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O rubi espalhado

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A identidade prismática do cantor português António Variações. Por Júlia de Carvalho Hansen

dedicado a todos
que são chamados
António, Antônio e Antonio

Talvez caiba à vida de alguém ser a água dentro de um copo de papel, molhado por fora pela chuva, e qualquer mão que tente agarrá-lo o vai desfazer a complexidade. Mais fácil é saber quem é que te faz bem. E se aproximar. Não me lembro de alguma vez ter me identificado mais com alguém sobre quem escrevi do que agora me identifico com António Variações. Se identificação tem a ver com identidade, pelas convenções do que constitui uma identidade, eu e ele não coincidiríamos em quase nada. Homem, homossexual, barbeiro, cantor, português do Minho, nascido em 3 de dezembro de 1944, falecido em 13 de junho de 1984, ano em que nasci. À primeira vista os cinco meses em que estivemos vivos no mesmo planeta formam a maior coincidência entre nós. Isso para além, claro, da língua portuguesa, que, embora não seja a mesma, é a com a qual eu escrevo os meus poemas e ele compunha suas canções. Quando escuto António Variações estou certa de que ele também sou eu, são minhas as palavras que ele compôs. Pouso aqui a minha admiração, toda a minha gratidão.

antónio variações 1

As identidades são prismáticas, coração. Nascido António Joaquim Rodrigues Ribeiro, António tornou-se Variações primeiro porque não conseguia formar uma banda fixa, e como nome de artista apresentava António & Variações, dando “Variações” conta das diversas formações entre seus músicos. Depois o “&” caiu e ele assimilou o que já trazia em si mesmo: Variações carregava o nome da capacidade elástica de António. Exuberante e introspectivo, seu corpo carregou a fúria do tempo. A pressão que o passado fez em António o enraizou como uma árvore que se finca para chegar mais alto, quando o alto é uma copa fértil de frutos saborosos. Dizem que António Variações estava à frente do seu tempo, o que já é um lugar-comum do que se diz sobre qualquer artista que tenha vivido suficientemente vivo e que por isso nunca para de ecoar.

O pai de António era um homem da terra, que nunca deixava a horta nem o quintal sem os cuidados do aprumo e da limpeza, e era também músico na aldeia. Variações, que cantava desde miúdo, não sabia ler uma pauta musical. António apresentava as letras para os músicos com formação técnica e seguia assobiando taranranran as melodias, para que eles decalcassem a sua imaginação em arranjos e notas. Parece que ele desafinava e há quem diga que suas desafinações na verdade constituíam uma técnica, pois eram induzidas a acontecer sempre nos mesmos registros vocais. Só privilegiados têm ouvido igual ao seu. Conta-se que em algumas das canções a voz de António foi registrada antes dos instrumentos, porque eram os músicos que tinham que correr atrás do que ele cantava. A única vez que ouvi relato semelhante sobre algum cantor falavam da Billie Holiday. “Strange fruit”, pois é. Que essa música seja lembrada a cada vez que aplicam ao António a alcunha de “exótico”.

A falta de nomes para sua existência e atuação aparece desde o princípio. Embora tenha assinado contrato com a Valentim de Carvalho ainda em meados dos anos 70, tanto insistiram que ele deveria ser lançado como artista folclórico que o disco não emplacou em ser feito, nem mesmo foi terminado. Já nos anos 1980, quando um músico (que o ajudava a compor o que acabou por ser a sua primeira gravação) perguntou como António desejava que a música soasse, ele respondeu que a música teria de ser feita entre “a Sé de Braga e Nova Iorque” e a expressão tornou-se a mais famosa explicação da sua modernidade. Integração sem hierarquia, o estrangeiro e o folclórico não se limitam nem se anulam, antes se somam em variações.

António não podia ter mexido mais nas raízes, já que seu primeiro maxi-single, lançado em 1982, tinha como lado A uma versão de “Povo que lavas no rio”, fado cantado por Amália Rodrigues, a quem António admirava como a uma deusa. Como vocês podem imaginar, não só Caetano Veloso ou Bob Dylan foram difamados ao eletrizarem as tradições, afinal o que não falta é gente jeca neste mundo. Mas como também há sempre uma imensa parcela de gente acesa, imediatamente os vivos perceberam que tais aparições traziam o bafo quente e fresco da mudança. No mais, o conservadorismo é tão burro que não percebe que é justamente por utilizar o que os conservadores querem intacto que um artista, uma inteligência, atualiza o conservado, acabando por transmitir muito mais longe uma tradição do que ela estaria se estancada. As raízes são comestíveis impulsos para podermos voar e o belo António enfia o dedo na questão: “Fui agora lançado como rocker, o que dificilmente se aguenta, nesta terra. Confesso que também não me importava, se fosse apresentado como folclorista. Não nasci em Nova Iorque, sou minhoto, e é por isso muito mais natural que seja folclorista ou fadista. O David Bowie não o pode ser. Eu posso”.1

antonio variacoes (3)

