Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

mídia & feminismo

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A experiência de um dos maiores blogs feministas do Brasil

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Entre leitoras generosas e trolls terroristas, a história do blog Escreva Lola Escreva. Por Lola Aronovich

Publicado em 17/09/2015.

 

lola

 

Foi em janeiro de 2008, enquanto fazia doutorado-sanduíche de um ano em literatura em língua inglesa em Detroit, nos Estados Unidos, que comecei o blog Escreva Lola Escreva. Na época, eu colaborava com crônicas de cinema para um site de fotografia e arte alternativa, mas aquele não era o meu público, e não havia espaço para comentários. Foi justamente para ter meu próprio espaço e total liberdade editorial que criei o blog, inspirado no título do filme cult Corra Lola corra. O único problema era que eu não fazia a menor ideia de como funcionava um blog. Eu sequer era leitora de blogs.

 

Meu marido, que sabia tanto de blogs quanto eu, aprendeu o básico para poder colocar o Escreva Lola Escreva no ar. O resto quem ensinou foi o leitorado, que se encarregou inclusive de fazer o banner. Um exemplo de como eu não entendia nada de blogs ocorreu em março de 2008, quando eu quis ilustrar um post sobre o contador de visitas, instalado havia pouco tempo. Como eu nunca tinha ouvido falar em print screen, tirei uma foto da tela com uma câmera. Um leitor logo deixou um comentário: “Por favor, diga que você não tirou uma foto da tela do seu computador!”. Eu não pude mentir.

 

 

Feminista desde menina

 

Apesar da minha falta de conhecimento, o blog imediatamente passou a atrair novos leitores, além daqueles que vinham por causa das crônicas de cinema. Eu sempre fui feminista, desde menina. Tenho registros escritos de diários em que, aos oito anos, eu dizia que homens não eram superiores às mulheres, que podemos fazer tudo que os homens podem, que devemos ter os mesmos direitos. Por isso, para mim a palavra feminismo nunca teve qualquer conotação negativa, e eu não tive crise nenhuma para me assumir feminista. Portanto, tudo que eu escrevia, como as crônicas, refletia quem eu era e continha conotações claramente feministas.

 

No período em que comecei o blog eu estava acabando de ler o clássico de Naomi Wolf, O mito da beleza, que me ajudou muito a aceitar meu corpo e também a ver como a imposição de um padrão estético visa baixar a autoestima das mulheres para controlá-las mais facilmente. Falei um pouco sobre o livro no blog, e as leitoras compareceram para se identificar com aquele discurso.

 

No dia 8 de março de 2008, Dia Internacional da Mulher, publiquei um texto chamado “Toda mulher tem uma história de horror pra contar”, uma ideia que eu havia discutido num pequeno grupo de doutorado alguns meses antes, ao constatar que todas as cinco estudantes presentes tinham sofrido algum tipo de violência sexual, ou escapado de uma ou mais tentativas. O título do post, tão assertivo, fez com que várias leitoras narrassem as suas histórias de horror no blog.

 

Parecia haver necessidade de se discutir feminismo na internet. Blogs feministas já existiam, claro, mas as leitoras que chegavam ao Escreva Lola Escreva sentiam-se acolhidas, apreciavam a simplicidade da abordagem, nada acadêmica, e gostavam do meu senso de humor ao tratar de temas horríveis. Além do mais, não era comum um blog ser atualizado diariamente. Nos primeiros meses, havia três posts por dia, um número insano para ser produzido por uma só autora.

 

Mas tanta dedicação começou a colher resultados: em meados de abril de 2008, o blog alcançou as primeiras 10 mil visitas e 23 mil page views (visualizações de páginas). Em agosto, o Escreva Lola Escreva chegou às 50 mil visitas, e 130 mil visualizações de páginas. Das cem visitas diárias do início, o blog já passava das 400 visitas por dia a partir de junho de 2008. No final de novembro daquele ano, o blog contava com 100 mil visitas, o que já o colocava entre os maiores blogs feministas do Brasil. Nos anos seguintes, o Escreva Lola Escreva chegou a 300 mil visitas por mês. Hoje o blog já ultrapassou a marca dos 13 milhões de visitas, 20 milhões de page views e 220 mil comentários publicados.

