Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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NO MEIO | 04: Um projeto, sete cores

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Conflitos, descobertas, similaridades e diferenças em experiências vividas no interior de São Paulo. Vistas, ouvidas e narradas no projeto Sete cores em terras roxas. Por Luiz Pimentel e Fábio Figueiredo

Esta coluna se dedica a tentar ouvir mais vozes que foram atravessadas pelos temas da Geni.

 

Pretendo, em todas as edições, me aproximar textualmente de alguém, por meio de um convite de escrita.

 

A regra que guia minha parceria com x outrx autor/a da coluna é afetiva. Este é o corpo da coluna: escutar e escrever a partir de um movimento afetivo. É assim que vejo os corpos dxs minhas/meus parceirxs da revista se moverem. É assim que vejo as pessoas ao meu redor lidarem, em seus minúsculos cotidianos, com o que esses temas evocam.

 

***

 

Começo de conversa:

 

Sete cores em terras roxas foi um projeto realizado pelo coautor da coluna deste mês, o querido Fábio Figueiredo, o Fabito. Nesse projeto, concluído em 2013, ele viajou para as cidades de Tatuí, Quadra, Itapetininga, Angatuba, Capão Bonito, Sorocaba e Tietê, todas no interior de São Paulo, recolhendo depoimentos que pudessem apresentar fragmentos de cotidianos de lésbicas, gays, trans e bissexuais que vivem nessas cidades.

 

Neste blogue podem ser vistas as publicações do projeto. O trabalho produziu 13 episódios em vídeo, a partir dos depoimentos dxs entrevistadxs, e também uma publicação-cartilha, com dados e textos informativos sobre algumas das questões LGBT.

 

Há semelhanças entre o gesto empreendido pelo Fabito em suas entrevistas e o meu dentro desta coluna. Mais interesse em escutar do que em falar, talvez. Já os fins me parecem distintos. Esta coluna, como já dito, deseja o minúsculo. Nas três edições anteriores, busquei me envolver com xs coautorxs no sentido de expor, na forma de texto, algum testemunho de como os temas da Geni acontecem em sua experiência, sem interesse pedagógico nesses relatos e sem buscar qualquer apreensão das situações. O Sete cores, por sua vez, apresenta uma intenção formativa sobre a diversidade sexual e, em sua apresentação, lê-se que o projeto “buscou compreender um pouco da vida de LGBTs, apresentando questões existenciais sem estereótipos, contrapondo a imagem do LGBT veiculada nos meios de comunicação de massa (televisão, revistas), apresentando suas felicidades, angústias, medos, sonhos, conquistas, fracassos, como qualquer outro cidadão”.

 

A partir de nossas diferenças de projeto, o que mais me instigou, no que emergiu da parceria entre mim e Fabito para o texto da coluna, foi um nó surgido de um depoimento coletado ao longo das viagens e que o deixou inconformado. Espaço de pasmo e incômodo.

 

O texto elaborado para esta edição da coluna deu-se assim: pedi ao Fabito que escrevesse sobre seu projeto. Essa escrita deveria ter um/a destinatárix específicx, a ser escolhidx por ele. Fabito escolheu Paulo como interlocutor e lhe escreveu uma carta.

 

Paulo foi o entrevistado do episódio seis, o único apresentado no site em forma de texto. Todos os outros podem ser vistos pelo Youtube, mas a entrevista do sexto episódio não pôde ser gravada. Paulo apresentou uma espécie de problema para o projeto inicial de Fabito.

 

Essa pessoa-problema rendeu um texto chamado “Antônio e ele”, imprescindível leitura para o que se segue.

 

Segue a carta-ficção do Fabito para o Paulo, algum tempo após o encontro do episódio seis.

 

***

 

Olá, Paulo. Como vai?

 

Já faz algum tempo que nos encontramos em sua casa. Bati em sua porta porque uma prima distante sua me disse que você era gay. Fui, sem titubear. Aí o susto, as mentiras, a entrevista não gravada e as verdades. Será que eram verdades mesmo? Mesmo que não sejam, não há problema. Rendeu um lindo material, e as suas memórias (verdadeiras ou não) ajudam a entender o quão ainda é difícil para algumas pessoas viver plenamente sua (homo)afetividade. Quando nos conhecemos, você sofria pelo vizinho da frente. Estavam terminando uma relação de quatro anos. Uma relação sem beijo na boca, com afetos desviados, sem conversas a sós. Essas conversas e o comedido afeto apareciam entre todos, enquanto vocês experimentavam ser amigos. E te doía falar dele. Confiou em mim para colocar pra fora, com todas as dores e rancores, sua história de amor.

