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resenha

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Homens adultos enfrentam a infância na peça Coisas de meninos, em cartaz em São Paulo. Por Márcio de Deus

A história se passa numa cidadezinha fictícia – que mais parece um vilarejo – chamada Livramento, mas em certos momentos x espectadorx percebe que esse lugar pode muito bem representar o mundo todo. Nela, há uma igreja que ocupa 80% do espaço total da cidade, deixando apenas 20% para serem competidos entre os poucos comércios, uma escola estadual, as casas de suas/seus moradorxs e um rio.

 

Nesse contexto, crescem seis amigos inseparáveis – pelo menos até os 12 anos de idade, quando um acidente que ocorre à beira do rio da cidade tira a vida de um deles. Essa morte parece representar um divisor de águas em suas relações. Curiosamente, o falecimento de um dos habitantes de Livramento significava mais espaço para os demais e a possibilidade de respirar melhor. Talvez pudéssemos entender esse respirar melhor como um não ter de dar satisfações, ou mesmo como a chance de viver uma vida sem ter o olhar do outro para cercear suas ações. Com exceção da breve tristeza de Gui, a morte de Le não fez seus outros amigos derramarem uma lágrima sequer. Gui parecia ser diferente. Todas as manhãs, ele era surrado religiosamente pelo pai (o motivo disso, iremos descobrir no decorrer da história).

 

Na escola local, há uma professora, dona Cerez, que é responsável por ensinar todas as disciplinas: matemática, física, geografia, química. Podemos entender isso como uma castração de possibilidades de diferentes visões do mundo.

 

O cenário é outro elemento que transpõe essa limitação, que não é só física, mas também mental. O incômodo dessa asfixia de liberdade de expressão só aumenta conforme vamos adentrando no mundo criado pela narração, expondo suas fronteiras bem delimitadas até mesmo por meio da expressão corporal dos atores. Além disso, há no palco manequins que representam outrxs moradorxs. De certo modo, esses personagens são também mudos e moldados para melhor aparecerem nas vitrines da vida. Em cada extremidade do palco, um santinho é posto. Sua disposição flagra todos os acontecimentos do cotidiano dxs moradorxs, e eles podem ser compreendidos como participantes coercitivos no imaginário dxs habitantes da cidade, juntamente com a colossal igreja, que torna xs moradorxs pessoas pequeninas diante de um gigante não só em termos espaciais, mas também de visão do mundo e de como pensar o ser humano.

 

Numa tarde de Carnaval, os meninos da cidade, que agora são homens, vestem-se com roupas femininas. Esse momento de descontração e o elemento feminino trazem não só a possibilidade do rompimento com a estrutura dicotômica de gênero, mas dão coragem para um dos jovens, Arthur, fazer um sutil comentário para seu amigo de infância Gui. “Que lindo vestido! Você fica bem nele. Ele é bem curto.” A partir disso, a tensão criada pela sociedade de Livramento tolhe a possibilidade de algo a mais. Gui parece não se contentar com os elogios nem com o discurso engessado, ele faz perguntas, elas são mais atraentes para ele do que as respostas.

 

Num outro momento, Arthur revela para Carlinhos que está apaixonado por Gui. Carlinhos propõe dar fim àquilo que incomoda – Gui. Nas palavras do personagem: “Estaremos fazendo um serviço público para a cidade ao matarmos o Gui. Ele não é normal e todos os moradores sabem disso”. Entretanto, numa reviravolta, Arthur decide não matar Gui. Em vez disso, Arthur acaba declarando o que realmente sente e diz que o que mais deseja é ter Gui para ele. Carlinhos não se conforma com a decisão do amigo e tenta impedi-lo. Após um confronto violento e uma revelação aterradora, o padre João, ouvindo a confusão, chega para intervir. Quando o religioso percebe que Gui está envolvido na situação, passa a fazer ofensas pessoais ao rapaz, dizendo que Gui “não é normal, que o pai dele devia ter batido mais nele quando ele era criança, até ele aprender a ser homem”. Nesse momento, x espectadorx é exposto a uma verbalização de ideias e crenças de intolerância que infelizmente não só pertencem ao espaço da ficção, mas são disseminadas diariamente por pessoas que dizem estar fazendo o bem. Interessante observar que a resposta de Gui a esse ataque foi justamente evidenciar que o preconceito, o rancor e a ignorância estão no homem que utiliza de forma equivocada a religião para justificar suas ações.

 

O uso da música ao vivo nesse espetáculo ajuda a aliviar a tensão. Em alguns momentos, essa pausa favorece um distanciamento para x espectadorx melhor entender os acontecimentos e também não se envolver de forma angustiante na representação. Esse não é o único elemento épico na peça – o distanciamento entre personagem e ator é bem usado. De tempos em tempos, os atores anunciam quem irão interpretar e indicam o momento em que voltarão aos seus papéis anteriores.

 

O tempo na peça é marcado pela narração. Temos o revezamento dos narradores, e cada um deles vai dando sua versão dos fatos. Como o tempo não é linear, ora estamos presenciando fatos da infância, ora da vida adulta. Bem ao estilo pós-moderno, o eixo da coesão dos principais acontecimentos é mantido, o que facilita a compreensão dx espectadorx do tipo de vida que esses moradores de Livramento levam.

 

Uma curiosidade é que os atores Arthur Berges, Carlos Sanmartin, Davi Tápias, Guilherme Delazzari e Pier Marchi utilizam seus próprios nomes para dar vida às personagens. Obviamente eles são obrigados a se desdobrar em outros papéis, como os de Le, dona Cerez ou padre João, e, por vezes, utilizam os manequins para representar outrxs personagens dessa sociedade.

 

Durante o espetáculo, os personagens, ao dizer o nome da cidade Livramento, recorrem sempre à expressão “Livrai-nos”. A sensação que fica para x espectadorx é: do preconceito, livrai-nos! Do pensamento limitador e dicotômico, livrai-nos! De todas as formas de opressão impostas pela sociedade em que vivemos, livrai-nos! De uma religião que julga e condena, livrai-nos!

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Coisas de meninos

Texto e direção geral: Kleber di Lázzare

Direção musical e música original: Cia. dos Meninos

Supervisão musical: Edu Berton

Elenco: Arthur Berges, Carlos Sanmartin, Davi Tápias, Guilherme Delazzari e Pier Marchi

 

Até 26 de setembro de 2013, às quartas e quintas-feiras, às 21 horas, no Teatro Commune (r. da Consolação, 1.218 – Consolação – São Paulo, SP).

 

Mais informações:

http://www.commune.com.br/?p=1579

 

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Fotografia: Ana Paula Lazari.

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