 

No entanto, a verdade é que eu não tinha base para saber se o número de visitas que o blog estava alcançando era muito ou pouco. Como são pouquíssimos os blogs que mantém contadores de visitas e de page views abertos, a comparação não é fácil. Além do mais, cada contador realiza sua própria contagem.

 

 

Guest posts

 

Tive a ideia de publicar textos de leitores convidados, que eu logo intitulei de guest posts, em julho de 2008, quando pedi a um leitor e comentarista frequente chamado Cavaca, um brasileiro que trabalhava em Portugal como garçom, que escrevesse sobre como era o hábito de dar gorjetas dos seus clientes internacionais. O segundo foi da Cris, uma mulher que quase tinha morrido por causa de anorexia. O terceiro foi da Patricia, que tinha e até hoje tem um blog, A Vida sem Manual. Ela falou sobre dieta e textos sem autoria que circulam pela internet. O quinto guest post, publicado em novembro de 2008, era da Taia, uma moça que havia sido estuprada nove anos antes. Ela começava o texto com: “E aí coragem, cadê você? Eu ainda estou em dúvida se devia ou não contar uma ‘historinha’, mas vou começar tentando…”. Depois disso, muitas outras mulheres quiseram contar os estupros que tinham sofrido.

 

Até hoje, já publiquei 700 guest posts no blog, com os mais variados temas: ditadura militar, machismo na infância, assédio sexual, assédio moral, psicopatia, anticoncepcionais, laqueadura, direito à vasectomia, necessidades especiais, orgulho de ser gay e lésbica, homofobia, orgulho de ser negro, racismo, cotas raciais, princesas, super-heróis, violência doméstica, aborto, orgasmo, aceitação do corpo, flertes em outros países, gravidez, maternidade, parto natural, traumas com pais, política, terrorismo, trotes, amamentação, câncer, ativismo em geral, privilégios, direitos dos animais, veganismo, especismo, sexo, linguagem preconceituosa, trabalho, religião, educação, gênero, cabelo, humor, visibilidade, representatividade, transgêneros, mídia, propaganda, assexualidade, BDSM, poliamorismo, vaginismo, bromidrose, meio ambiente, moda, infância, consumismo, mutilação, esportes, guerras, música, literatura, cinema, gordofobia, suicídio, opressões, entre inúmeros outros temas. A maior parte dos guest posts são relatos pessoais, narrando alguma experiência, mas também há vários escritos por especialistas em determinados assuntos.

 

Entre os mais de 3.800 posts já publicados no blog (cerca de 500 escritos antes de 2008, ou seja, antes do início do blog), 700 guest posts é bastante. Não é pouco trabalho publicar um guest post. Eu preciso convidar a pessoa, trocar e-mails com ela, esclarecer pontos, editar o post, cortando-o ou tornando-o mais fácil de ler, ilustrá-lo, incluir links, agendá-los, espaçando assuntos para não tornar alguns temas (estupros, principalmente) muito repetitivos. Alguns leitores não gostam dos guest posts porque dizem frequentar o blog apenas para ouvir a minha voz. Uma minoria (geralmente trolls) não acredita nos guest posts, acha que são todos escritos por mim. Outros pensam que eles não estão bem escritos, ou que certos relatos são demasiadamente juvenis.

 

Eu justifico os guest posts porque eles ampliam o escopo do blog. Pessoalmente, não sou adepta do BDSM, por exemplo, então eu teria enormes dificuldades para abordar o assunto. Graças aos guest posts, posso publicar relatos e guias escritos por quem pratica e conhece. Sem os guest posts, o blog seria monotemático, trazendo apenas as minhas opiniões, experiências e conhecimentos, que são extremamente limitados, como os de todo mundo.