Mais um centauro do que um camaleão, António adorava viajar e passou algum tempo em Londres com um irmão, mas diz que dessa viagem não aproveitou muita coisa. Diferente foi sua experiência em Amsterdam, onde aprimorou a técnica de barbeiro. Aliás, António não gostava de ser chamado de “cabeleireiro”, por preferir os cortes aos penteados. Também foi em Amsterdam que António conheceu um dos dois namorados mais importantes da sua vida, o ator Jelle Balder. Em algumas imagens vê-se no dedo de António um grande anel que ganhou dele, e que era uma colher retorcida. Também amou Fernando Ataíde, a quem conheceu correndo na costa da Caparica e parece que foi quem primeiro lhe ensinou a cortar cabelos.2 Para além disso, e bem antes disso, António foi soldado na guerra colonial em Angola, onde, protegido pela ajuda de um dos irmãos, foi enviado para uma região na qual praticamente não havia conflito.

Se não estou enganada (quem me informa é o site oficial), entre as músicas que gravou somente duas não tinham letras suas. São elas a referida “Povo que lavas no rio” e “Canção”, cuja letra é um poema de Fernando Pessoa. A integração de António Variações a Portugal não poderia ser maior. Se aos lúcidos o respeito traz consigo a radicalidade da crítica, António canta em “Minha cara sem fronteiras”:

Se me apetece
fico onde estou
Se alguém me impede de partir
Eu vou (…)
De cores não sei de bandeiras
Bandeira é branca pra mim (…)
Percorro a terra inteira
Não sei o que é uma nação
Venho da terra de ninguém
E a minha língua não tem país
O meu nome é alguém
E vou daqui para o lugar de além
Meu corpo é tronco sem raiz.

*

Peço desculpas, mas já não sei onde foi que vi um rascunho do António Variações no qual ao lado de uma palavra havia uma lista de palavras que rimavam com ela. A lista continha uns 15 ou 20 itens de possíveis substituições. Não tenho muito como recortar um pedaço do meu amor e explicá-lo, mas o que sempre me confirma que o António era um sujeito e tanto é a lucidez das suas letras: a convicção. Cada verso é como que entalhado em um pedaço de madeira, onde as palavras se esforçam por retorcer o sentido. Se seus metros são passos firmes ligados à tradição popular, a moral perdeu a pele e de dentro nasceu um rubi. António era um rubi, e o seria em todas as épocas e lugares, um rubi no palheiro.

Em Portugal aqueles que nasceram no campo, ou que por lá têm família, costumam chamar esse lugar de origem de “a terra”. “Vais à terra?”, perguntam. Variações veio dela, fértil e árdua terra. Ainda menino, entre os dois e três anos, António sofreu de uma doença desconhecida, que o fez perder todos os pêlos do corpo, ficando careca e sem sobrancelhas. Nenhum médico soube o que ele tinha e a mãe dele, Deolinda de Jesus, pra quem António dedica a música mais Lua em Câncer que já ouvi, conta que a cura se deu através de uma senhora que esperava na mesma fila de hospital. A curandeira disse para pararem de aplicar aqueles remédios azuis, para tirarem as ataduras da cabeça do menino, indicando algumas ervas e plantas que curaram António. Adulto, ele dizia ter memória clara do medo e da dor que sentiu nessa época.

Dizem que era teimoso, obstinado, que tinha “mau feitio”, que é uma expressão que os portugueses usam muito e que, mesmo depois de quatro anos vivendo em Lisboa, ainda não entendo o quanto ela é moral e quanto ela é real. Por um lado, ter “mau feitio” qualifica gente nervosa e cheia de si, por outro lado explica quem só faz o que quer. Eu não sei se vocês sabem como um português é capaz de fazer só aquilo que quer. O António não era nervoso, era teimoso, e não era arrogante, era humilde. E era obstinado, autoritário. Ainda quando criança a família que tanto amou queria que ele fizesse um curso profissionalizante numa aldeia perto de onde viviam e o António tanto resistiu que, depois de uma grande surra do pai, conseguiu o que queria: vir para Lisboa aos 12 anos de idade.

Como era doce e cheio de ternura! E também contam que a impressão que ele passava enquanto cortava um cabelo era de uma calma tremenda, que era educadíssimo, muito elegante. Tinha muita técnica, sabia usá-la, e nunca aceitava a sugestão do cliente. António trabalhou nos primeiros salões de cabeleireiro unissex de Portugal e conta que um dia foi atropelado por duas velhas enquanto atravessava uma rua na Baixa lisboeta. Uma delas, o vendo de brinco, exclamou: “Meu deus! Credo! Uma mulher de barba!”.

