual” . <3 <3 <3

 

manuel neuer gay cecilia silveira revista geni2

 

Não preciso nem dizer que esse boato correu por aí e gerou toda uma série de comentários jocosos e preconceituosos em sites brasileiros, em geral feitos por uma série de “machões” provavelmente chateados por terem tido que aguentar sete bolas de uma vez #sóasfortesaguentam. Já não basta a vergonha que foi vocês falando mal dos argentinos durante a Copa toda, né? Para piorar, além de xenófobos ainda têm que ser homofóbicos… Meu sonho é que as plantas e árvores da Amazônia, em vez de oxigênio, comecem a transformar gás carbônico em noção. Porque não tá dando para respirar, gente.

Vocês estão precisando dar um F5 na vida, fazer o download do pacote de noção (baixem na revistageni.org, faz favor), porque francamente… Mané, me add no Orkut, tá? Traz o seu chucrute que eu faço uma feijoada e ainda te mostro a minha couve!

 

De 666 a 777: cenas de horror

 

malasia airplane russia revista geni cecilia silveira

 

Em 17 de julho de 2014, o Boeing 777 da Malaysia Airlines, que transportava 298 pessoas, foi atingido por torpedo enquanto sobrevoava a Ucrânia. Todxs a bordo morreram: passageirxs, (dentre xs quais algumas crianças), tripulantes.

 

As descrições do acontecimento que circularam pela imprensa nacional e internacional eram praticamente narrativas de horror: corpos atravessando telhados de casas, cadáveres caindo do céu indo parar em campos de trigo, chuva de objetos, cinzas por todos os lados. O avião sobrevoava uma região da Ucrânia que pretende se unir à Rússia contra a determinação do governo ucraniano, o que vem acirrando ânimos e gerando um conflito que aparentemente não vão terminar tão cedo.

 

A causa do desastre? Uma suposta “confusão” por parte dos rebeldes separatistas, que dispararam um míssil num avião comercial pensando ter atingido um avião de guerra.

 

A despeito das questões políticas – e de detalhes e motivações dessa guerra serem ainda pouco conhecidos pela maioria de nós -, essa tragédia teve um impacto direto na comunidade médica (e militância) internacional: dentre xs passageirxs do voo encontravam-se pesquisadorxs, militantes, ativistas e membros de ONGs, que se dirigiam para a 20ª Conferência Mundial sobre a Aids, na Austrália.

 

Toda uma série de pessoas que há anos vinham se dedicando ao combate ao preconceito, ao desenvolvimento de políticas públicas de saúde e na pesquisa de remédios e vacinas contra a Aids desapareceu, num sopro.

 

Nesse mundo injusto, em que tudo parece caminhar para uma polarização sem fim, gente que luta por aceitação e melhoria da vida de outrem é muito rara. Já não bastassem as pedras da vida, ainda estão caindo bombas do céu.

 

Nós, da Geni, gostaríamos de dizer o quanto lamentamos o incidente, porque ali naquele avião estavam também alguns de nossxs companheirxs de luta, ainda que sequer nos conhecêssemos.

 

Vange Leonel: não há um lugar no mundo aonde não podemos ir

Em 14 de julho de 2014, num hospital na região central de São Paulo, partia de vez, rumo à calada da Noite Preta, uma de nossas companheiras de luta mais queridas, e talvez mais importantes.

 

Para o grande público, ela era a cantora da música de abertura de uma conhecida novela; para quem, como nós, está nos calçadões desviando das pedras, ela era uma camarada, militante feminista e LGBT, uma das poucas artistas declaradamente lésbicas. Compositora, escritora e ativista, Maria Evangelina Leonel Gandolfo – ou Vange Leonel, como era conhecida – ajudou (e como!) a gente a se ver, a construir uma imagem. Talvez porque tenha tido coragem de se mostrar.

Vocalista de uma banda de rock de São Paulo até meados dos anos 80 – a banda Nau, formada ainda por Beto Birger e Mauro Ted  –, Vange partiu para a carreira solo na década seguinte, estourando nas paradas de sucesso brasileiras com a música “Noite Preta” (do CD Vange), uma das mais tocadas nas rádios no ano de 1991.

 

Nos anos 2000, veríamos sua presença (discreta, mas extremamente valiosa), sobretudo na imprensa, escrevendo para o Mix Brasil e para a coluna “GLS” (2001 a 2010). Escritora, é autora de 4 livros e de 1 peça de teatro, além de centenas de artigos. Ela e sua companheira, a jornalista Cilmara Bedaque, há um ano mantinham o Lupulinas,um blog sobre cervejas artesanais. Brindamos a você, minha cara.

 

Você era grande. Muito. Mas entendemos que todo trem precisa partir, que a hora de desarmar sua tenda havia chegado. Esperamos que esse mundo – que se fecha para nós, mas que se abre para você – veja-a brincar, sorrir, cantar, dizer. Que ele ouça você dizer de verdade, porque suas palavras nos ensinaram que não há um lugar no mundo aonde não podemos ir.

vange leonel cecilia silveira revista geni

 

Muito obrigadx, Vange.

 

Nos encontraremos certamente nas “dobras do universo”, querida amiga.

 

 

 

 

 

Leia outros textos da coluna Faróis Acesos.

Ilustração: Cecilia Silveira.

 

 

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