 

Carla Rizzotto, professora visitante na Universidade Federal do Paraná, e cuja tese de doutorado pela Universidade Tuiuti (PR) teve como um de seus principais temas o meu blog, resolveu continuar pesquisando o Escreva Lola Escreva no seu pós-doutorado, para a minha felicidade. Um dos guest posts, publicado em agosto último, é dela, explicando sua pesquisa e convidando o leitorado a preencher um questionário. Houve 620 respostas, um número expressivo. Rizzotto ainda não tabulou os resultados (que me permitirão saber o gênero e a faixa etária de quem visita o meu blog, além de há quanto tempo e o nível de concordância com as minhas opiniões), mas me enviou a planilha. Fiquei maravilhada com a generosidade de tantas leitoras, que responderam detalhadamente à pergunta “Quais são as principais contribuições do blog Escreva Lola Escreva na sua vida?”. Há várias respostas de “é empoderador”, “mudou minha vida”, “é libertador”, “enfrentei meus próprios preconceitos”, “foi minha introdução ao feminismo”, “me deu a certeza que eu faço diferença no mundo”. Muitas leitoras destacaram a importância dos guest posts, que as fizeram ver vários temas pela primeira vez, ou por um outro ângulo.

 

 

Terroristas de gênero e a necessidade de feminismo

 

Um desses posts me rendeu uma ida à delegacia. No final de março fui notificada para depor na Polícia Civil, em Fortaleza, por causa de um guest post que publiquei em julho de 2013 sobre uma moça que fez um aborto usando Cytotec e descreveu a experiência. O Ministério Público aceitou a denúncia de um homem antifeminista que havia passado todo 2014 escrevendo no seu blog mais de 500 posts me atacando e caluniando. O inquérito, intitulado “Caso Lola Aronovich”, me acusava de ter cometido incitação ao crime, já que o aborto lamentavelmente não é legalizado no Brasil. No dia do meu depoimento, respondi à escrivã que eu tinha o direito de defender a legalização do aborto no meu blog. Ela disse acreditar que o inquérito não iria adiante, mas que defender a legalização pode ser visto como incitação ao crime.

 

Na realidade, o homem da denúncia e dos 500 posts contra mim é mais que um antifeminista. Ele é um masculinista, ou seja, machistas assumidos que às vezes tentam posar de “defensores dos direitos dos homens”. Fiquei perplexa ao conhecer esse nível de misoginia, no início de 2011, e passei a escrever sobre aqueles que apelidei de mascus. Foi chocante saber que existem homens que odeiam todas as mulheres, chamam todas de vadias (algumas facções preferem o termo merdalheres) e consideram que a verdadeira vítima do mundo atual é o homem hétero e branco. Ao combater os mascus, virei seu alvo preferencial. Nos últimos quatro anos do blog, tenho sofrido ameaças quase diárias de morte, estupro e tortura. Eles divulgam meu endereço e telefone residenciais, postam fotos da entrada da minha casa, oferecem recompensas para quem “abater a porca”, planejam atentados na universidade onde dou aula e na minha casa, produzem inúmeros textos e vídeos me difamando (e também meu marido, que cometeu o terrível crime de amar uma feminista). Eu fiz quatro boletins de ocorrência, e encaminho boa parte das ameaças à Divisão de Direitos Humanos da Polícia Federal.

 

Ser atacada na internet por ser feminista está longe de ser exclusividade minha. Aliás, nem é preciso ser feminista – basta ser mulher. Um estudo de 2006 da Universidade de Maryland criou vários perfis falsos e os pôs para interagir nas redes sociais. O levantamento apontou que perfis com nomes femininos recebiam em média cem mensagens ameaçadoras e sexualmente explícitas por dia. Para perfis com nome masculino, esse número caía para 3,7.

 

Porém, para quem é mulher e feminista, o abuso é sem dúvida muito maior. Nos Estados Unidos, os ataques são tão incessantes que várias ativistas on-line começaram a deixar o mundo virtual. Lindy West, uma americana com frequência garantida na mídia, declarou: “Ser insultada e ameaçada on-line é parte do meu trabalho”. Outra feminista famosa, Jessica Valenti, refletiu sobre os problemas emocionais causados por esse assédio rotineiro: “Você não pode ser chamada de puta dia sim, dia não, por dez anos, e isso não ter um impacto muito sério em sua psique” (tradução minha).