Dava de ombros para o ruído dos corvos e atravessava as cidades sendo o outro dos outros, si mesmo. Note-se que as roupas que o vemos vestir não eram roupas de palco, eram as roupas de seu dia a dia, as roupas com as quais se vestia para trabalhar de barbeiro. Pantufa de bichinho, casaco de gala, calças marroquinas, lençóis transformados em lenços, dobradiças de porta que viraram traje de festa, tudo lhe caía bem. Ou, como ele dizia, eram roupas que faziam dele ser si mesmo, sentir-se bem. Sentir-se na vida como num palco, herói de si mesmo, vítima e conquistador, sempre o primeiro e o último, tímido e autoritário.

*

Fico muito triste quando penso que no leito do hospital António deve ter revivido o medo da sua infância. E não houve senhora que pudesse curá-lo. Entre o seu primeiro disco e a sua morte António vive dois anos. Só dois anos. Já dava sinais da doença enquanto gravava e fazia as centenas de shows que fez, perdeu muito peso, tossia, não tinha fôlego para muito. Afirma-se que foi ele o primeiro português a ter morrido com os sintomas do HIV, ou o primeiro português suficientemente famoso para que tenham dado atenção. Tanto não se sabia o que era a doença que António foi isolado dentro do hospital durante meses. Para os amigos músicos que foram lhe visitar com a capa do álbum Dar & receber, António disse que era o isolamento que o estava a matar. Tanto não sabiam o que era a doença que no hospital queimaram os seus pertences, e o caixão foi fechado de maneira a ficar selado. No velório na Basílica da Estrela, no cortejo até Amares, no cemitério, ninguém o pode ver.

antónio variações dar e receber

*

As primeiras vezes que ouvi António Variações eu não entendi nada. Nem das suas letras, nem dos sintetizadores, das melodias. Achei barulhento, confuso, estranhava a voz. Mas, como ser bilíngue numa mesma língua foi das coisas que aprendi em Portugal, tempos depois eu estava numas férias no Algarve e a Chiocca me contou que era criança quando tinha visto o Variações na televisão, e que foi por vê-lo que percebeu a vida, que toda a vida podia ser diferente. Como a minha amiga é das pessoas mais vivas que já conheci, quando voltei a Lisboa resolvi escutar o António com atenção. Na época eu e o Bernardo morávamos juntos e já na primeira audição ele se apaixonou pelo António, o que me fez ouvir mais vezes, mesmo que pelo acaso do som escapado do quarto do Bernardo chegar até o meu, que tinha a vista mais bonita que já vi de um rio. A primeira canção que gostei do António é talvez a mais famosa. E, sem dúvida, é a mais livre, a mais honesta com o desejo, é aquela que elogia a aventura dos sentidos, que promove o acaso como denominador do elo. “Engate” em português de Portugal significa algo entre “cantada” e “xaveco”.

Eu e o Bernardo cantamos essa música num caraoquê que fica numa avenida cheia de sexshops que visitávamos depois de sair do cabeleireiro. No caraoquê, os nossos colegas de faculdade ficaram indignados quando dissemos que havíamos escolhido uma música portuguesa para cantar. Disseram que não podia ser, que tinha que ser uma música brasileira. Então perguntaram: “Mas que canção? Que canção vocês vão cantar?”, e quando respondemos “Canção de engate” os colegas disseram em uníssono: “Sim, sim, sim! Cantem essa!”. Ainda não sei se entendo por que eles mudaram de ideia com tanta velocidade. Mas desconfio que a resposta esteja no sorriso. Ultimamente vejo muitos amigos sorrindo quando abrem meu livro e encontram o nome do António Variações assinando uma das epígrafes. É o sorriso, António. É o sorriso que canta “mergulha na minha onda, vais ver que te sentes bem”.

1O trecho está citado em António Variações – Entre Braga e Nova Iorque, biografia escrita por Manuela Gonzaga e publicada pela editora Âncora. Grande parte das informações expostas no meu texto é retirada desse livro.

2 Não conto isso como simulacro de revista de fofocas. O António era reservadíssimo. Conto isso porque em vários registros que pesquisei a respeito da vida de António seus namoros foram apagados da memória pública. E o amor tem de emergir, tem de sobrar.

Júlia de Carvalho Hansen é poeta e gosta de ensaios.
Nasceu em São Paulo e vive em Lisboa.

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Tânia Carlos – 15 de agosto de 2013 - 21:02

Quando descobri o Variações, fiquei enlouquecida e, logo depois, deprimida até a alma, quando descobri que ele havia morrido antes mesmo de eu nascer. Não era possível que um cara tão incrível não estivesse mais aqui. Tive aquela sensação de não acreditar na morte recente de alguém. Sensação tão maluca quanto a de ter afeto por alguém que nunca vi e com quem nunca compartilhei de viver no mundo durante uma mesma época.

Essa sua visão íntima sobre o artista é linda, cheia de afeto, e me identifico tanto com ela que fiquei emocionada ao terminar de ler. Um abraço, Júlia.

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