Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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O CÉRVIX DA QUESTÃO | Quarenta milhões de mulheres inexistentes e uma depilação

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Diante da tragédia, é possível continuar acreditando na nossa vidinha ordinária? Por Clara Lobo

Esta coluna eu escrevi e reescrevi muitas vezes. Minha ideia inicial era falar do livro The Equality Illusion, de Kat Banyard. De como a taxa de condenação pelo crime de estupro no Reino Unido é de apenas 6,5%. De como, ainda no Reino Unido, as mulheres recebem em média 22,6% a menos que os homens fazendo o mesmo trabalho.

 

Quis falar sobre a existência de uma camiseta da marca estadunidense JC Penney, cuja estampa diz: “Sou muito bonita para fazer dever de casa, então meu irmão tem de fazê-lo por mim”. Quis mostrar a Barbie falante que dizia: “Aula de matemática é difícil! Vestidos de festa são divertidos!”. Quis muito comentar este vídeo absurdo de um parlamentar inglês, bêbado, puxando uma colega para o seu colo em meio a uma sessão da casa.

 

Então me deparei com o seguinte texto:

 

“Após o parto, meu marido veio ver a mim e à bebê. Ele disse: ‘É uma menina. Por que você deu à luz uma menina?’. Ele queria um menino, um herdeiro. Meninas eram muito caras, ele disse.” Alguns dias após dar à luz, Banu contou que seu marido lhe deu um ultimato: “Para o casamento dela precisaremos de 100 mil rupias. Se você conseguir essa quantia com a sua mãe, então pode ficar com a bebê. Se não, mate-a”. Três meses depois, a filha de Banu está morta. Ela foi internada com marcas de mordida, queimaduras de cigarro e o pescoço deslocado. O pai, acusado de tê-la espancado até a morte, está preso.

 

Isso aconteceu no ano passado, na Índia. Um país que tem uma defasagem de aproximadamente 40 milhões de mulheres em relação ao número de homens em sua população. Sabem o que é isso? Quarenta milhões de fetos abortados porque eram do sexo feminino; de meninas mortas ao nascer; de mulheres assassinadas por disputas pelo dote do casamento (em 2010, uma noiva morreu a cada hora por este motivo). Quarenta milhões, lembro-lhes, é a população total da Argentina. Uma nação inteira de pessoas indesejadas e assassinadas apenas por serem mulheres.

 

Em uma tentativa de impedir o aborto de fetos femininos, o governo indiano proibiu os ultrassons de identificação de sexo. Mesmo com a interdição, casais ricos estão dispostos a subornar profissionais por esta informação valiosíssima.

 

Em partes da Índia, é extremamente incomum um casal ter duas filhas. Se uma menina for a primogênita, a segunda, a terceira e a quarta serão abortadas ou assassinadas até que se produza um varão. Como parte de uma campanha de “conscientização”, o governo instalou placas em lugares públicos com os dizeres: “Se vocês se livrarem de suas meninas, onde seus filhos encontrarão uma esposa?”. Pasmem: esse é o nível do debate. A vida das mulheres indianas importa apenas quando interfere nas necessidades dos homens.

 

Volto então ao Brasil. Parece que uma mulher ousou posar para Playboy sem se depilar por inteiro. Como se não houvesse nada mais importante acontecendo no mundo, pessoas sentem a necessidade de se posicionar ante algo tão irrelevante com comentários clamando “falta de higiene” ou outros ataques igualmente imbecis. Pergunto-me: é possível viver de forma mais alienada e superficial do que isso? O que se ganha ao desperdiçar a vida em assuntos fúteis, fechar os olhos para as grandes tragédias, as grandes injustiças, e engajar-se apenas no que há de mais banal?

 

O que se ganha, não sei. Mas sei bem o que se perde. Perde-se o que perderam xs médicxs brasileirxs ao hostilizarem suas/seus colegas cubanxs. Perde-se o que perderam aquelxs que se sentiram ultrajadxs por um presidente vindo da classe operária. Que dizem que uma mulher de minissaia está pedindo para ser assediada. Que escondem suas raízes negras. Que não querem que seus filhos sejam “bichinhas”. Que afirmam não ligar para política. Que fazem questão de usar roupas de marca. Que só usam transporte público em Paris.

 

Dona Neusa Sueli diria: “Falta-lhes noção”. Mas é muito mais do que isso.

 

No fim, talvez eu exagere e haja espaço para profundidades e superfícies. Não tiro conclusões. Sei apenas que o Holocausto matou 6 milhões de judeus. Diante das 40 milhões de mulheres indianas impedidas de viver, é possível continuar acreditando na nossa vidinha ordinária?

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 Leia outros textos de Clara Lobo e da coluna O Cérvix da Questão.

Ilustração: Cecilia Silveira.

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