 

Será? Converso com blogueiras brasileiras que realmente ficaram abaladas com os primeiros ataques em massa. E sei de mulheres que saíram de casa após receberem algumas ameaças. Porém, talvez por ter iniciado o blog com 40 anos, já bem casca-grossa, esses ataques nunca me afetaram. Eu gostaria que eles não existissem, lógico. Gasto tempo demais com trolls (que deveriam ser chamados de terroristas de gênero, segundo Thériault) e não tenho a menor vocação para ser mártir. Mas não sinto medo de gente que precisa estar por trás de uma tela de computador, de preferência no mais completo anonimato, para ameaçar. Nas mais de 150 palestras presenciais relacionadas a gênero que dei nos últimos anos, nunca fui recebida com a menor animosidade. Muito pelo contrário. O que vejo é que as pessoas querem falar sobre feminismo. E as que não querem, usam argumentos tão raivosos que só confirmam a necessidade de falar sobre o assunto. É nesse contexto que meu blog se encaixa. Mas sonho com o dia em que o feminismo não seja mais necessário.

 

 

Referências

 
ARONOVICH, Lola. Causos de um brasileiro num restaurante italiano em Portugal. Escreva Lola Escreva. 24 jul. 2008. Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2008/07/causos-de-um-brasileiro-num-restaurante.html>. Acesso em: 5 jul. 2015.

 

______. Guest post sobre duas roubadas: dieta e confisco de textos alheios. Escreva Lola Escreva. 10 set. 2008. Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2008/09/guest-post-sobre-duas-roubadas-dieta-e.html>. Acesso em: 5 jul. 2015.

 

______. Não diga que nunca respondeu a uma pesquisa. Escreva Lola Escreva. 6 ago. 2015. Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2015/08/nao-diga-que-nunca-respondeu-uma.html>. Acesso em: 5 jul. 2015.

 

______. O relato da Taia. Escreva Lola Escreva. 20 nov. 2008. Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2008/11/o-relato-da-taia.html>. Acesso em: 5 jul. 2015.

 

______. O verdadeiro significado da palavra comunhão. Escreva Lola Escreva. 13 jul. 2013. Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/07/guest-post-o-verdadeiro-significado-da.html>. Acesso em: 5 jul. 2015.

 

______. Relato de uma mulher que sobreviveu à anorexia. Escreva Lola Escreva. 21 ago. 2008. Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2008/08/relato-de-uma-mulher-que-sobreviveu.html>. Acesso em: 5 jul. 2015.

 

______. Toda mulher tem uma história de horror pra contar. Escreva Lola Escreva. 8 mar. 2008. Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2008/03/toda-mulher-tem-uma-histria-de-horror.html>. Acesso em: 5 jul. 2015.

 

DALTRO, Patricia. A vida sem manual. 2015. Disponível em: <http://www.avidasemmanual.blogspot.com.br/>. Acesso em: 11 jul. 2015.

 

GOLDBERG, Michelle. Feminist writers are so besieged by online abuse that some have begun to retire. Washington Post, Washington, 20 fev. 2015. Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/opinions/online-feminists-increasingly-ask-are-the-psychic-costs-too-much-to-bear/2015/02/19/3dc4ca6c-b7dd-11e4-a200-c008a01a6692_story.html>. Acesso em: 11 Set 2015.

 

HESS, Amanda. Why women aren’t welcome on the internet. Pacific Standard, 6 jan. 2014. Disponível em: <http://www.psmag.com/navigation/health-and-behavior/women-arent-welcome-internet-72170/>. Acesso em: 7 Set 2015.

 

RIZZOTTO, Carla. Discursa, Lola, discursa: estratégias discursivas de um blog feminista. Galáxia. PUC São Paulo (Online), no. 28, 2014. p. 248-261. Disponível em: <http://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/19043/15753>. Acesso em: 7 Set 2015.

 

THÉRIAULT, Anne. Let’s call female online harassment what it really is: terrorism. Vice, Canadá, 12 fev. 2015. Vice. Disponível em: <http://www.vice.com/en_ca/read/lets-call-female-online-harassment-what-it-really-is-gender-terrorism-481>. Acesso em: 11 Set 2015.

 

WOLF, Naomi. O Mito da Beleza. 1991. Disponível em: <http://www.4shared.com/account/file/15087727/cbd23f90/Naomi_Wolf_-_O_mito_da_beleza.html> Nova York: Harper, 2002.

 

 

Lola Aronovich é mestra e doutora em literatura em língua inglesa pela Universidade Federal de Santa Catarina e professora-adjunta do Departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará.

 

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