 

Antônio, com sua esposa e filha; você, com sua namorada, juntos há nove anos. E, a sós, você e Antônio se bebiam. Queria dizer que, histórias como a sua, imaginei encontrar aos montes. O preconceito do interior de São Paulo, as relações veladas, os conflitos com os próprios desejos. E o que encontrei foram pessoas bem resolvidas com a sua (homo)sexualidade, que afirmavam curtir a vida no interior e não tinham receio em se mostrar como gays para a sociedade. Claro que minha mostra foi absolutamente enviesada. Pelo Facebook, dezenas de pessoas que eu chamei para uma conversa não aceitaram se expor. E, pra você, não teve saída. Eu estava na porta de sua casa. Você com essa dor por Antônio, sem poder falar a ninguém, e, estranhamente, confiou em mim, um estranho primo de quarto grau, para dividir a sua história. E juro que não contei a ninguém, Paulo. Seu nome e o de Antônio foram alterados em todas as minhas escritas, e as informações, levemente transformadas, mas sem perder as questões centrais que traziam as suas memórias.

 

Paulo, queria que você desse uma olhada em outros depoimentos do projeto. A maioria dos entrevistados passou por grandes conflitos também. A descoberta da homossexualidade, o processo de aceitação, a revelação e as tretas com a família. Quase todos passaram por isso. Como nós dois sabemos, é bem difícil mesmo. Pra mim, não foi fácil também. Mas cada um vai resolvendo suas angústias em seu tempo…

 

Sei que dificilmente você e Antônio vão conseguir viver esse amor, e isso de alguma forma me faz sofrer. Não por você, individualmente. Mas por todos os gays que não conseguem viver sua afetividade plenamente. Isso me motiva a dar continuidade aos trampos. Esses dias, eu estava na sua cidade e pensei em dar uma passada na sua casa e tomar um café. Queria saber como se desenrolou a história com Antônio. O amor velado. Todo o sentimento e afeto sublimados e transformados em um delicioso tesão. O sofrimento solitário.

 

Acabei não indo. Me enrolei. Não sabia nem como colocar a conversa. Mas ainda quero passar por aí, levar o DVD, assistir aos vídeos com você, ler o conto que fiz sobre sua história… sei lá, queria conversar mais um pouco… ver o que você acha dos outros entrevistados. Logo mais tô por aí. Quem sabe não marcamos esse café e, como nos contos das princesas, você me conta que sua história teve um final feliz. O foda é que em nossas histórias não há princesas…

 

Grande abraço,

 

Fabito

 

luiz

 

A partir do nó desse encontro com Paulo, pergunto ao Fabito e a mim mesmo (ocupados que somos em nossos cotidianos com a tarefa da mediação):

 

Quanto tempo estamos dispostos a aguardar essa promessa de uma vida completamente realizada?

 

Ela virá?

 

Quem nos coloca a tarefa de buscar por ela?

 

Ao mesmo tempo, também entendo que os impedimentos de algumas realizações são menos tragáveis do que outros.

 

Fabito escreve, no seu texto “Antônio e ele”, sobre a justificativa para a manutenção de uma suposta vida no armário: “É como se houvesse um pacto de silêncio. Ninguém entrega ninguém. Se um cair, cai muita gente junto”.

 

A imagem de uma vida coletiva amedrontada é terrível, e eu não desejo ter que tolerar esse estado como imutável.

 

Mas, mesmo que todxs caíssem, todxs se assumissem, tudo lograsse aparente sucesso, a realização aconteceria?

 

Parece que nós nos dedicamos (nós, da Geni, e o Fabito, do Sete cores) à militância por uma vida menos indigna no sentido de suas posições, inclusive se essa posição for a sombra, o canto, o segredo.

 

Dada a indignidade que nosso olhar projeta em alguns encontros, sigo mais interessado nas perguntas radicais que podem se abrir justamente no contato com vidas que não estão dando certo. Perguntas abertas pela carta do Fabito: é mesmo tudo verdade o que se colhe como depoimento? Quais os sentidos e os efeitos de tomar e dar um depoimento de uma vida? Qual é a nossa expectativa de afeto, de relação e de verdade na sexualidade? Essa verdade existe? Até que ponto grifarmos o tema da sexualidade pode confinar um sujeito na busca de um sentido identitário rígido demais?

 

Temas para outras escutas.

Leia outros textos de Luiz Pimentel e da coluna No Meio.

Ilustração: Bruno O.

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